A MINHA TERRA – O jardim dos mal encarados

OQx70jjBSLOMI5ackhxm_urbex-ppc-030

Na minha terra, em 1852, uma “ Comissão de Obras do Rocio de St. Agostinho” teve a iniciativa de fazer um jardim. Penso, ignorante desse tempo impossível, o que levou a citada “Comissão” a ter essa iniciativa? Não sei. Não consigo imaginar a minha terra em 1852. As pessoas que lá viviam? As casas que já havia? Como se vestiam as gentes? Como andavam? Se ricos, se pobres. Quantos? Os cavalos dos senhores das terras, presos pela arreata às argolas que ainda hoje existem nas paredes das casas apalaçadas. O caminho que era uma azinhaga para o campo da bola onde o “Zé Maria dos Pinceis”, caidor de paredes para o sustento da casa, guarda-redes de amadores sonhos, a fazer defesas com voos de poste a poste, escalavrando as pernas com arranhões de alto a baixo, que o campo era um pelado de irregulares subidas e descidas. E os “Quarteis”, que foram casernas de soldados, quando das invasões napoleónicas e depois guarida de famílias de ciganos? O castelo da lenda da “Moura Salúquia”? A lenda? A fonte dos Rolins? Os cafés dos ricos e as tabernas dos pobres, onde cantavam coros alentejanos. Lembro-me do “Fachadas”, uma estalagem para trocar de cavalos, onde havia um casão com palha seca para dormir e que servia aos viajantes, vinhos e petiscos, onde ia com o meu avô, comer moelas e beber um pirolito de bolinha. Como seria a minha terra, há já tanto tempo? Já teria importância para ter um jardim?

(sobre jardins a memória mais antiga que tenho da minha terra é a de ela ter um largo que não era mais do que um inóspito terreiro de terra batida com um engenho de tirar água ao centro, afligindo o meu pai com o roufenho barrulho da ventoinha que guinchava gemidos que lhe espantavam o sono. Foi numa casa nesse terreiro que eu nasci, numa tarde que fazia muito calor e o terreiro devia ter o pó suspenso do silêncio que sempre se desprende do calor. As pessoas tinham que atravessar esse largo para ir para a estação dos comboios, porque nessa altura, a minha terra tinha uma estação de comboios, onde chegavam e partiam comboios para nos levar de lá para longe, depois de atravessar os campos de searas e os olivais. Fiquei sempre com a ideia que o início e o fim da minha terra – se calhar o início e o fim do mundo – era a estação dos comboios. Dali se partia. Ali se chegava. Seria o começo ou o termo de um destino?)

O jardim que uma benemérita “Comissão” teve a iniciativa de fazer em 1852, foi refeito e alindado em 1938, inaugurando um novo tipo de iluminação; “…fraca, que transfigurava a cara das pessoas, esverdeando-lhe a cor da pele.” (relato do jornal da época). Os mais atrevidos e dados às coisas das anedotas, batizaram o recém melhorado jardim como “o jardim dos mal encarados”. Soube disto pelo meu avô quando ainda os meus braços eram pequenos para ir muito mais além, as pernas que só queriam correrias e a cabeça a imaginar vir a ser um espadachim que haveria de vencer todas as guerras.

Ainda hoje, a minha terra têm o jardim que vem daqueles tempos e todos o chamam “o jardim dos mal encarados”, porque a iluminação esverdeia a cor da pele de quem por lá passa.

Fico com a ideia de que não é um bom local para namorar.

Disse que à minha terra, houve um tempo em que chegavam e partiam comboios. Isso dava-lhe um pingo de vida, um ar de importância, fazia dela um sítio onde se chega e se partia como se a vida estivesse cheia de coisas por fazer; inspetores do único banco que havia; caixeiros-viajantes com amostras de sapatos, camisas e roupa interior; pessoal que tivera que ir parar as cidades de longe ganhar a vida e vinha matar saudades; alguns forasteiros das aldeias vizinhas – lembro-me de Vale de Vargo, um nome que sempre me encantou – que vinham à feira de Setembro, onde cheirava a peros e havia dois circos, vários carroceis e uma feira de gado ou para as festas de Nossa Senhora do Carmo, em que cobriam as ruas com estevas e “boinho” que me davam muita comichão nas pernas; alunos que iam estudar para outros sítios porque a escola na minha terra era só até a quarta classe; alguém para um funeral de um parente; variadas pessoas com variados destinos, chegavam à minha terra com o apito do comboio e partiam com o apito do comboio. Havia uns “carros de praça” que levam os mais ricos para o centro de minha terra. Os outros, arrastando malas de cartão, atravessavam o poeirento largo que tinha ao centro um engenho de tirar água e o vento – quando o havia – arrancava gemidos roufenhos a uma ventoinha que agitava as insónias do mau pai, porque, nasci numa casa nesse largo, numa tarde de muito calor, mesmo em frente à ventoinha.

Foi nessa altura que me começaram a crescer os braços para abraçar o mundo, desconhecendo se ele queria ser abraçado. Ouvia as histórias do meu avô, sentado ao seu colo, olhando a luz que vinha do candeeiro a petróleo que não estava quieta e desenhava fantasmas nas paredes da enorme cozinha. Criou-me tantos sonhos como as lendas que me contou. Fez com acreditasse que o mundo era uma fantasia de homens bons. Vivi muito tempo convencido disso. As pernas, cansei-as em correrias no “jardim dos mal encarados” de onde vinham, muitas vezes, com os joelhos esfolados, preparados para os ralhos da minha avó.

A minha terra está lá longe, sem comboios porque a estupidez dos homens avarentos a fazer contas, que desconhecem passados, acabaram com os combóis e deixaram em ruina a estação. A minha terra ficou mais remota. Mais sós. Mais no esquecimento. O que lhes importa? Vá lá, deixaram “o jardim dos mal encarados” e as ruas. A rua de São Pedro Estreita para onde fui morar mais tarde e a Igreja, sempre fachada, com o São Pedro esculpido numa tosca estátua, agarrado às chaves do céu e colocado num nicho por cima da porta de entrada.

Isso está lá, ainda, porque, caminheiros que somos, partimos numa avidez de sermos mundo e deixámos as pedras, resignadas, a falar o seu silêncio, à espera que um dia, o acaso nos faça voltar e nos possam dizer dos martírios do tempo que todos vivemos.

A minha terra que têm um jardim que vem de 1852 é um emaranhado de pedras com que fizeram ruas que lamentam o silêncio do meu abandono.

Vivo a solidão de querer lá voltar.

Espero por um comboio que me leve ao “jardim dos mal encarados”.

13 Comments

  1. É de certeza “um bom local para namorar” esse jardim que tão bem descreve, Afonso!
    Mas que tristeza – “A minha terra está lá longe, sem comboios porque a estupidez dos homens avarentos a fazer contas, que desconhecem passados, acabaram com os combóios e deixaram em ruina a estação. A minha terra ficou mais remota. Mais sós. Mais no esquecimento.”
    É assim por tanto lugar neste país mal estimado… e dói. Mas que bom ver tão bem expressos sentimentos comuns e de tanta gente. Gostei muito. Obg.

    Reply

    1. Afonso Batista 6 November, 2014 at 19:09

      Olá Maria Diogo

      Obrigado pelo seu belo comentário. Gostei muito. É bastante incentivador receber palavras que nos ajudam a fazer melhor.
      Abraço

      Afonso Batista

      Reply

  2. Jorge C Ferreira 6 November, 2014 at 18:17

    Tão belo meu Amigo. Acho que conseguia namorar nesse jardim. Adoro o verde. Adoro as luzes que nos pintam de cor diferente. Um grande Abraço,
    Jorge

    Reply

    1. Afonso Batista 6 November, 2014 at 19:12

      Grande Jorge

      Ainda ando à pesca com esta “coisa”. A informática para mim é pior que os cálculos que os egípcios terão feito para erguer as prâmides. O teu comentário chegou cá e agradeço as incentivadoras palavras. Espero que recebes este e.mail

      Abraço

      Afonso

      Reply

      1. Jorge C Ferreira 7 November, 2014 at 07:15

        Não recebi o “email”. Mas li aqui. Abraço.

        Reply

  3. Ivone Maria Pessoa Teles 6 November, 2014 at 23:02

    Caro Afonso, obrigada pelo passeio que me proporcionou ao ” jardim dos mal encarados “, que desconhecia e, agora já sei um bocadinho sobre ele. Os mal encarados eram saudáveis cidadãos que, por lá irem namorar, ficavam pela fraca iluminação, esverdeados. Mas era um jardim duma povoação que até tinha uma estação de comboios que além de transportar os viajantes, ainda cantavam em lenga-lenga ” pouca terra, muita gente; pouca terra muita gente, para alegria de quem os via passar.”
    Espero agora a continuação da prosa do Afonso, que aprecio. Beijo amigo <3

    Reply

    1. Afonso Batista 7 November, 2014 at 10:58

      Obrigado Ivone pelas carinhosa e incentivadoras palavras. Continuarei a escrever, certamente. Por vezes o desalento aparece porque vivemos tempos de malfadados escárnios que atormentam o procurar as palavras para dizer as coisas que sentimos certas. Bjs.

      Reply

  4. “Vivo a solidão de querer lá voltar”. Diz muito mais do que um local, Afonso. Bem mais.

    Reply

    1. Obrigado Anabela. è mesmo isso que sinto. Bjs

      Reply

  5. Madalena Batista 7 November, 2014 at 12:10

    Moura que já não tem um comboio ,tem pessoas “bem encaradas”, ruas ,jardins e sempre a vontade de lá voltar.

    Reply

    1. Obrigado Madalena. Pessoas, ruas, jardins, formas de ser e de estar são as características de uma terra. De uma qualquer. Depois o que diferencia é o amor que temos àquela onde nascemos. E isto ninguém consegue mudar.

      Reply

  6. maria fernanda nunes da cunha morais aires gonçalves 7 November, 2014 at 13:13

    Tão bom ler o que tão bem escreve sobre o seu jardim e as memórias que andam por lá penduradas nas folhas das árvores. As que caíram com a chuva e o vento levaram as recordações silenciosas, sigilosas e não as contaram a ninguém. As que resistem, não obedecendo a leis da gravidade estão lá, teimosamente, para nos lembrarem tudo o que viram e ouviram. Eu também tenho os meus jardins. o botânico, o da estrela, avivados agora pelo seu jardim, o que desde já agradeço. Parabéns por escrever tão bem.

    Reply

    1. Obrigado Maria Fernanda pelas amáveis palavras. Fico muito feliz por gostar da minha escrita. Aumenta a minha responsabilidade.

      Reply

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>