NÃO SABES QUE SOU SÓ UM PESADELO

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O velho Saturnino  “roda mundo” vivia insónias e pesadelos. O sono fora-se diluindo com o tempo. Deixou de se alimentar dele. Os anos consumiram-no. Leve, tinha-se tornado numa libelinha. Frágil, passara a ser uma ausência; o sono,

cedera o lugar à insónia e aos pesadelos

o velho Saturnino “roda mundos” esvaíra o sono; tanto fazia. A vida sempre fora uma vigília. Sempre tinha sido assim para a viver. Agora, dores, ressentimentos, mágoas, remorsos, enchiam-lhe a imutável velhice de nada. Indiferenças.

 

– os raios que o partissem estar ali junto ao céu, enfiado num pijama com a braguilha aberta que lhe ensebava a alma e cheirava a mijo – para onde foram os botões pai? não tem juízo? tape essas poucas vergonhas que são só peles, nem para o gato ervem – Cristininha a ralhar, afogueada, com o rabo descaído, subira aquela montão de degraus – setenta e quatro – que o isolavam da terra junto ao céu. A reforma uma migalha de injuria a que Cristininha, mesmo enfrentando os setenta e quatro degraus vinha todos os meses aos sobejos. O precisão a apertar e Cristininha a vir catar os trocados na gaveta da mesinha de cabeceira. O pai está um esbanjador, onde está o dinheiro? só moedas? Não me diga que ainda anda atrás das putas? trouxe alguma cá para casa? Cristininha, ventas ao leu, a farejar o orvalho do ar como um proboscídio à procura de um golpe de denûncia. Cheiro a vagina. A prova do crime. Cristininha só sarro da velhice – Saturnino “roda mundos” a querer dizer-lhe – só peles e a barguilha sem botões que se arrastava nuns chinelos já desfeitos à espera que a filha e o rabo descaído se fossem embora com os sobejos da reforma e o inexistente cheiro a vagina. Quem lhe dera. Só a solidão a voltar. E Cristinha; o pai não tem juízo, cada vez mais velho e mais maluco, o que faz ao dinheiro? Não sabe que tem o dever de ajudar os netos. Já não quero que se preocupe com a filha. Qualquer dia o melhor é ir para um lar. Baixinho; para o cemitério. Só não sei se a reforma dá para a mensalidade. Eu não posso ter mais despesas

(cristininha tens o rabo descaído, não o deixes cair por aqui que não sei o que lhe fazer)

os seus netos levam o dinheiro todo, a escola, o carro, a prestação da casa, o cabeleireiro por causa do olhar atrevido do chefe, bla, bla bla, o proboscídio a farejar o esconso da gaveta da mesinha de cabeceira à babuje dos os sobejos da reforme de injúria e baixinho; o velho nunca mais morre para poder vender a casa e alto; estas escadas matam-me, são setenta e quatro degraus de solidão, sabes Cistininha? fico com a coluna toda dorida e os quadris derreados sempre que cá venho, e o rabo descaído Cristininha, qualquer dia cai aqui em casa e depois o que é que eu faço com um rabo, tenho para uma semana, só dores, às vezes até tenho que dar baixa lá no trabalho, e o chefe mete férias ao olhar atrevido, sabe que agora trabalho nos telefones e baixinho; ele já não quer saber nada, só pensa em putas o desenvergonhado e alto; o pai não reconhece os sacrifícios que faço, só deixa os restos da reforma, gasta tudo, não sei como: com esta escada que me mata, não sei como o pai ainda consegue ir à rua, onde estão os trocados? ao menos isso? o pai não reconhece quem se preocupa consigo.

reconheço Cristininha, reconheço,

(o que sabe esta tipa que em tempos foi minha filha sobre o que é estar aqui, vivendo abandonos, a cheirara a mijo, em cima de setenta e quatro degraus de uma escada que me separa de um naco de terra e me obriga a respirar o ar mais leve por estar junto ao céu?)

Cristininha – apanha o rabo, não o deixes por ai – já não durmo. Só insónias. Só pesadelos. Cristininha, não me cates os trocados da reforma, não vês que sou só um pesadelo.