Portuguesmente

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neste lugar
promontório já sem mar por descobrir, onde as urzes da tristeza nos arranharam a alma, paridos que fomos por tantos outros aqui chegados e que por cá ficaram, porque, desconhecidos encantamentos encontraram, nos amores de Pedro e Inês.
Por isso nos fizeram desta forma, parindo-nos como somos. Seres entranhados de solidão, almas repassadas de saudades, de melancolias que nunca matámos, aventureiros de desventuras mareadas, indiferentes amalgamas de pouco nos sabermos, algozes de nós próprios, crueldades, crenças, submissões, promessas, deuses, infinitos, almas penadas, coisas como esperanças que nos eram devidas, futuros que nos foram roubados, destinos que nos foram iludindo e, tudo isso, nos deu este credo, este ser, este verbo de assim sermos,
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por isso aqui estamos ao Deus dará, nesta espera do insondável mistério que o destino nos destinou por aqui termos sido, árvores que fomos semeando e queimando, mares que já deixámos de navegar, montanhas que temos medo de subir, vales que abandonámos sem os semear, amores que deixámos fenecer, egoísmos como coisas novas que vimos nascer, filhos que recusámos fazer, armas que, iludidos, transformámos em cravos, revoltas que trocámos por votos, benquerenças que nos prometeram e que só alimentaram solidões, partidas que adiámos porque sempre quisemos ficar, cobiças que nos devastaram, importâncias que quisemos ter, sem nada ter para as ter, outros que utilizámos para fabricar os metros quadrados do nosso feliz individualismo. Iludidos, por não sabermos que somos só nada, aqui andamos, sendo o nada mais que está para além do hálito que nos fez como somos,
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agora que o inferno nos trouxe estranhas sabedorias que nos dizem que, afinal, o ágio é que manda em nós e que Deus não é mais do que um mercado e que, venerando-o, lhe devemos submissão. Chegaram, vindos dos tenebrosos reinos da usura, seres sem rosto, purgas sem pátria, demónios sem dó, perjúrio sem nome, fantasmas furtivos escondidos atrás de inimagináveis siglas, credores desavindos com o nosso esbanjamento, afilando chicotes de duras punições, todos, declarando, enigmáticos, que pobres que sempre fôramos, ricos quisemos ser com o dinheiro deles e pobres voltaríamos a ser, submissos, incultos, andrajosos, porque, longe do deles, este, que só misérias, é o nosso mundo,
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os dissabores que arribaram, disfarçados de desinteressada ajuda que fora mendigada por inacreditáveis criaturas nossas, que não sendo mais nada que pregadores de salsaparrilha política a quem déramos voto e alforria e que queriam só mando, ter e haver, abriram-nos os diques do castigo, ferraram as unhas de lucifer nos nossos sempre doridos lombos, acusando-nos do pecado da gula e da luxúria, que, toda a vida, só amargura de côdeas do pão salazarengo e que, indecorosos, quisemos ser como o sofisticado povo alheio que pelo centro do continente habita. E nós, que só urzes e matos espinhosos, habitantes do promontório ocidental, pastando solidões e ausências, fados e desditas, aqui esquecidos, iríamos ter velhos a ser-lhe roubado o passado que tiveram e jovens a fugir para longe, em busca de um futuro querem ter, porque,
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eles, os globalizados da nascente agiotagem já estavam esquecidos que lhe tínhamos trazido, das Índias as especiarias, do Brasil o ouro e a prata e da África a ignomínia do comercio dos escravos, quando descoberto, lhe déramos o mundo. Agora, já sem mar e sem descobertas para fazer, mijando de tédio nos rios que vemos correr para o mar, querem-nos pobres outra vez, sempre a dizerem que somos desajuizados, emproados com o feitiço de sermos ricos, iludidos com a aparência do mundo dos outros, que nos endividámos a comprar-lhe meia dúzia de ilusões, só ilusões, que lhe vendíamos na mercadoria contrafeita da nossa mão-de-obra barata que arrebanhávamos a esmo no precipício deste país de deserdados,
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os de cá, paridos que foram pela vontade da nossa escolha com a liberdade de nos terem dado votos para neles votarmos, de cócoras se puseram, submissos. Que sim, que éramos uma cáfila de malandros do pior que se pode imaginar. Que os senhores do ágio e do ouro e os deuses dos mercados podiam ficar descansados porque iriam reabrir os tarrafais da fome e do abandono, os aljubes da miséria e da doença, o degredo para os que cá não quisessem ficar, a sopa dos pobres para aquecer as barrigas, matando a fome às lombrigas, promover a caridade para aqueles que, sedentos de redenção, pudessem iludir-se com a prática do bem e com isso assegurarem um lugar cativo no céu,
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diziam os nossos, sentados nas cadeiras da governança, aos homens sem rosto que, periódicos, chegavam, com banho tomado, a cheirar a alfazema, vindos dos reinos da agiotagem, fingindo falsárias ajudas, escondidos atrás de misteriosas siglas, dizendo que bons que éramos na tabuada, assim as contas iriam ficar certas, certinhas, todas de carreirinha com o deve igual ao haver, promessa prometida senhor ministro e então meteram-nos nos tubos de ensaio, porque do resultado da solução que ensaiavam connosco nada sabiam, nos seu metafísicos programas informáticos e passamos a ser coisas, objectos, estatísticas, indicadores, custos, proveitos, excedentes, desnecessários, restos, sobejos, vazios, moribundos, mortos e assim, os senhores sentados de cócoras no poder, previram, estatisticamente, eliminar uns quantos de nós para acertar o orçamento geral da difícil empreitada que governavam e mostrar, aos dos reinos da agiotagem, como bem sabiam a tabuada de carreirinha e com ela acertar as contas das grandes coisas do futuro,
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humanos que somos, paridos entre urzes e estevas, neste promontório de vento e algemas já sem mar para marear e sem esperança para sonhar, doridos de por cá andarmos tanto tempo, sempre com este tempo como se fossemos um novelo de ansiado futuro, outro, acabámos, esbarrando neste presente de nada ter e nada haver,
neste lugar
gostávamos de encher as praças das cidades com palavras indignadas, com silabas de revolta, com o refluxo dos nossos corações de verdes esperança, gritando contra o desprezo a que nos desprezaram, contra a surdina com nos crucificaram como sonâmbulos demónios ou como ladrões vaidosos. Gostávamos de peregrinar a revoltada na promessa de arrombar a porta do infortúnio e sermos só uma vez, uma vez que fosse, os dignos heróis de nós próprios, neste mistério de habitarmos este promontório, onde o vento nos vadia esta melancólica esperança, este espanto de estarmos especados, aferrolhados nos nossos medos e pavores e ousarmos liberdades, outra vez,
neste lugar
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One Comment

  1. maria fernanda nunes da cunha morais aires gonçalves 7 November, 2014 at 12:49

    …nunca nós, meninos de Abril, esperámos ver este quadro em exposição num museu que se chama Portugal. A sua paleta está bem escolhida: preto e branco. Vai ser vendido em leilão por dois tostões, para nosso desencanto e desespero. Os abutres estão todos lá, enquanto dizem baboseiras, todos definhamos….

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