Os vizinhos

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São os meus vizinhos. Ouço barulhos, ruídos, umas vezes tão próximos, outras vezes tão distantes como que além.
Águas que correm como rios caudalosos, caseiros, cordas a esticarem-se de roupa molhada, saltos altos a transbordarem de passos, palavras transformadas em sons desconhecidos, falas imperceptíveis de gente que não me quer dizer nada, gente que se mexe imitando o ruído do restolho ao vento.
Ouço um choro. Quando crescer, talvez um pranto. Imagino uma revolta. O inconformismo.

São os meus vizinhos. Imagino coisas que vivem, pessoas que saem polvilhadas de perfumes como se fossem estrelas de cinema na ânsia de se sentirem esperadas, desejadas, procurando nos outros a gula da sua felicidade. Vão limpas, as pessoas. Asseadas, bonitas, tanto quanto a minha imaginação as imagina, na esperança de que o perfume transforme a solidão de estarem sós num afago vindo do acaso.
Sei que as pessoas não falam, dizem coisas. Coisas repetidas, vulgares, banais para entreter a tristeza que lhes habita o fundo da alma.

São os meus vizinhos. Saem para os empregos, para os escritórios, para as lojas, para o seu pequeno mundo onde vão derramar grossas gotas de reprimidas invejas, amizades de maledicências, sacanices de derrubar os outros, azedas cobiças, vaidades encharcadas em roupas de marca contrafeitas, exibições de saldos e quinquilharias de loja de chineses, desditas encobertas por desgraçadas ilusões.

São os meus vizinhos.Vão fazer a sua vida. Vão fazer pela vida. Vão fazer-se à vida. Todos os dias, persistentes, rotineiros, pontuais. Não os conheço. Já lhes esqueci os rostos. Conheço-os pelos ruídos, pelas zangas, pelos silêncios. Consigo identificá-los porque são sistemáticos, zelosos, obedientes – aos ruídos, às zangas, aos silêncios.

São os meus vizinhos. Por isso sei quando cagam, quando fazem a barba, quando adormecem frente à televisão, quando fazem amor entre gemidos e ranger de camas, quando dormem, quando se arrastam para um novo dia. Quando.
Por isso sei dos seus humores, desavenças, falas difusas, amores contrafeitos, jantares de azedume, silêncios de nada dizer; ralhos inclementes aos filhos, hereditários passivos da insuficiência dos pais, banalidades de felicidade de pacotilha.
Sei que conheço os meus vizinhos sem nunca os ter visto. Só pelos ruídos. Já pensei em pôr nomes aos ruídos para não os confundir.

São os meus vizinhos. Passam todos os dias à minha porta. Não batem. Nunca batem. Saem cheios de importância na solidão de seres solitariamente importantes. Já esperei que um dia batessem à minha porta. Foi uma esperança que se arruinou em desconsolo. Ficaram os ruídos, os barulhos e a ausência.

São os meus vizinhos. Tão solitários quanto eu. Conformados, sedentários, hipnotizados pelas gravatas plásticas que saem da televisão e lhes dizem coisas banais a escorrerem de lábios venais, sussurrando-lhes palavras inexistentes a alimentar a castração das suas vontades, para adormecerem, descompostos, decompostos, babando-se nos sofás de pele de imitação, num cansaço de repetidos amanhãs.

São os meus vizinhos, refratários de coragens, que, não aprendendo o pranto da revolta, se contentam em ser lágrimas de impossibilidade.
Lisboa, 7 de Fevereiro de 2014

(Texto incluído no meu livro “A indiferença é morrer com a solidão aos pés da cama” a publicar em segunda edição)

One Comment

  1. Madalena Batista 9 November, 2014 at 16:21

    Ter tanta criatividade e lucidez , falar da vida sem ilusão ou fantasia .Reforça a reconhecida originalidade no seu estilo de emoções e sensibilidade.

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