O IMPÉRIO

O imperio

O imperio

 

No início as coisas foram assim

 

que mar é este tão nego, profundo e avassalador que nos empurrou para sul para não sermos mais nada que solidão depois da partida; por aqui ficaram sonhos, amores adiados, futuros ausentes de futuro, árvores sem florir, pasmo de termos sido quem éramos neste país.

cumprir o império, alcácer quibir, sebastião, o adamastor, o príncipe perfeito, sempre para sul como se fosse o nosso norte. dar novos mundos ao mundo. a missão. a ordem. a obrigação. camões, o velho do restelo, as tágides, caravelas, cruzes de cristo ao vento, o disfarce de um infante-monge ou silhueta do inferno, navegantes que se lhe rendiam e um povo de cócoras, sem sorte, à mercê da sua sorte. morrendo de escorbuto e avidez, procurando no cruzeiro do sul o norte do destino da sua sorte.

que mar é este tão negro, profundo e avassalador que nos empurrou para sul em caravelas modernas para cumprir o desígnio do velho império, alcácer quibir e um menino rei louco, exorcizando os demónios que o criaram para nossa desgraça, na procura de um santo graal de sonhos efémeros, piruetas de fantasias à dimensão da sua loucura e da nossa tacanhez.

ainda está por cumprir, o que for, não se sabe se um fantasma ou um demónio, depois de tantos por aqui terem fecundado as nossas almas. virá numa manhã de nevoeiro. assim o dizem os que sabem destas coisas. e o povo à espera…

fomos jovens com o leite das mães ainda a escorrer da beiça, nas veias e o pasmo de termos pela frente aquele mar tão negro, profundo e avassalador, na sua desmedida imensidão a separar-nos de tudo o que ficou para além da imaginação que nunca imaginaríamos.

fomos cumprir o destino que estava por cumprir, disse a aventesma com a voz carcomida pela malvadez que o tanto tempo de poder lhe dera; salvar o império e em força.

cumprir o império, mesmo que sebastião tenha sido uma quimera a abarrotar de sífilis, camões a declamar virtudes que se feneceram no infortúnio da palavra, o infante um mostrengo travestido de morcego,  sagres um ermo de ventos e urzes rastejantes, o esperado nevoeiro que haveria de trazer o desejado já tivesse enferrujado os elmos e as armaduras com o verdete da humidade.

fomos verdes, defender o império sonhado porque o ímpio cadáver sempre adiado nos forjou esse destino com a sua perversa malvadez.

fomos jovens, gente diversa, absurda, pasmada, assustada, remelosa, gemendo fome nos ossos e  mãos desconchavadas de plantar um país agreste, com guia de marcha para o que não se sabia, contingentes sem vontade, amores por cá dependurados em futuros de promessas que eram só isso, incredulidades benzidas em missas de lágrima ao dependuro, já saudades, ainda o espanto não tinha chegado por não sabermos o que iríamos ser, naquele cenário de loucos, vestidos de verde com pimentos para assar por ir fazer a guerra, num sítio para o sul, onde, nem sabíamos que por lá estav o império.

fomos jovens para o sul por aquele medonho mar, negro, profundo e avassalador, gente incógnita de quem a pátria nada quisera saber. indiferente, alarve, outros, alguns levemente aristocratas com a principesca vaidade de ir salvar tronos e viemos qualquer coisa como despojos, uns restos, merdas sem préstimo, bestas absurdas, almas penadas, caixões de chumbo, descrenças, bêbados de espanto para sempre, medos que repugnaram os que cá ficaram, emigrantes em potência, porque o país se tinha apequenado ainda mais, desmerecido da nossa loucura, caminheiros sem fim e sem destino. outros mundos. e o que se queria esquecer a acordar-nos aos gritos porque o juízo entorpecido que veio de lá, ficou guardado na gaveta da mesinha de cabeceira quando partimos.

vindos do sul, em busca do norte que por aqui tínhamos deixado nos corações suspensos de martírio e saudades, mareando com uma bússola empenada pelo assombro daqueles sítios por onde andámos, voltámos por aquele mar tão negro, profundo e avassalador que num tempo de que já tinhas esquecido a altura, nos tinha empurrado obstinadamente para o sul como se o começo e o fim de tudo por ali tivesse nascido. voltamos ensimesmados  com o espólio dos nossos imperceptíveis silêncios, incompreensíveis para quem nos amava e assim nos fomos transformando em fantasmas por termos estado onde nos nasceu o espanto, o abandono, o adiamento de um sentimento, de uma vontade, de uma coragem, de um amor, de ter um filho, de ter uma coisa qualquer. só o desejoso de não acordarmos as lágrimas por ter lá estado.

Passámos a cozinhar, noite dentro, a insónia como companheira e amante, numa imaginação de sexo de estrelares acrobacias, rasgados por dentro, no sítio onde tínhamos escondido a morte, não fosse ela lembrar-se de nos levar, por termos morrido tantas vezes quantos os dias que estivemos naquele sul onde, no norte do nosso desconhecido futuro estavam os seios da insónia que iríamos beijar como se fosse a última paixão do mundo.

Que mar é esse tão negro e tão profundo que ainda não exorcizámos da memória e que nos leva, para longe, para mais longe numa ânsia de ainda ser possível encontrar uma explicação para aquele império que nos desajustou, tanto tempo já passado, este quer estar onde não estamos, desejando a morte que virá, mansa, única sabedora do que por lá se passou, a redimir-nos desta amargura de não nos querermos como somos.

Que mar foi esse tão negro, profundo e avassalador que nos empurrou para sul e que nos levou a desacreditar de outros destinos, onde a esperança ou a bondade de um sorriso, nos possa, ainda, libertar de termos sido só um destroço num império destroçado.

 

 

2 Comments

  1. Madalena Batista 29 January, 2015 at 23:15

    Excelente texto com sensibilidade poética eleva
    e salva os limites do ser humano quando confrontado com situações extremas como a guerra.A vida é o que permanece apesar de tudo.

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  2. maria fernanda da cunha morais 31 January, 2015 at 16:15

    não fomos bem sucedidos nestas viagens. Nas primeiras levámos para povos limpos e inocentes um balde cheio de vírus e cruzes onde eram obrigados a pregar deuses por eles amados. Não descobrimos as terras que eles já tinham encontrado quando nasceram.
    Outras viagens levaram os nossos homens e irmãos a uma guerra que foi inventada por caprichos e delírios. Regressaram jovens feridos, amputados, mortos por dentro e por fora.
    É sempre um prazer ler o que escreve tão bem! Parabéns.

    Reply

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