A IMENSA ETERNIDADE

 

(o afastamento do Jardim foi feito de tanto tempo e de tanta coisa vazia que hoje, ainda, estou para saber porquê. A razão de “criar” o “jardim dos mal encarados” ficou explicada la par trás. Uma memória, porque, quando pouco somos, e queremos saber o que somos, sobra a memória. Só a memória. A minha continua a estar, estranhamente, presa aos tempos que me fascinaram a infância. Relembrar-me da alma leve e da inconsciência de, por essa altura, nada saber sobre os assombros da vida, é um sortlégio.  E correr, correr desenfreado, pelo jardim dos mal encarados, atrás de uma bola que o meu avô me comprou na feira de Setembro;

infâncias,

agora volto, prometendo-me, assiduidades, porque, afinal, escrever pode ser uma inutilidade, mas poder ser, também, o cisma para entender os assombros da vida. Teimemos; )

 

Acordei para levar mais um dia que os outros querem que leve. Médicos, curandeiros, bruxos, políticos mandantes, comprimidos, xaropes, exercício físico, bagatelas de desdém com que os escribas nos pasquins diários nos entopem a razão. E eu silêncios. A acomodar-me a esta fartura de já tanto tempo ter. E a pensar, ao levantar-me da sanita; adiamentos, esperanças que haveriam de mudar coisas, coragens de rotundas cheias de gente que foram, outra vez, adiamentos, ilusões que periféricas almas alimentaram, vontade, de sem saber o que era meu, acreditar numa liberdade possível. O incómodo matinal e eu pensar-me mal acordado. Uma merda cada amanhecer; fico com essa ideia. Ideia que transporto quando vou lavar os dentes. Ideia que se repete, diz-me a escova, ou será a água fria que me enche as bochechas e me acorda de vez, a dizer-me que estou de pé?

(vê lá se cais outra vez, ouço dizer da cozinha.)

Afinal só fósseis, vaidades suburbanas, gulas de alecrins que querem ser mais e mais do que os defuntos que arrastam dentro de si, num prazo de validade que desconhecem, finalmente, hipocrisias porque, outra vez, os do governo a dar-lhe crédito e eles a correr em votações de compromisso, comprometendo-se na prestação do novo carro para se enfiarem na “bicha” para a caparica, numa rufiagem de não quer saber. E eu silêncios, apaladando o salobro da insónia e a virem à memória os rios que me fizeram inchar as mãos durante a noite a pensar na ausência de já não ser o patético centro onde, alguma vez fui alguma coisa. Agora solidões, alheamentos e a estúpida revolta de ter sido instrumento de insignificâncias. Confronto-me com o vazio de ter sido e com a necessidade de encher o vazio de ser, novamente. Agora só palavras que me interessa inventar; e os outros, indiferenças. Vivo a métrica de mim mesmo que luto para não se desfazer com o banho Uma métrica onde teimo encontrar a razão para acordar, para me manter acordado.

O vizinho do andar de baixo tem um papagaio que me diz:

“Vai à merda. Deixa de ter pena de ti e apanha o carro eléctrico para visitares um qualquer cemitério onde encontrarás almas penadas, bem mais penadas que a tua. Depois anda descalço num campo de urtigas e ficarás a saber como “marear” o resto da vida que te falta para ires viver a imensa eternidade.”

Logo mais, vai chegar a noite que não é mais do que a véspera do acordar. Outra vez…

 

2 Comments

  1. Antonio O Pedroso 13 December, 2015 at 20:47

    Como sempre, lùcido!
    Vou partilhar

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  2. Obrigado meu amigo. Um forte abraço.

    Reply

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