O “limpo” despudor

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(esta “estória” exemplar vem a propósito da pompa e circunstância com que nos disseram que tínhamos recuperado a soberania. Como em 1640 o senhor presidente comemorou o facto pondo um “like” no facebook)
Houve o tempo em que um tipo, vindo de uma aldeia desconhecida, envolto em breviários divinos, calhamaços de normas, manuais de direitos e deveres, foi chamado pelos da metralha que tinha feito a revolução para instaurar uma ditadura.

Assomou ao país e disse – “eu endireito-vos o rombo no cofre, custe o que custar, mas depois quero mandar nisto tudo”- “Que sim, que estivesse à vontade” – Responderam-lhes os da metralha e recolheram-se a quartéis, dando-lho o que queria.

O povo berrou: vamos passar privações, fomes, ausência de esperanças, morte de futuros.

Pouco se importou: cortou tudo por onde podia cortar porque a palavra direitos era coisa que não conhecia. Autoridade e pé em cima da cabeça desses calões foi a divisa.

O tipo viveu durante muitos anos no palácio destinado ao chefe do governo, onde plantava nabos, couves, ervilhas e criava galinhas e coelhos para o amanho da casa como se o país fosse um portugal dos pequeninos onde ele jogava aos matraquilhos que éramos nós, a seu belo prazer.

Todavia, diáfano e com voz pifia, falava a verdade a quem o quisesse ouvir e nunca mentiu sobre as intenções de, sendo o poder, querer mandar nisto tudo. Quem não concordasse cadeia com ele. Para isso, rodeou-se de polícias, bufos, delatores e outra escumalha para lhe garantirem o mando.

Aos do reviralho que, teimosos, lhe desassossegavam o árduo, benemérito e santificado sacrifício de nos governar e construir um Estado Novo com futuros risonhos, mandava-os para as masmorras que criara para esse preceito.

E porque era um homem dado aos patriotismos, gostava que toda a gente estivesse vigilante contra as malvadezas da subversão internacional e por isso não os deixava dormir, tendo inventado a tortura do sono; espécie de comprimido para dormir mas ao contrário. Sendo um amante da arte, especialmente a escultura, obrigava-os a fazer de estátuas por tempo indeterminado.

Vivia satisfeito com a obra que estava a fazer.

Quando os das terras por onde andamos a dar novos mundos ao mundo disseram; “agora queremos mandar nós”, não teve com meias medidas; mandou corre-los a tiro mesmo que para isso tivessem que morrer muitos dos nossos.

No Estado Novo havia ricos e muito ricos que eram poucos, mas tinham tudo; remediados; que eram alguns e tinham alguma coisa e pobres que eram uma imensidão, quase todos e que tinham uma avalanche de miséria, abandono, obediência e medo.

Mas o tipo conseguiu acertar o cofre e deixou ouro, (dizem os mais sabedores que em grande quantidade) que dava para sustentar o País por uns tempos.

Foi o preço da pobreza, da miséria, da indiferença, do esbulho, disseram, revoltados, mesmo os mais serenos.

Mas isso foi há muito, muito tempo.

Agora,

No palácio onde viveu o tipo que criava galinhas e cuidava de uma horta, habita o neo-libralismo que é assim como um bicho que se alimenta de muito farelo feito de impostos, taxas, redução de pensões, cortes em toda a casta de ajudas sociais, desrespeito e indiferença por direitos, por vidas, por ambições, por expectativas, por seres humanos, essa coisa que anda por ai, que sabemos que os incomoda, mas que somos nós.

Indiferentes, os do neo-libralismo dizem -” vai tudo a eito. O País tem que ser pobre, enfeitado por alguns ricos e uns tecnocratas vestidos de “boss” que somos nós”.

Depois, porque, se calhar não lhes abunda a sabedoria, porque tiraram cursos de empreitada ou porque andaram nas aulas regimentais de juventudes partidárias, pouca sabem da nossa língua e confundem definitivo com provisório, verdade com mentira, agora com amanhã, depois com logo se vê.

E ao contrário do outro que disse ditadura, os de agora, alienam-nos com estatísticas e dizem que temos que ir “a mercados”. À divida, dizem logo se vê. Quando os dos “mercados” aumentarem outra vez os juros, dizem logo se vê. Ainda há espaço para aumentar impostos. Respondem.

“ai aguente, aguenta”. Já se ouviu dizer.

Tudo o resto, o mesmo. Fome, miséria, pobreza, abandono, indiferença, sobranceria, vaidade, arrogância, teimosia.

Outra vez; um homem divino e predestinado.

Mas, desta vez “limpo” e de “pin” na lapela do casaco de fino corte.

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P.S. Ia esquecendo que querem que votemos porque o voto é a arma do povo e os que vivem na “casa da democracia” vão par lá montados nos nossos votos. Depois… logo se vê.
E já andam à cata deles, dos votos. E mais uma vez sem originalidade. Com promessas.

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