Uma pega de caras

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Lembro José Cardoso Pires que diz em “ALEXANDRA ALPHA”, citando Opus Night que recitou em camponês – “pé na terra, escama na água e asa no céu, cada ser no seu mundo.”

Andava eu pela verdura dos meus juvenis anos de aventuras e de improváveis coragens, antes de um embarque mais do que programado para, no ultramar ir defender o império já defunto, quando no Alentejo do meu berço, a malta dada às coisas dos copos e dos atrevimentos, me convidou a ir pegar umas vacas taurinas nas festas em honra de Nossa Senhora Carmo a padroeira da vila.
Desassossegado pela aprendizagem de beber vinho tinto carrascão e sem saber onde me metia disse que sim, porque a amizade e a cumplicidade com aqueles tipos que queriam formar um hipotético grupo de aprendizes de forcados, pegadores de vacas velhas, desconfiadas de mil corridas, sabidas de todas as manhas e espertezas, era tão grande e tão forte que não me via fora do grupo.
Feliz Garcia filho de um grande agrário era o líder incontestado da empreitada. Jovem de vidas vividas e alternâncias repletas de feitos que nos espantavam a incredulidade e a inveja, acreditávamos nele. O seu atrevimento era um incentivo ao seguimento. Foi o que fiz quando me disse que iríamos formar aquele desconchavado e rudimentar grupo de forcados para dar uma de imberbes marialvas.
As miúdas da terra ficariam no “papo”, garantiu Feliz Garcia com baba suculenta a assomar nos beiços.
Não foi preciso dizer mais nada.
Desconhecendo as coisas de lides de touros e da bravura das pegas de caras, reclamei o lugar de “rabejador” que era, pensava, aquele que depois de outros mais afoitos, darem o peito e a coragem ao animal, pagaria no rabo do bicho, torcendo-o, para, como me disse Feliz Garcia, lhe tirar a força e o instinto de marrar.

Naquele abrasador domingo de Setembro, em fatos apropriados, lá demos entrada na praça engalanada a preceito para a grande garraiada com que terminava o profano das festas em nome da padroeira da vila. O programa era simples: um cavaleiro muito amador mas já com mil corridas em praças de terceira categoria, lidaria as vacas taurinas e nós, pomposos nos fatos e ostentando com orgulho o nome de “Destemido Grupo de Forcados da Vila”, cujo “cabo” era o júnior agrário Feliz Garcia, saltaríamos para a arena a toque de corneta para pegar os bichos. Coisa fácil como nos berrava o nosso “cabo”, destemido de bravuras e coragens, para mim, inexplicáveis.

A coragem que me faltava, sobrava ao Feliz Garcia, todo bravuras e vaidades.

O primeiro animal, pelo peso, manha, aspecto e má catadura, cortava a respiração ao mais afoito. Juro que não desisti sem, ainda hoje, saber porquê. Pressão do grupo vim a saber mais tarde, iluminado por leituras várias.
Em fila indiana e citando de largo com o Garcia à cara e a primeira ajuda à distância conveniente, vi o indescritível animal avançar, confiante, resfolgando destruições, num tropel que fazia tremer o chão, mais parecendo uma locomotiva desenfreada que sem dó nem piedade desbaratou o “Destemido Grupo de Forcados da Vila” com a simplicidade de um sopro.
Feliz Garcia foi levado em braços para a enfermaria sem saber se tinha perdido o peito na praça porque não o sentia, dimensão da cornada da vaca ou prudente aviso de que a vida lhe seria fértil em cornadas. Sem nada que o determinasse, a não ser as grandes coisas do acaso com que se vai cerzindo os insondáveis desígnios do destino, vi-me, na praça, inerte, à frente do grupo, pronto para a segunda tentativa de pegar o animal.
Diziam-me, adocicando-me a coragem – “foste promovido de “rabejador” a forcado da cara.”
Idolatrias dispensáveis para quem não sentia as pernas muito menos vaidades.

Sei que à visão de uma montanha negra, medonha, a avançar desenfreada para mim, cheia de ódios recalcados e de toneladas de sanha destruidora, se seguiu um embate apocalíptico, secundado de uma veloz confusão de pernas, braços, caras, bocas, baba, berros confusos, palavreado de impropérios indivisíveis, se abateram sobre mim, sufocando o desejo de rapidamente sair dali.
Disseram-me, os entendidos da coisa, com duras palmadas nas costas desfeitas que a pega tinha sido consumada. Empurravam-me para uma volta à arena, com a vergonha de ter as calças rasgadas no cú, para receber as abrasadas palmas naquele domingo de Setembro.

À noite, depois de várias rodadas de copos, quando, cambaleante de dores, encharcadas em vinho tinto e mal dizendo porque me tinha metido naquilo, cheguei a casa dos meus avós. A minha avó, aflita, reparou que tinha a camisa branca que o meu avô me emprestara para fazer boa figura, como me dissera, vaidoso, manchada de sangue.
O mistério de saber se a mancha de sangue foi uma oferta da vaca taurina ou a recriminação da minha inconsciente coragem, ainda, hoje está por decifrar.

Só tenho saudades daquele abrasador domingo de Setembro.
E já agora, dos improváveis aplausos, que fizeram ferver de vaidade, o sangue da minha inconsciência.

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