A BENGALA

Dona Argentina enviuvou.

Foi tudo muito rápido. A morte chegou sem pedir licença e levou-lhe o marido de mais de cinquenta anos de casados.

“Haveria de vir numa altura qualquer” – disseram.

“Nestas idades é só o que se pode esperar” – acrescentaram.

Fraco consolo tamanhas evidências e dona Argentina a imaginar o que viria a seguir.

E uma certeza a apoquentar-lhe o ar impregnado pelo cheiro das coroas de flores depois de fecharem o caixão com o marido lá dentro;

– Agora fico sozinha.

Sentiu que um resto de mais de cinquenta anos de casados e um sentimento de nunca mais era o que acabavam de fechar naquele caixão.

Aferrou-se-lhe ao coração a solidão que iria viver. Uma angustia de nunca mais continuar a viver aqueles mais de cinquenta anos de casados mesmo com azedos dias à mistura. Foi quando se lembrou da bengala. Não sabe por que raio lhe veio essa lembrança.

– A bengala!

Não recorda quem lhe disse que a devia ter metido no caixão não precisasse o marido dela para a caminhada final.

Tonteiras, fungou num pranto que os outros esperavam tivesse lágrimas.

Na véspera, dona Argentina, como de costume,  tinha ido ao mercado e trouxera dois carapaus dos grandes que cozinhou com molho à espanhola para o almoço. Dom Manolo Xisteros, galego de Ourense, marido de dona Argentina comeu o seu carapau com agrado, saboreou as batatas cozidas que foi embebendo no molho à espanhola e escorropichou dois copitos de tinto alentejano.

“Ninguém diria que estava mal e que a morte já o tinha fisgado” – disseram os mais admirados.

Seguiu-se a sesta habitual a fingir estar a ver um daqueles programas parvos que dão na televisão para adormecer velhos. Depois o passeio até ao jardim e, no regresso, com a bengala tuc-tuc, a paragem obrigatória na “Estrela da Avenida” para meia de paleio com outros arrumados da vida e beberricar, numa calma de quem sabe que o tempo já deixara de contar, umas ginginhas com elas.

Depois de se sentir velho para tanto reboliço e ter trespassado a “casa de pasto” que tinha no Bairro Alto, era este o roteiro que se apegara à feição de viver de dom Manolo Xisteros, galego de Ourense e lhe preenchia o hábito de ainda andar por aqui com a bengala tuc-tuc no resto que lhe sobejava do vivido.

Muitos anos tinham passado desde que viera de Ourense para trabalhar na carvoaria de um tio, “ali nas avenidas novas”, aviando “copos de três” e carregando sacos de batatas. As cambalhotas da vida tinham sido tantas até à fortuna da “casa de pasto” no Bairro Alto. Agora só aquela bengala tuc-tuc a ajudá-lo a chegar a casa com a goela sedosa do adocicado das ginginhas com elas e encolher os ombros às rabugeiras de dona Argentina.

– Velho beberrão.

A bengala era um adereço que não o largava desde a operação à anca quando o médico lhe garantiu que, com ela, iria melhora a qualidade de vida e a mobilidade para ir daqui para ali e de lá para cá. Desde essa douta sentença, lavrada com a sapiência de quem não lhe dava mais remédio, dom Manolo Xisteros, galego de Ourense ficara a ser uma bengala, tuc-tuc com um homem que se deixava conduzir por ela, daqui para ali e de lá para cá.

Sabia que dona Argentina, mais de cinquenta anos de casados, numa surdina de murmúrios ciumentos das ginginhas com elas já se fartara dele e da bengala tuc-tuc, daqui para ali e de lá para cá a esbarrar nos móveis que lhe apareciam pelo caminho.

E ela;

– Velho beberrão.

E gora;

Dona Argentina a ver um daqueles programas parvos que dão na televisão à tarde para adormecer velhos, na companhia da bengala, tuc-tuc que estava repousada no cadeirão onde dom Manolo Xisteros, galego de Ourense dormia a sesta e que ela se recusara a meter no caixão para o ajudar na caminhada final,

a suspirar,

– Velho beberrão, deixas-te a bengala como castigo para me sentir ainda mais sozinha.

(A SOLIDÃO TEM DESTAS COISAS)

Ainda enrodilhadas no pesadelo com os Fidalgos da Casa Mourisca e com os ouvidos cheios da nona do Beethoven, as cataratas do senhor Amadeu não atinaram, mais uma vez, com o buraco da sanita e o mijo matinal saiu desordenado, em círculos, ziguezagueando destinos que não eram deste mundo, fazendo agora um “looping” que se encaracolou antes de se despenhar no tampo verde desmaiado da sanita que o nevoeiro das cataratas do senhor Amadeu se esqueceu de levantar.

Com os chinelos encharcados por aquele mixórdia morna, o senhor Amadeu voltou para a cama e esperou, paciente, que o berro de dona Etelvina entrasse numa fúria de quase arrancar a porta do quarto e lhe fazer derramar das cataratas um oceano de fúria.

(a solidão tem destas coisas)

e:

– Seu velho potranqueiro mais uma vez a casa de banho toda mijada. Um dia corto-te as peles da chouriça e meto-te no buraco um tubo directo para a sanita e vais ver que nunca mais mijas fora do penico.

e:

(o senhor Amadeu a virar-se para o parceiro do lado que ainda ressonava os soporíferos da véspera.)

– Esta cabra não sabe nada do que fui e do que ainda sou. Não sabe que antes de me sentar ao estirador a esboçar as mais belas obras de arte da arquitectura contemporânea, esquissava as ideias, mijando contra as paredes dos prédios.

e:

(dona Etelvina de esfregona num vai e vem)

– Vim de S. Vicente, atravessando tanto mar para me afogar em mijo de velhos!

(a solidão tem destas coisas)

e:

o senhor Amadeu de papo para o ar, a imaginar no tecto do quarto o minarete – que acabara de esquissar na tampa da sanita – com que remataria os jardins do palácio das mil e uma noite que um árabe lhe tinha encomendado.

– Todos os dias a mesma lengalenga. Esta tipa não sabe quais são as sua obrigações? Não sabe que um artista vive concentrado no seu trabalho? Depois dizem que não cumpro os prazos. Qualquer dia tenho o árabe à perna a reclamar que não acabei o projecto do palácio. Esquissar obras de arte com mijo contra as paredes não é para todos. É preciso ter mão firme para o traço não sair enxovalhado por tremuras.

e:

dona Etelvina que tinha atravessado tanto mar desde S. Vicente na ilusão que haveria um mundo menos custoso para lá desse tanto mar, ali, na revolta do vai e vem da esfregona, a desfazer-se num pranto de saudade, a maldizer o destino que a levou a substituir a penúria do lá tão longe pelo cheiro adocicado do mijo encardido de velhos que exalavam a imobilidade de uma vida já ida:

– Bardamerda seu velho porcalhão, maluco mijão. desatinado do juízo…

(a solidão tem destas coisas)

e:

o senhor Amadeu, para além de mijar no sofrimento diário de dona Etelvina que já não era mais nada que um esquisso pronto a ser empurrado desta vida, ainda a teimar:

– Amanhã quando me levantar tenho que apurar o esquisso do minarete para o jardim do palácio das mil e uma noites do árabe. Estou com umas ideias que passam por colocar uns arrebiques na cúpula…

e:

o parceiro do lado, interrompendo o ressonar dos soporíferos da véspera a dizer-lhe, assanhado:

– Oh homem de merda, se você quer fazer esses arrebiques tem que conseguir mijar até ao céu. Não seja maluco seu velho potranqueiro. Esteja quieto e faça como eu; durma sossegado à espera que ela chegue depressa…

(a solidão tem destas coisas)

 

 

 

EU QUERIA QUE TUDO FOSSE FUTURO

Eu queria que tudo fosse futuro.

Foi ao princípio.

Mas a alma haveria de me dizer mais tarde que não. Que nunca me iria habituar aos murmúrios vindos sem saber de onde. Talvez das cidades desordenadas pelas medonhas gentes onde me obrigaram a crescer.

A voz do estetoscópio disse-me que os murmúrios eram, afinal, as vozes que fui ouvindo pelos rios das cidades desordenadas por onde acumulei a vida. E isso foi por não saber como dizer não à prepotência do azul com que pintam o céu nem ao sufoco das lamurias de pedintes a esgravatar a fome na caridade com que mascaramos a nossa vaidade.

Os murmúrios vêm das entranhas do passado e acoitam-se na parte de trás da cabeça, assapados, emboscando a ilusão de ter querido que tudo fosse futuro.

Agora sei que os murmúrios me irão enlouquecer aos poucos, porque nada foi sempre futuro.

São inconsequentes, os murmúrios, e afligi-me ver o decrépito estado de alma da minha alma, quando ouve a gritaria das ansiedades que me dizem que, talvez já tenha morrido.

Ouvindo-os, os murmúrios, como se fosse o vento zumbindo zumbidos no sopé da montanha que fui construindo com a inconsciência de querer que tudo fosse futuro, pensei que seria a alma a desfazer-se, finalmente, e acreditei;

porque foi o que me disse o escaravelho gigante de garras afiadas (que trouxe de lá, daquele provérbio de heroicidades escusadas) como o sagrado espólio de uma memória intimidada a não esquecer,

nunca.

O tipo disse-me que os murmúrios são a parte dolorosa do que nunca fui e a acusação ao que sempre fui.

Porque,

dispersando-me por ai,

na tirania que geriu o usufruto que fui vivendo, adiei coisas, tantas coisas, vá lá saber quantas e porquê; o amor, que foi aquilo que não soube como o dizer por não saber despir a inocência e dizer futuro; e assim construí uma reserva de velharias guardadas, recordações rançosas que me culpam, agora, numa valsa ensandecida;

ora por ter feito, ora por não ter feito,

(só a minha mãe me quis ensinar o que isso era, mas morreu tão nova, que não deu para eu aprender)

por isso, coisas ditas e não ditas, silêncios que se empederneceram, manhãs tímidas sem saber como confessar o sol, palavras mudas porque que não sabia dizer felicidade quando o amanhã estava ali.

Murmuro a solidão que me deixam; que não sei o que é, nem sei se vem do resto do que sou. Se o que murmuro fosse música ouviria pink floyd porque sabem a universo, a seguir mozart; que será sempre mozart e por ser quem é, ou mahler, ou albinoni, ou bach? que importa.

Os murmúrios de quem já ouviu isto e aquilo por aqui se ficam neste desfazer-me sem sentido,

e eu que queria que tudo fosse como se fosse futuro.

OIÇO-ME VAZIO.

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Oiço-me vazio.

Falta-me a vontade de saber o que vai vir. Interessa?

Do apocalipse com que me querem subterrar os dias insolventes fica, ainda mais, a angustia.

Por onde anda a nuvem esquecida dos meus anos de capa espada?

Agora isto. Só isto. Só cães assanhados a deglutirem o espernear inconsequente do que fui.

Oiço-me vazio.

Sinto a ausência amarga do que sempre quis ser. Outra coisa que não esta.

E assim adormeço quando a noite começa a ser noite no outro lado da terra. Fica a vigília mesmo que adormecida.

É o que resta! A vigília.

Agora penso na aventura que adormece comigo na prega do lençol. Aventurar-me, para onde? Só para o que  me falta da vida. Para o vazio. Sei que é por ai que tenho que ir. Por isso vasculho a memória na busca uma aventura que me iluda ainda ser outro. Todavia, pesadelos subsistem quando entro na aventura que adormece na prega do lençol.

Porquê?

Sei que me oiço vazio sempre com este zumbido que me enlouquece. Será o murmúrio final da alma que se desvanece a invadir-me a cabeça?

Amanhece e oiço o zumbido vazio. Mas sinto que continua aqui plantado. É o meu carrasco.

O que será o resto de mais um dia?

Penso escrever.

Escrevo: “Despejo o que me atormente deste labirinto que não me abandona a cabeça no prato da sopa da caridade. Aquece-me as goelas, a sopa. Vejo-me a boiar no caldo deslavado onde falta o tempero do que vivi até aqui chegar.”

É esta a aventura que adormece todas as noites comigo na prega do lençol.

Oiço-me vazio.

O zumbido amanhece às portas da cidade.

 

 

O convite

Oiço “Moody Blues”, dirão, antiguidades, pois sim,

mas estão gravados na memória daquele tempo de distúrbios mentais inconsequentes que vinham do “estar ali” naquela paralisia de tempo que se apossava das narinas como se tivesse sido sempre assim e como,

tivesse que ser sempre assim.

(alguém consegue explicar racionalmente o sentido da ausência do passar do tempo que o isolamento arrasta?)

e o que têm a ver os “Moody Blues” e a “question of balence” com isso?

pouca coisa, mesmo nada, se não se souber o que por lá se passou. Mais do que o medonho cheiro de uma palhota a arder com vida lá dentro

gritos insanos que ainda escorregam pelo suor que se vai retorcendo e sempre escorrem pingos do passado, peganhentos, mesmo agora, como se fossem uma expiação de avé-Marias que não nos largam o terror de um pesadelo estrugido pelos anos, a saber a cebola frita requentada porque nunca se rezaram as avé-Marias.

nem qualquer merda que deixe de abrasar a memória que se retorce, ainda,

a ouvir “Moody Blues”, que naquela altura seguravam o desespero e que, agora, a emancipação geracional desconhece completamente, por ser foleiro, por ser do tempo de uns gajos  cheios de esquemas esquisitos na carola que não fizeram puto e agora só mágoas, só choramingas, só a mijarem-se pelas pernas abaixo, só uns calhordas sem importância, só um refugo que não faz falta,

pessoal que nos deixou isto tudo fodido e eu que quero um par de sapatos “nice”, de marca, e nada de graveto e os gajos sempre a olhar para ontem, pestana murcha, macambúzios a assoarem-se roufenhos à ponta dos dedos, a gaguejar; no meu tempo era assim, devias ter lá estado para saber como elas te mordiam para aprenderes a ser homem, e nada, nada mais do que a pobreza de não serem de nenhum tempo,

(e a guerra, sempre com a merda dessa conversa, que se fodam.)

absorta que anda a emancipação geracional na virtude de acreditar que não houve vida antes deles, sei que não os vou convidar para ouvir os “Moody Blues”.

 

Uma pirueta

Uma pirueta no céu da boca é o que milhares de palavras fazem, resguardando-se no silêncio. Incómodas, agrestes, deslocadas, sem levarem o agrado que o outro quer ouvir, por ali se ficam, num suplício de revolta abortada.

A sinceridade é uma patranha porque o outro que anda numa azáfama em saber qual o seu paradeiro nada quer ouvir do que lhe dizemos. E, tantas vezes, lhe falámos deste precário limite que nos separa da morte.

Ou tentamos falar.

Mas, susceptível às conveniências, a palavra emudece. Ou pior, não falamos, porque a palavra sentida com o desapego do outro, lá faz uma pirueta no céu da boca e fica a esboroar-se num silêncio de falta de ar.

Resta a ansiedade, a angustia ou sabor que a pedra ancestral da solidão é o íntimo que sabe que afinal não somos nada.

Uma pedra ancestral que nos inventou o medo vagueia, assim, sem destino, no cosmos cuja imensidão nos dá o tamanho da nossa insignificância.

Há por lá, falésias desconhecidas onde suicidamos esta vaidade de sermos tão poucochinho.

Dizem-me, através do código imperceptível do tempo que me engano.

Ninguém se suicida porque a mediocridade com que invadiram a ambição de sermos só isto, mantém-nos vivos, independentemente do apetite, e todos nos aninhamos nesta insolvência de alma que é o que nos exigem e que nos dão.

Uma pirueta no céu da boca é o que milhares de palavras fazem, resguardando-se no silêncio. A palavra passou a ter medo de já nada valer. Marimbou-se para o incómodo de existir e foi substituída por gargarejos que dizem coisa nenhuma.

(Deixámos de saber gritar, uivar, grunhir, zurrar, ladrar, o que quer que seja, mas que não nos cale. Os facínoras a quem nos entregámos, roubará-nos o céu da boca. Por isso ficámos seu o eco das palavras. Dai o silêncio.)

OS LOBOS

Os lobos não me deixaram.

Amanhece uma penumbra e o espanto de estar ali, com aquelas aranhas a arranharem-me a cabeça por dentro, desfalece a esterqueira dos pesadelos que me acordaram.

Os lobos não me deixaram.

As suas patas de algodão circundaram, numa alcateia de paciência, este desfazer lento que me invadiu o cérebro depois de toda a noite ter procurado no globo terrestre que me ofereceste, o sítio para onde fugir.

Os lobos não me deixaram.

Andaram por ali, mansos, vigilantes, obstinados, pacientes, inflexíveis.

Os lobos não me deixaram.

Circundaram-me a cabeça em lentas voltas sabendo que as aranhas disformes e peçonhentas estavam a cuspir a baba cinzenta para tecer a rede onde a lucidez se irá entrelaçar, num enleio labiríntico, com as frestas da memória.

Os lobos não me deixaram.

Sei, porque o destino é assim, que quando as aranhas disformes e peçonhentas tiverem acabado de tecer a minha loucura, os lobos entrarão pelas órbitas dos olhos já comidos e uivarão dentro da minha cabeça este arrepio que é ter deixado de saber o que é o silêncio.

Os lobos não me deixaram naquela noite em que deixei de saber o que é o silêncio.

Arrasto-me de olhos abertos sem ver de onde apareci como coisa humana para agora ser, um uivo que só eu oiço, no silêncio da minha cabeça.

Os lobos não me deixaram.

Estão aqui dentro, numa permanência de uivos, obstinados para que eu não saiba o que é o silêncio..

CONVERSA SOBRE OUTRO TEMPO QUE AFINAL É HOJE

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Aprígio a quem chamavam o “historiador”, tal era a quantidade de passado com que engalanava as suas dissertações, ia à conversa com Epifânio que, não querendo ser menos que o outro, intitulava-se  o “filósofo” e arrevesava o palavreado sempre que tinha que dizer.

E disse:

– O fracasso é aquilo que está para lá do que nos é possível…

Resposta do outro:

– Os que da riqueza que fizeram a usança dessa riqueza, dirão; é a vida meu amigo, é a vida…

(silêncio)

Aprígio a retomar paleio:

– É verdade! Desde sempre os da riqueza revelaram canduras de ilusionistas do engano. Foram eles que nos sonegaram, rapinaram e dizimaram a esperança. Sempre nos ensinaram a aceitá-los como se fossem deuses que nos cavalgam os lombos mesmo que não soubessem montar. Só porque eram os ricos devíamos ser respeitosos a essa condição. Zurziam as orelhas com isso como se fosse uma verdade absoluta. Já vínhamos avisados das barrigas das nossas mães.

O outro:

– E foi assim que andar a cavalo foi fácil mister para os ricos, habituados desde pequeninos, a cavalgar a pobreza…

O “historiador”  numa dissertação:

– Fazer coitos desbragados sem ponta de amor estrelar é o que os tipos souberem fazer com as ceroulas encaroçadas de tesões sôfregos e elas com as virilhas encharcadas de expectativas. Porque de amores, estamos conversados; aquilo eram bichos que não sabiam nem o sabor nem as regras de tal transcendência. Sabiam iludir a vida em arrotos de fartura numa ambulante necessidade de ter mais e mais. Mesmo nos coitos. Desconheciam os sabores do alecrim e da manjerona de que o amor é feito e pensavam que o azeite nascia nas garrafas e que a touriga que lhe apaladava o vinho e lhes embebeda os sentidos era uma semente que o vento arrasta. Tudo desconhecimento sobre o que a terra lhes dava. Mas não se importavam de ser ignorantes porque era o sinal distintivo da sua riqueza…

Epifânio a interromper:

– Iludir, num arroto de vinho fino, tudo o que nunca conheceram, os que tudo têm, é já habitual. Os tipos são mestres a Intrigar-nos os dias, a dissolver as nossas verdades, a pontapearem-nos as nalgas como se fossemos almocreves sem préstimo porque não somos flores do seu ramalhete. Nada sabem, nem mesmo o que a nossa paciência lhes ensinou. Nada querem saber sobre os famintos que se finam, excluídos por não terem com que viver para eles terem a riqueza que têm. Desconhecem o remorso e os mortos que matam por lhe dizimar a esperança. Só o poder lhes interessa. O anseio de o possuírem tolda-lhes a razão. Só lhes resta a sobranceria do mando.

O outro para final de conversa:

– Agora, contados tantos contos sobre este tanto tempo que por aqui se viveu, vivemos a estupefacção da banalidade de serem acusadas das trafulhices mais impiedosas. Foram quase todos promovidos à categoria de arguidos em processos de corruptos, falsários, aldrabões, vigaristas e outras bondades em que a lei os vai embrulhando. Mas continuam a andar por ai, os ricos. Soltinhos da vida, difamando quem os acusa e pagando aos tabeliões da corte chorudas avanças para arengarem mais e mais escusas, dilatando com isso, o confronto com o que resta de dignidade a lei. Palpita-me que todos irão morrer sem provar o castigo…

Aprígio de braço dado com Epifànio lá continuaram a subir com requintes de lentidão o Chiado para um cafésinho na Brasileira e darem continuidade a este e outros assuntos. Talvez discutirem sobre o porquê do regresso do Padre Juvêncio que pensavam desaparecido para sempre.

Um novo mistério?

 

 

 

HUMILHAÇÃO

 

 

Na guerra, naquela guerra onde estivemos e que por vergonha, fastio, snobismo, cinismo, ignorância, desleixo, comprometimento, indiferença, hoje ninguém fala, houve sempre quem amasse os verdes prados da esperança. Quem cavalgasse a perplexidade de poder morrer em nome de um poder que tudo podia, quem mastigasse com as esporas da revolta. o sonho de uma liberdade contida na aspiração de ser livre no local onde a roda do acaso o fez nascer. Quem, na convicção de que o homem nasceu para ser respeitado pelos outros homens, tivesse ido parar às sevícias da tirania ou ao exílio do desespero porque ousou acobardar-se perante o dono.

Na guerra, naquela guerra onde estivemos, obrigado que fomos, vivendo com o medo no centro das nossas almas, houve sempre quem, nas longas noites de lá estar, naqueles inflexíveis solstícios onde o absurdo nos matava mais do que a guerra, cantasse a frágil esperança de uma aspirada liberdade.

Na guerra, naquela guerra onde estivemos, um companheiro que haveria de morrer, disse-me num dia de desespero enxovalhado:

– Aqui, neste tempo sem recuos onde a lucidez clareará a nossa memória, amarfanhados a um canto do nosso desespero intimo; insignificantes que somos, coamos as lágrimas que vamos secando com as mãos sujas pelo abandono e conhecemos a triste humilhação de ter sido homens nesta pátria de desengano.

Compreender a guerra, aquela guerra onde estivemos, agora, neste país que já nem sequer é do pós-guerra da guerra, é sentir na ponta dos dedos exilados, os tipos que por lá ficaram e os que de lá vieram, muitos trocando o passo com a nova realidade que lhe ofereciam, como se o ter lá estado fosse culpa nossa, como se o sacrossanto dever que o imperioso poder que em nós mandava e nos impunha obediência não tivesse existido, como se tudo se resolvesse com bentas e misericordiosas orações que nos recomendavam o esquecimento compulsivo à laia de um ” deixa lá isso que já passou”.

(Passou um merda!)

E, assim se pode viver feliz, alimentando a consciência, não ligando a ponta de um corno “àquilo”. E os que ainda ligam, não passam de um bando de gajos esquisitos, meio marados, contando coisas que já ninguém entende.

Afinal não houve qualquer guerra, nem mortos, nem feridos, nem estropiados, nem malucos envelhecidos que, ainda, por ai se arrastam.

São todos uma cambada de mentirosos.

Foi tudo uma grande invenção.

 

(texto retirado do meu livro “O Muro” editado em Outubro de 2013 pela Editora Glaciar )

 

REALEZAS

 

 

De uma das portas de um prédio sai um cão a rebocar o dono numa urgência da mijadela. Acho curioso este equilíbrio de repelões entre um cão a resfolgar impaciência na ponta de uma trela esticada e um homem a resfolgar domínio na outra ponta da trela esticada sem saber quem estica quem; quem segura quem; quem irá passear quem. Equilíbrio feitos de canídias rotinas numa aflição de mijadelas e cagadelas, a lambuzarem os passeios de toda a gente. Solidões preenchidas mesmo para o descuido de quem pisa a merda de cão – sempre têm um motivo para rebentar o marasmo e explodir impropérios contra a civilização porque um cão e a sua merda pode ser um elemento de sociabilidade nestes tempo de penúria de afectos e de solidões amargas.

vamos ver;

um cão não é um objecto, uma coisa, um pechisbeque, mais um artefacto na mobília que nos chocalha os dias; um cão é um animal com as suas arbitrárias necessidades, manias, instintos e até gostos. passeá-los é um quotidiano de obrigação que os habitantes da praceta fazem com um mal disfarçado fastio. vendo o lado positivo; poder ser um motivo para quebrar desconhecimentos, sempre se pode falar de pelos, de raças, de idades, de doenças, de tipos de rações… de não tenha medo que ela não faz mal, está muito bem educada, eu sei, arrisco, mas o meu é muito nervoso, ansiedades de ser macho, percebe, com vontade de dizer; o que ele quer é saltar para cima da sua cadela, e a outra, é por ser muito novo, pelo menos parece, e eu, nem por isso já tem para cima de dez anos, dez anos? não diria com este pelo tão sedoso, pois é, é da ração, dos banhos das escovadelas, bons tratos, uma fortuna, pois é, o que se há-de fazer, afeiçoamo-nos a eles e depois é o que é, pois é, são uma companhia, uma companhia que temos que trazer para mijar e cagar duas vezes ao dia e eu de saco de plástico na mão com a merda a desfazer-se e ela sem se calar, pois é, e depois estes queridos bichinhos não têm culpa das coisas como estão e eu, pois é, já viu que com o diabo da crise foram tantos abandonados, sim senhora têm muita razão, há pois tenho, viu no outro dia num programa da televisão o abandono que para ai vai, pois é, é uma pouca vergonha são abandonados aos milhares, há gente que não têm coração até são capazes de abandonar os próprios filhos quanto mais os cães, pois é, por este andar não sei onde vamos parar, eu digo para quem me quiser ouvir; os cães são uma companhia, a única companhia, a verdadeira a que temos nesta porcaria de mundo em que vivemos e eu, pois é, só invejas, só maldade, só crimes, pois é, os homens haviam de ser como eles, fieis, amigos do seu dono, e eu está quieto asdrubal deixa a cadela da senhora, como se chama ela? Sofia, e eu; bonito nome como se fosse uma pessoa, uma mulher, uma rainha, rainha Sofia, muito bem, pois é, veja o senhor que a Sofia é melhor que muitas que por ai andam, algumas são mesmo cadelas vadias, sem respeito por ninguém, e eu, pois é, é a vida,o senhor tem razão quando diz que é a vida, já viu como está tudo, agora? a culpa é sempre dos mesmos, dos que estão no poleiro, não querem saber de nós para nada, pois é, e eu está quieto Asdrubal deixa a Sofia, está quieta Sofia deixa o cão do senhor, e eu não faz mal, pois é, não sabem mandar, antigamente… então adeusinho, até amanhã, amanhã o senhor vêm há mesma hora? e eu a olhar para o plátano, anda Asdrubal deixa de cheirar a Sofia, não querias mais nada, saltar para cima de uma rainha… pois é.