NESTE LUGAR; SOMOS

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neste lugar

onde nada tenho a ver com o tempo, a história, as catedrais góticas da nossa pequenez, os reis, os presidentes, os santos, os mártires, os vendedores de ilusões.os faquires de imaginários, as putas saciando no esperma dos clientes a fome dos filhos, os marialvas de capa e espada a cavalgá-las, desdenhosos, os desempregados arroxeando-se de vinho, os vendilhões que desprezam o lugar e passam a patacos os restos do que ainda temos,

neste lugar

onde não fomos, não somos e não seremos capazes de ser liberdade, porque nos mataram a coragem, quando nos venderam o conforto, o equilíbrio, o andar hipotecado, o carro para exibir, as férias para nos bronzear, a noite para embebedar angustias, o esquecimento e a ilusão mascaradas de sermos,

neste lugar

onde nos choveu por dentro água cristalina de nos termos encantado, mesmo não sabendo a longura que calcorreamos por ter acreditado, (imagina o universo e multiplica-o pela imensidão do silêncio e ficarás a saber). depois ficámos a saber que os cemitérios são valas comuns onde seremos arrumados em talhões aritméticos, depois do comum da vida ter passado,

neste lugar

somos o chão de onde viemos, trazendo a fome ancestral de aqui ter nascido e que nos alimenta, nestes tempos de adiamento e de nada mais. somos o nada de onde viemos e nada para onde vamos. somos só memórias, ausências que recebemos do passado e que petrificámos neste presente de desolação. somos a carne, o sangue e as vísceras de uma infância da mansidão, frente a esta angustia oceânica de termos um incómodo futuro para viver. somos a forca do nosso adiamento permanente, cevando a morte que está cravada num coração cansado de acreditar. somos, ainda, e sempre, a raiva que foi silenciada, a esperança que foi sonhada, o amor que foi omisso, a palavra por revelar, o equívoco que nos transformou a alma. somos o medo de nos perdermos, esquecendo que, quando nos aventurámos pelo mundo, aprendemos a andar perdidos no labirinto do desencanto de ser nada e coisa alguma,

neste lugar

somos o presente e o futuro dos outros, dilacerados por, sendo nada do que somos, porque não sabemos ser aquilo que queremos, saber que amanhã não seremos o nosso presente e o nosso futuro. somos um navio ainda pronto a partir, ancorado neste lugar cheio de amarras que têm a grossura da incredulidade,

neste lugar

somos a esfinge fingida, rígida, fabricada, autónoma, retalhada, sorridente pela obstinação de querermos ser anónimos. somos a eterna vontade do regresso ao útero materno, no desespero de procurar o aconchego que nos proteja de termos que ser adultos à força. somos o adiamento da nossa vontade submersa, neste baile de máscaras, onde choramos a desdita de não nos cumprirmos,

neste lugar

somos, ainda, a vontade, o credo, a determinação, a coragem que se vai desfazendo nestes muros de indiferença, onde envelhecemos e nos obrigam a mastigar a ingratidão. somos a perpetua tristeza das pessoas já mortas que trazemos no sangue herdado e a saudade das searas de mel das colmeias e do pássaro azul da nossa inferência. somos, neste tropel de perplexidades, a teimosia de sermos o sorriso do destino, de ter os olhos cheios de universo, de poder acreditar para sermos, finalmente genuínos,

neste lugar

obstinadamente.

 

A MINHA TERRA – O jardim dos mal encarados

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Na minha terra, em 1852, uma “ Comissão de Obras do Rocio de St. Agostinho” teve a iniciativa de fazer um jardim. Penso, ignorante desse tempo impossível, o que levou a citada “Comissão” a ter essa iniciativa? Não sei. Não consigo imaginar a minha terra em 1852. As pessoas que lá viviam? As casas que já havia? Como se vestiam as gentes? Como andavam? Se ricos, se pobres. Quantos? Os cavalos dos senhores das terras, presos pela arreata às argolas que ainda hoje existem nas paredes das casas apalaçadas. O caminho que era uma azinhaga para o campo da bola onde o “Zé Maria dos Pinceis”, caidor de paredes para o sustento da casa, guarda-redes de amadores sonhos, a fazer defesas com voos de poste a poste, escalavrando as pernas com arranhões de alto a baixo, que o campo era um pelado de irregulares subidas e descidas. E os “Quarteis”, que foram casernas de soldados, quando das invasões napoleónicas e depois guarida de famílias de ciganos? O castelo da lenda da “Moura Salúquia”? A lenda? A fonte dos Rolins? Os cafés dos ricos e as tabernas dos pobres, onde cantavam coros alentejanos. Lembro-me do “Fachadas”, uma estalagem para trocar de cavalos, onde havia um casão com palha seca para dormir e que servia aos viajantes, vinhos e petiscos, onde ia com o meu avô, comer moelas e beber um pirolito de bolinha. Como seria a minha terra, há já tanto tempo? Já teria importância para ter um jardim?

(sobre jardins a memória mais antiga que tenho da minha terra é a de ela ter um largo que não era mais do que um inóspito terreiro de terra batida com um engenho de tirar água ao centro, afligindo o meu pai com o roufenho barrulho da ventoinha que guinchava gemidos que lhe espantavam o sono. Foi numa casa nesse terreiro que eu nasci, numa tarde que fazia muito calor e o terreiro devia ter o pó suspenso do silêncio que sempre se desprende do calor. As pessoas tinham que atravessar esse largo para ir para a estação dos comboios, porque nessa altura, a minha terra tinha uma estação de comboios, onde chegavam e partiam comboios para nos levar de lá para longe, depois de atravessar os campos de searas e os olivais. Fiquei sempre com a ideia que o início e o fim da minha terra – se calhar o início e o fim do mundo – era a estação dos comboios. Dali se partia. Ali se chegava. Seria o começo ou o termo de um destino?)

O jardim que uma benemérita “Comissão” teve a iniciativa de fazer em 1852, foi refeito e alindado em 1938, inaugurando um novo tipo de iluminação; “…fraca, que transfigurava a cara das pessoas, esverdeando-lhe a cor da pele.” (relato do jornal da época). Os mais atrevidos e dados às coisas das anedotas, batizaram o recém melhorado jardim como “o jardim dos mal encarados”. Soube disto pelo meu avô quando ainda os meus braços eram pequenos para ir muito mais além, as pernas que só queriam correrias e a cabeça a imaginar vir a ser um espadachim que haveria de vencer todas as guerras.

Ainda hoje, a minha terra têm o jardim que vem daqueles tempos e todos o chamam “o jardim dos mal encarados”, porque a iluminação esverdeia a cor da pele de quem por lá passa.

Fico com a ideia de que não é um bom local para namorar.

Disse que à minha terra, houve um tempo em que chegavam e partiam comboios. Isso dava-lhe um pingo de vida, um ar de importância, fazia dela um sítio onde se chega e se partia como se a vida estivesse cheia de coisas por fazer; inspetores do único banco que havia; caixeiros-viajantes com amostras de sapatos, camisas e roupa interior; pessoal que tivera que ir parar as cidades de longe ganhar a vida e vinha matar saudades; alguns forasteiros das aldeias vizinhas – lembro-me de Vale de Vargo, um nome que sempre me encantou – que vinham à feira de Setembro, onde cheirava a peros e havia dois circos, vários carroceis e uma feira de gado ou para as festas de Nossa Senhora do Carmo, em que cobriam as ruas com estevas e “boinho” que me davam muita comichão nas pernas; alunos que iam estudar para outros sítios porque a escola na minha terra era só até a quarta classe; alguém para um funeral de um parente; variadas pessoas com variados destinos, chegavam à minha terra com o apito do comboio e partiam com o apito do comboio. Havia uns “carros de praça” que levam os mais ricos para o centro de minha terra. Os outros, arrastando malas de cartão, atravessavam o poeirento largo que tinha ao centro um engenho de tirar água e o vento – quando o havia – arrancava gemidos roufenhos a uma ventoinha que agitava as insónias do mau pai, porque, nasci numa casa nesse largo, numa tarde de muito calor, mesmo em frente à ventoinha.

Foi nessa altura que me começaram a crescer os braços para abraçar o mundo, desconhecendo se ele queria ser abraçado. Ouvia as histórias do meu avô, sentado ao seu colo, olhando a luz que vinha do candeeiro a petróleo que não estava quieta e desenhava fantasmas nas paredes da enorme cozinha. Criou-me tantos sonhos como as lendas que me contou. Fez com acreditasse que o mundo era uma fantasia de homens bons. Vivi muito tempo convencido disso. As pernas, cansei-as em correrias no “jardim dos mal encarados” de onde vinham, muitas vezes, com os joelhos esfolados, preparados para os ralhos da minha avó.

A minha terra está lá longe, sem comboios porque a estupidez dos homens avarentos a fazer contas, que desconhecem passados, acabaram com os combóis e deixaram em ruina a estação. A minha terra ficou mais remota. Mais sós. Mais no esquecimento. O que lhes importa? Vá lá, deixaram “o jardim dos mal encarados” e as ruas. A rua de São Pedro Estreita para onde fui morar mais tarde e a Igreja, sempre fachada, com o São Pedro esculpido numa tosca estátua, agarrado às chaves do céu e colocado num nicho por cima da porta de entrada.

Isso está lá, ainda, porque, caminheiros que somos, partimos numa avidez de sermos mundo e deixámos as pedras, resignadas, a falar o seu silêncio, à espera que um dia, o acaso nos faça voltar e nos possam dizer dos martírios do tempo que todos vivemos.

A minha terra que têm um jardim que vem de 1852 é um emaranhado de pedras com que fizeram ruas que lamentam o silêncio do meu abandono.

Vivo a solidão de querer lá voltar.

Espero por um comboio que me leve ao “jardim dos mal encarados”.