A liberdade

MIbCzcvxQdahamZSNQ26_12082014-IMG_3526-w1024

Na cidade vivia um homem que só queria que lhe dissessem carinho. As mortes que já tivera levaram-lhe carinhos que agora eram só memórias. Ficaram saudades. Cemitérios para visitar.
A tristeza ornamentava-lhe a solidão com que amargava os dias que ia sentindo serem a mais.

Com o pouco dinheiro que lhe sobrou de uma desconsolada reforma comprou um canário na esperança de dar um sentido às muitas horas que lhe subjugavam em cada dia.
Passou, então, a viver numa dedicação de carinhoso afecto pelo seu canário.
Dava-lhe de comer. Dava-lhe de beber. Limpava-lhe a gaiola. Espantava-o com as suas solitárias conversas. Com os desconchavados monólogos. Com os desabafos sem nenhum préstimo.
O canário respondia-lhe como sabia. Cantando. Cantava, saltando de poleiro para poleiro, num desassossego de repenicados trinados.

Na cidade passou a viver um homem habitado por uma incontida felicidade. Passou a silenciar a solidão e a querer imitar a linguagem do canário, mesmo sabendo não ter cordas vocais para tão complexos trinados. Mas o carinho que devotava ao canário e que sabia reciproco, fazia-o viver na ilusão de estarem a escrever a mais magnífica sinfonia que humanos ouvidos haveriam de ouvir. O homem começou, novamente, a acostumar-se ao carinho.

Um senhor polícia de patente importante que morava no andar de cima passou a reclamar incómodos. Cantorias esquisitas. Guturais ruídos. Cedos despertares. Olheiras arroxeadas. Falta de apetite.

Num amanhecer com a brusquidão de um assalto, vieram da esquadra polícias armados de sofisticadas pistolas e coletes à prova de bala.

Aos empurrões, querendo chegar à gaiola onde o canário se encolhia junto ao bebedouro, disseram ao homem que agora vivia outra vez carinhos, que assim não podia ser, que era um atentado à ordem pública, uma criminosa subversão, uma falta de respeito pelos poderes democraticamente eleitos, uma desobediência às autoridades. Vinham com intimidações de lhe matar o carinho.

Outra vez.

O homem abriu a liberdade da porta da gaiola ao canário que ficou poisado no parapeito da janela, à espera. Então o homem, jurando carinhos com um estridente trinado, saltou para o vazio. O polícia encarregue de lavrar a o auto, jurou que viu o homem e o canário voarem, juntos, a cantar. E para espanto de todos, o homem que só queria carinho, acompanhava, sem desafinar, os repenicados trinados do canário.