Portuguesmente

C3EWdWzT8imxs0fKeKoC_blackforrest-w1024

neste lugar
promontório já sem mar por descobrir, onde as urzes da tristeza nos arranharam a alma, paridos que fomos por tantos outros aqui chegados e que por cá ficaram, porque, desconhecidos encantamentos encontraram, nos amores de Pedro e Inês.
Por isso nos fizeram desta forma, parindo-nos como somos. Seres entranhados de solidão, almas repassadas de saudades, de melancolias que nunca matámos, aventureiros de desventuras mareadas, indiferentes amalgamas de pouco nos sabermos, algozes de nós próprios, crueldades, crenças, submissões, promessas, deuses, infinitos, almas penadas, coisas como esperanças que nos eram devidas, futuros que nos foram roubados, destinos que nos foram iludindo e, tudo isso, nos deu este credo, este ser, este verbo de assim sermos,
neste lugar
por isso aqui estamos ao Deus dará, nesta espera do insondável mistério que o destino nos destinou por aqui termos sido, árvores que fomos semeando e queimando, mares que já deixámos de navegar, montanhas que temos medo de subir, vales que abandonámos sem os semear, amores que deixámos fenecer, egoísmos como coisas novas que vimos nascer, filhos que recusámos fazer, armas que, iludidos, transformámos em cravos, revoltas que trocámos por votos, benquerenças que nos prometeram e que só alimentaram solidões, partidas que adiámos porque sempre quisemos ficar, cobiças que nos devastaram, importâncias que quisemos ter, sem nada ter para as ter, outros que utilizámos para fabricar os metros quadrados do nosso feliz individualismo. Iludidos, por não sabermos que somos só nada, aqui andamos, sendo o nada mais que está para além do hálito que nos fez como somos,
neste lugar
agora que o inferno nos trouxe estranhas sabedorias que nos dizem que, afinal, o ágio é que manda em nós e que Deus não é mais do que um mercado e que, venerando-o, lhe devemos submissão. Chegaram, vindos dos tenebrosos reinos da usura, seres sem rosto, purgas sem pátria, demónios sem dó, perjúrio sem nome, fantasmas furtivos escondidos atrás de inimagináveis siglas, credores desavindos com o nosso esbanjamento, afilando chicotes de duras punições, todos, declarando, enigmáticos, que pobres que sempre fôramos, ricos quisemos ser com o dinheiro deles e pobres voltaríamos a ser, submissos, incultos, andrajosos, porque, longe do deles, este, que só misérias, é o nosso mundo,
neste lugar
os dissabores que arribaram, disfarçados de desinteressada ajuda que fora mendigada por inacreditáveis criaturas nossas, que não sendo mais nada que pregadores de salsaparrilha política a quem déramos voto e alforria e que queriam só mando, ter e haver, abriram-nos os diques do castigo, ferraram as unhas de lucifer nos nossos sempre doridos lombos, acusando-nos do pecado da gula e da luxúria, que, toda a vida, só amargura de côdeas do pão salazarengo e que, indecorosos, quisemos ser como o sofisticado povo alheio que pelo centro do continente habita. E nós, que só urzes e matos espinhosos, habitantes do promontório ocidental, pastando solidões e ausências, fados e desditas, aqui esquecidos, iríamos ter velhos a ser-lhe roubado o passado que tiveram e jovens a fugir para longe, em busca de um futuro querem ter, porque,
neste lugar
eles, os globalizados da nascente agiotagem já estavam esquecidos que lhe tínhamos trazido, das Índias as especiarias, do Brasil o ouro e a prata e da África a ignomínia do comercio dos escravos, quando descoberto, lhe déramos o mundo. Agora, já sem mar e sem descobertas para fazer, mijando de tédio nos rios que vemos correr para o mar, querem-nos pobres outra vez, sempre a dizerem que somos desajuizados, emproados com o feitiço de sermos ricos, iludidos com a aparência do mundo dos outros, que nos endividámos a comprar-lhe meia dúzia de ilusões, só ilusões, que lhe vendíamos na mercadoria contrafeita da nossa mão-de-obra barata que arrebanhávamos a esmo no precipício deste país de deserdados,
neste lugar
os de cá, paridos que foram pela vontade da nossa escolha com a liberdade de nos terem dado votos para neles votarmos, de cócoras se puseram, submissos. Que sim, que éramos uma cáfila de malandros do pior que se pode imaginar. Que os senhores do ágio e do ouro e os deuses dos mercados podiam ficar descansados porque iriam reabrir os tarrafais da fome e do abandono, os aljubes da miséria e da doença, o degredo para os que cá não quisessem ficar, a sopa dos pobres para aquecer as barrigas, matando a fome às lombrigas, promover a caridade para aqueles que, sedentos de redenção, pudessem iludir-se com a prática do bem e com isso assegurarem um lugar cativo no céu,
neste lugar
diziam os nossos, sentados nas cadeiras da governança, aos homens sem rosto que, periódicos, chegavam, com banho tomado, a cheirar a alfazema, vindos dos reinos da agiotagem, fingindo falsárias ajudas, escondidos atrás de misteriosas siglas, dizendo que bons que éramos na tabuada, assim as contas iriam ficar certas, certinhas, todas de carreirinha com o deve igual ao haver, promessa prometida senhor ministro e então meteram-nos nos tubos de ensaio, porque do resultado da solução que ensaiavam connosco nada sabiam, nos seu metafísicos programas informáticos e passamos a ser coisas, objectos, estatísticas, indicadores, custos, proveitos, excedentes, desnecessários, restos, sobejos, vazios, moribundos, mortos e assim, os senhores sentados de cócoras no poder, previram, estatisticamente, eliminar uns quantos de nós para acertar o orçamento geral da difícil empreitada que governavam e mostrar, aos dos reinos da agiotagem, como bem sabiam a tabuada de carreirinha e com ela acertar as contas das grandes coisas do futuro,
neste lugar
humanos que somos, paridos entre urzes e estevas, neste promontório de vento e algemas já sem mar para marear e sem esperança para sonhar, doridos de por cá andarmos tanto tempo, sempre com este tempo como se fossemos um novelo de ansiado futuro, outro, acabámos, esbarrando neste presente de nada ter e nada haver,
neste lugar
gostávamos de encher as praças das cidades com palavras indignadas, com silabas de revolta, com o refluxo dos nossos corações de verdes esperança, gritando contra o desprezo a que nos desprezaram, contra a surdina com nos crucificaram como sonâmbulos demónios ou como ladrões vaidosos. Gostávamos de peregrinar a revoltada na promessa de arrombar a porta do infortúnio e sermos só uma vez, uma vez que fosse, os dignos heróis de nós próprios, neste mistério de habitarmos este promontório, onde o vento nos vadia esta melancólica esperança, este espanto de estarmos especados, aferrolhados nos nossos medos e pavores e ousarmos liberdades, outra vez,
neste lugar
portuguesmente.

Uma pega de caras

KGcbEHoSLmcHyhqA2nfl_76591_667052060003591_1045050051_n-w1024

Lembro José Cardoso Pires que diz em “ALEXANDRA ALPHA”, citando Opus Night que recitou em camponês – “pé na terra, escama na água e asa no céu, cada ser no seu mundo.”

Andava eu pela verdura dos meus juvenis anos de aventuras e de improváveis coragens, antes de um embarque mais do que programado para, no ultramar ir defender o império já defunto, quando no Alentejo do meu berço, a malta dada às coisas dos copos e dos atrevimentos, me convidou a ir pegar umas vacas taurinas nas festas em honra de Nossa Senhora Carmo a padroeira da vila.
Desassossegado pela aprendizagem de beber vinho tinto carrascão e sem saber onde me metia disse que sim, porque a amizade e a cumplicidade com aqueles tipos que queriam formar um hipotético grupo de aprendizes de forcados, pegadores de vacas velhas, desconfiadas de mil corridas, sabidas de todas as manhas e espertezas, era tão grande e tão forte que não me via fora do grupo.
Feliz Garcia filho de um grande agrário era o líder incontestado da empreitada. Jovem de vidas vividas e alternâncias repletas de feitos que nos espantavam a incredulidade e a inveja, acreditávamos nele. O seu atrevimento era um incentivo ao seguimento. Foi o que fiz quando me disse que iríamos formar aquele desconchavado e rudimentar grupo de forcados para dar uma de imberbes marialvas.
As miúdas da terra ficariam no “papo”, garantiu Feliz Garcia com baba suculenta a assomar nos beiços.
Não foi preciso dizer mais nada.
Desconhecendo as coisas de lides de touros e da bravura das pegas de caras, reclamei o lugar de “rabejador” que era, pensava, aquele que depois de outros mais afoitos, darem o peito e a coragem ao animal, pagaria no rabo do bicho, torcendo-o, para, como me disse Feliz Garcia, lhe tirar a força e o instinto de marrar.

Naquele abrasador domingo de Setembro, em fatos apropriados, lá demos entrada na praça engalanada a preceito para a grande garraiada com que terminava o profano das festas em nome da padroeira da vila. O programa era simples: um cavaleiro muito amador mas já com mil corridas em praças de terceira categoria, lidaria as vacas taurinas e nós, pomposos nos fatos e ostentando com orgulho o nome de “Destemido Grupo de Forcados da Vila”, cujo “cabo” era o júnior agrário Feliz Garcia, saltaríamos para a arena a toque de corneta para pegar os bichos. Coisa fácil como nos berrava o nosso “cabo”, destemido de bravuras e coragens, para mim, inexplicáveis.

A coragem que me faltava, sobrava ao Feliz Garcia, todo bravuras e vaidades.

O primeiro animal, pelo peso, manha, aspecto e má catadura, cortava a respiração ao mais afoito. Juro que não desisti sem, ainda hoje, saber porquê. Pressão do grupo vim a saber mais tarde, iluminado por leituras várias.
Em fila indiana e citando de largo com o Garcia à cara e a primeira ajuda à distância conveniente, vi o indescritível animal avançar, confiante, resfolgando destruições, num tropel que fazia tremer o chão, mais parecendo uma locomotiva desenfreada que sem dó nem piedade desbaratou o “Destemido Grupo de Forcados da Vila” com a simplicidade de um sopro.
Feliz Garcia foi levado em braços para a enfermaria sem saber se tinha perdido o peito na praça porque não o sentia, dimensão da cornada da vaca ou prudente aviso de que a vida lhe seria fértil em cornadas. Sem nada que o determinasse, a não ser as grandes coisas do acaso com que se vai cerzindo os insondáveis desígnios do destino, vi-me, na praça, inerte, à frente do grupo, pronto para a segunda tentativa de pegar o animal.
Diziam-me, adocicando-me a coragem – “foste promovido de “rabejador” a forcado da cara.”
Idolatrias dispensáveis para quem não sentia as pernas muito menos vaidades.

Sei que à visão de uma montanha negra, medonha, a avançar desenfreada para mim, cheia de ódios recalcados e de toneladas de sanha destruidora, se seguiu um embate apocalíptico, secundado de uma veloz confusão de pernas, braços, caras, bocas, baba, berros confusos, palavreado de impropérios indivisíveis, se abateram sobre mim, sufocando o desejo de rapidamente sair dali.
Disseram-me, os entendidos da coisa, com duras palmadas nas costas desfeitas que a pega tinha sido consumada. Empurravam-me para uma volta à arena, com a vergonha de ter as calças rasgadas no cú, para receber as abrasadas palmas naquele domingo de Setembro.

À noite, depois de várias rodadas de copos, quando, cambaleante de dores, encharcadas em vinho tinto e mal dizendo porque me tinha metido naquilo, cheguei a casa dos meus avós. A minha avó, aflita, reparou que tinha a camisa branca que o meu avô me emprestara para fazer boa figura, como me dissera, vaidoso, manchada de sangue.
O mistério de saber se a mancha de sangue foi uma oferta da vaca taurina ou a recriminação da minha inconsciente coragem, ainda, hoje está por decifrar.

Só tenho saudades daquele abrasador domingo de Setembro.
E já agora, dos improváveis aplausos, que fizeram ferver de vaidade, o sangue da minha inconsciência.

Os vizinhos

9XkFhM8tRiuHXZRCKSdm_ny-2-w1024

São os meus vizinhos. Ouço barulhos, ruídos, umas vezes tão próximos, outras vezes tão distantes como que além.
Águas que correm como rios caudalosos, caseiros, cordas a esticarem-se de roupa molhada, saltos altos a transbordarem de passos, palavras transformadas em sons desconhecidos, falas imperceptíveis de gente que não me quer dizer nada, gente que se mexe imitando o ruído do restolho ao vento.
Ouço um choro. Quando crescer, talvez um pranto. Imagino uma revolta. O inconformismo.

São os meus vizinhos. Imagino coisas que vivem, pessoas que saem polvilhadas de perfumes como se fossem estrelas de cinema na ânsia de se sentirem esperadas, desejadas, procurando nos outros a gula da sua felicidade. Vão limpas, as pessoas. Asseadas, bonitas, tanto quanto a minha imaginação as imagina, na esperança de que o perfume transforme a solidão de estarem sós num afago vindo do acaso.
Sei que as pessoas não falam, dizem coisas. Coisas repetidas, vulgares, banais para entreter a tristeza que lhes habita o fundo da alma.

São os meus vizinhos. Saem para os empregos, para os escritórios, para as lojas, para o seu pequeno mundo onde vão derramar grossas gotas de reprimidas invejas, amizades de maledicências, sacanices de derrubar os outros, azedas cobiças, vaidades encharcadas em roupas de marca contrafeitas, exibições de saldos e quinquilharias de loja de chineses, desditas encobertas por desgraçadas ilusões.

São os meus vizinhos.Vão fazer a sua vida. Vão fazer pela vida. Vão fazer-se à vida. Todos os dias, persistentes, rotineiros, pontuais. Não os conheço. Já lhes esqueci os rostos. Conheço-os pelos ruídos, pelas zangas, pelos silêncios. Consigo identificá-los porque são sistemáticos, zelosos, obedientes – aos ruídos, às zangas, aos silêncios.

São os meus vizinhos. Por isso sei quando cagam, quando fazem a barba, quando adormecem frente à televisão, quando fazem amor entre gemidos e ranger de camas, quando dormem, quando se arrastam para um novo dia. Quando.
Por isso sei dos seus humores, desavenças, falas difusas, amores contrafeitos, jantares de azedume, silêncios de nada dizer; ralhos inclementes aos filhos, hereditários passivos da insuficiência dos pais, banalidades de felicidade de pacotilha.
Sei que conheço os meus vizinhos sem nunca os ter visto. Só pelos ruídos. Já pensei em pôr nomes aos ruídos para não os confundir.

São os meus vizinhos. Passam todos os dias à minha porta. Não batem. Nunca batem. Saem cheios de importância na solidão de seres solitariamente importantes. Já esperei que um dia batessem à minha porta. Foi uma esperança que se arruinou em desconsolo. Ficaram os ruídos, os barulhos e a ausência.

São os meus vizinhos. Tão solitários quanto eu. Conformados, sedentários, hipnotizados pelas gravatas plásticas que saem da televisão e lhes dizem coisas banais a escorrerem de lábios venais, sussurrando-lhes palavras inexistentes a alimentar a castração das suas vontades, para adormecerem, descompostos, decompostos, babando-se nos sofás de pele de imitação, num cansaço de repetidos amanhãs.

São os meus vizinhos, refratários de coragens, que, não aprendendo o pranto da revolta, se contentam em ser lágrimas de impossibilidade.
Lisboa, 7 de Fevereiro de 2014

(Texto incluído no meu livro “A indiferença é morrer com a solidão aos pés da cama” a publicar em segunda edição)