OS “CACHAÇOS”

 

                                                                                                                                       uma estória antiga que os mais antigos me contaram, antigamente

 

Sebastião “Cachaço” ficou-se pelo atarracado. Pouco crescera em altura. Alargara e, assim, passou a ser o que era. Largo de ombros. Peludo no peito. Tufos a saírem-lhe descompostos pelo “V” da camisa sempre desgargalada. Nos braços, na parte que se via, logo abaixo das mangas da camisa sempre arregaçadas, queimados pelo braseiro das searas no Agosto; pelos e mais pelos. E peludo noutros sítios, está bem de ver ou de imaginar.Barriga a saltar por cima do cinto das calças. A parte nobre daquele figura; a que lhe dava o cognome; era um pescoço enorme, cheio de roscas calcinadas pelo sol das inclemências alentejanas que lhe ligava o resto do corpo a uma cabeça pequena, sempre de boné aos quadradinhos a tapar-lhe as sobrancelhas.

Aquela enorme rosca, que lhe substituía a delgadeza de um pescoço como devia ser, estava na origem da alcunha.

Numa terra onde o nome que vinha da pai baptismal pouca importância tinha, porque a imaginação de quem vive, num conluio de vizinhanças, acha melhor uma alcunha como se ela fosse uma marca que se ferra no gado.

Assim, Sebastião “Cachaço”. Para todos: o “Cachaço”.

Que seja então “Cachaço”. Sebastião “Cachaço”.

Por herança paterna Sebastião “Cachaço” ocupava-se em ser agrário. Com mais umas terras que se juntaram, vindas do lado materno o homem era o incontestado dono de um latifúndio que se estendia para os lados de Safara e quase extremava com Espanha, já perto de Barrancos e da Amareleja. Atravessava-o o rio Ardila que nos anos em que a secura não derreava tudo, ia dando de beber ao gado e às searas que se perdiam por aqueles ondulantes outeiros.

(Vivia-se o tempo em que chamavam ao Alentejo o celeiro de Portugal. Noutros sítios, cultivar vinha era dar de comer a um milhão de portugueses. Noutros, plantar pinhal era um imperativo nacional, porque o pinhal haveria de ser o petróleo do país. Assim alardeava, vociferante, a propaganda do regime. E no regime, imperava Salazar, a quem os do reviralho chamavam “O Estorvo” e que ia acumulando o ouro que lhe vinha da miséria em mantinha a populaça a viver e da ardilosa diplomacia com que contentava a sua inclinação germanófila, sem beliscar o centenário tratado com sua Alteza Real a Inglaterra. Porque; negócio do volfrâmio dava para todos.)

Mas voltemos ao “Cachaço”, ao Sebastião. Agrário com um latifúndio de terras na margem esquerda do Guadiana, de corrente de ouro que saia, a atravessar-lhe a barriga opulenta, de um dos bolsos do colete de cotim para o outro, onde se escondia um relógio, artefacto desnecessário para quem tinha dificuldades em ver as horas, (pouco afeito que estava com números e, principalmente, com esse mistério que eram as letras e a seguir com as palavras e, depois com as frases). Aprendera que o sol lhe indicava as virtudes do passar do tempo e a fome a hora da pastagem. Sempre era um relógio mais fácil de consultar. “Cachaço”, espelhava-se no orgulho dos seus domínios e com ele, ia adubando aquelas terras que lhe davam importância, poder e reverências dos que dele necessitavam e que eram tantos. Sobretudo em anos de miséria. A fome e o nada ter, obrigava, nesses tempos, a uma dorida vénia e a uma mão estendida, humilhada, a esmolar a um “Cachaço”.

(“Vida ruim, vivida num vale de lágrimas” –  lembro um dos antigos a contar-me o que o povo sofria.)

Montado a cavalo com o capataz de espingarda aperrada, sempre uns metros atrás, para lhe cobrir as costas, Sebastião “Cachaço”, olhava aquela largueza de terras e era possuído pela nostalgia. Vinha-lhe à ideia, uma prole de descendentes que haveriam de dar continuação à herança que dizia ter sido benzida pelas muitas missas que mandava rezar ao padre Bento, na igreja Nossa Senhora do Carmo.

Essa coisa desconforme que lhe fazia amolecer o “mau génio” e que lhe disserem ser a nostalgia, era como um bicho manhoso. Trazia-o incomodado, taciturno, a saber que tinha que dar uma volta à vida. Afinal, não era mais do que o problema de sucessão. Sebastião “Cachaço”, sentia ter chegado a hora de arranjar mulher, dar vazão ao sémen acumulado em anos de poisio e emprenhá-la as vezes que fosse preciso para lhe dar um rebanho de filhos.

Sebastião “Cachaço” era o único filho, o herdeiro universal, porque os outros dois irmãos tinham-se ido, ainda crianças, com maleitas próprias da idade ou, como diziam coscuvilhices mal intencionadas, vindas de invejas e maldições, ungidas por rezas com velas postas em cruzeiros à meia noite com a lua escondida no negrume de nuvens agoirentas; vítimas do “mau olhado”. Isso, afirmavam as velhas, ajeitando o xaile negro na cabeça.

O homem, já andava para dentro da idade e urgentava-lhe a necessidade de casar para ter o tal rebanho de herdeiros que lhe ficassem com tanto património e, principalmente, com o cognome, “Cachaço” porque uma alcunha é uma herança que se deve preservar como o brasão de uma família com muitos teres e haveres.

 

Dona Isabelinha aprendera a tocar piano e a falar francês como a marca distintiva das famílias com laivos de aristocracia, ainda que falidas. Pavoneavam-se pelos Estoris, fazendo negaças a um tempo que diziam não passar porque tinha que preservar as tradições. Tinha a arreliá-la uma chusma de tias solteironas que lhe iam dizendo; Isabelinha a menina está com uma idade que se aproxima do limite do casadoiro, tem que arranjar um homem que tenha muito se seu para nos tirar desta pelintrice de aparência aristocrática, ontem já mandámos remendar alguns lençóis e temos que comprar vestidos novos para ir à festa de anos da marquesa de “Penacho Alto” e não temos dinheiro para tudo, isto dito e redito com voz áspera a meio do chá das cinco e das torradas. O pai de Dona Isabelinha, desde que enviuvara não queria saber de falências muito menos das tias solteironas; era vê-lo a passear-se pelo Tamariz, num velho “Bugatti” descapotável, à caça de espanholas e à noite, a ficar cada mais endividado, na roleta do Casino Estoril.

Num feliz domingo de Pascoa, após um almoço de borrega assado no forno, Dona Isabelinha, a falida descendente de vetustos aristocratas, acertou casamento com Sebastião “Cachaço” o rico agrário. Uma união por conveniência, lavrada em letra desenhada por um tabelião que selava o casamento, onde Dona Isabelinha, tomaria parte de todos os bens do “Cachaço”, dando como contrapartida, a obrigação de emprenhar as vezes que fossem necessárias para dar o tal rebanho de filhos ao “Cachaço”. Da aliança entre a fome e a vontade de comer, resultava que a fortuna do agrário salvava a monarquia da falida da família aristocrática, o futuro da chusma das tias solteironas e desenhava a risonha esperança de um rebanho de herdeiros para os montes e vales do “Cachaço”.

Dona Isabelinha lá foi, por caminhos poeirentos, viver para um monte nos arredores de Safara, terra que nem sabia que existia, muito menos onde ficava.

Assim salvaram-se as pratas, a cagança aristocrática, o “Bugatti” descapotável e, seja como for, uma mulher sempre tem que ter um homem mesmo que não tenha pescoço; pode até ter um “cachaço” desde que com muito dinheiro.

Mas cagança, cada um com a sua; para Sebastião “Cachaço”, também cagança. Para um alarve mais parecido com um almocreve, onde só brilhava a fortuna, era uma cagança casar com uma fidalga da linha, mesmo falida que sabia falar francês, tocar piano e beber chá às cinco da tarde acompanhado com palitos “la reine”. Aristocracia sempre é aristocracia, mesmo que fosse num monte perdido nos arredores de Safara.

 

                                                                                                                                   o que se segue foi-me dito pelos antigos que viveram o antigamente;

                                               

a aristocracia falida que se pavoneava pelos Estoris como se os brasões ainda valessem antigos penachos, casava filhas                                                     com ricos comerciantes saídos da burguesia florescente que vendia fazenda a retalho ou com rudes agrários que                                                                   intervalavam a caça às rolas ou às lebres com vindas à cidade à caça de “meninas de boas famílias” nos “coutos” da Linha                                                   dos Estoris.

 

Era assim naquela altura; (afirmaram-me), neste jardim à beira mar plantado, onde Salazar, desconfiado, arregimentava o cruzamento entre as classes possidentes, as novas e as antigas para que mantivessem o mando e o poder e, assim, começava a ser o homem providencial e o “valha-nos Deus” que nos tinha salvo de entrar na grande guerra.

Dizem as más línguas, (sempre as más línguas) que Sebastião “Cachaço”, finada a boda de arromba, depois de partir o bolo dos noivos e de beber o champanhe francês com o dedo mindinho espetado, à noite, ainda arrotando bolinhas do champanhe, quando, em ceroulas, se enfio na cama para tomar conta daquilo que era seu e que lhe custara bom dinheiro, olhando de soslaio para Dona Isabelinha que era um novelo de vergonhas, de camisa de noite de finíssima cambraia que a cobria dos pés até ao pescoço, onde era apertada por um farfalhudo laço de cetim cor de rosa, rasgou, de alto a baixo, os alvos lençóis de seda, porque as unhas dos pés, que se esquecera de cortar, estavam tão afiadas como finos arados para lavrar terra dura.

                                                                                                                               

                                                                                                                              os antigos contaram-me o sucedido ontem e ainda hoje se houve contar.

 

(e o compadre médico – o único médico naquelas agrestes redondezas –  a perguntar; e então compadre Sebastião “Cachaço” como foi depois e depois, o “Cachaço” a dizer com um riso alarve, compadre senhor doutor, depois um homem não se pode ficar, montei-a mesmo assim com os lençóis lascados e lavrei-a com a rabiça do arado que um homem que é homem não pode deixar para amanhã o que tem que fazer hoje, não fosse eu o Sebastião “Cachaço”, dono disto e daquilo e agora de uma mulher que tenho que emprenhar para me dar um rebanho de filhos.)

 

Do esperado cruzamento entre Sebastião “Cachaço” e Dona Isabelinha – por mais lençóis que se lascassem – para a conta do almejado rebanho só uma cria;

Ivo. O Ivinho. O menino Ivo “Cachaço”, assim se chamava a venturosa criatura que herdara o invólucro do pai, as finuras da mãe e a soberba de um fedelho, filho único, montado em hectares e hectares de terras.

(atoleimado, coitadinho; a coscuvilhice das más línguas a trabalharem nas costas do casal dos senhores agrários em                                                             invejas; o menino saiu lerdo, benza-o Deus, naquele cachaço que lhe esbugalha os olhos. Diz-se que, avesso ao saber                                                         das cartilhas do Estado Novo repetiu, duas vezes, o exame da quarta classe e da admissão aos liceus e só um enorme                                                         folar, de presente para o prior da diocese de Beja o fez passar.)

Dona Isabelinha expiou amarguras naquele monte alentejano nos arrabaldes de Safara por não ser a parideira do tal rebanho de filhos como tinha ficado lavrado no contrato. Os ossos da bacia são muito estreitos, disse-lhe Idalina a criada mais velha, enquanto a benzia do mau olhado, usando um malga com água da cantarinha e umas gotas de azeite. E assim se foi finando a nobre senhora, já sem gosto pelo piano que o marido mandara vir da capital e esquecendo o francês porque nem o pastor do rebanho das ovelhas a entendia quando o tratava por monsieur.

Sebastião “Cachaço” com um herdeiro que, mesmo atoleimado, lhe haveria de tomar conta dos destinos da largueza de terras, acreditando que o Pai do Céu, o destino e o sangue que lhe herdara, o haveriam de por fino na mudança da idade ou na primeira vez que fossa às putas – como lhe dizia o compadre o médico – cada vez mais a caminho dos Estoris, agora, à cata de espanholas numa correria de despejar odres. Perfumava-se e cortava as unhas dos pés, não fosse lascar os lençóis alheios e fizesse má figura junto de meninas tão prendadas.

Ivinho “Cachaço” já espigado e aferroado ao mando que o pai lhe dava, subia para o tractor, manhã cedo, e ia passear-se pelo meio da searas, mesmo na altura em que estavam boas para a ceifa. “Menino Ivinho não faça isso não vê que assim arrebenta com as searas e vai ser tudo prejuízo o que dirá o seu paizinho?” O capataz a carpir-se numa roda de consumições. E Ivinho “Cachaço” cada vez mais atoleimado; ” estou a abrir estradas, o futuro esta nas estradas, este pais precisa é de estradas, seu estúpido.”

 

                                                                           ao contarem-me esta estória, gente mais moderna, garantiu-me que Ivinho “cachaço” chegou a senhor                                                                                    ministro das obras públicas. Com outro nome, está claro, mas o mesmo “cachaço” porque um “cachaço” é                                                                              sempre um “cachaço”. quando é que foi ministro? não sei. não sou dessas coisas da política, respondam                                                                                vossas excelências…                                                                                                                                                                                                                                                                                             

 

 

 

 

CRÓNICA DE UM PRESÉPIO IMPROVÁVEL

 

Seu Vadinho e a transbordante pachorra de um enormidade negra, descia todos os dias lá do morro até ao sítio do alcatrão onde gente remediada comprava coxinha de frango, empadinha de carne picada, bolinho de queijo, pãozinho quente, feijão preto com farofa, carne do açougue e outras coisas que eram a sua vida naquela padaria de esquina. Seu Vadinho tinha muito para contar. Depois de ter sido muito assaltado e roubado por “pivetes” para gastarem em “maconha” e, Deus me valha, até uma vez, cinco minutos com uma “peixeira” encostada à carótida, esta quieto não te mexas que te sangueramos mesmo aqui com se fosses um boi, enquanto limpavam o balcão e os fregueses de todo o dinheiro e seu Vadinho numa promessa a Jesus Cristo, vou-me embora daqui e te serei grato para sempre.

e assim foi,

seu Vadinho com o dinheiro que lhe arrecadou de toda a vida, comprou um fio de ouro com um crucifixo e uma passagem para Portugal para vir ajudar um patrício que vendia coxinha de frango, empadinha de carne picada, bolinho de queijo, pãozinho quente, feijão com farofa, carne do açougue e outras coisas, numa padaria de esquina num bairro meio fino da capital. Seu Vadinho, lembrando o susto da peixeira encostada à carótida no infindável tempo de cinco minutos, onde rezou tudo o que sabia e inventou novas orações ao senhor do Bonfim, cumpria a promessa de fazer, todos os anos, um presépio que cintilava, no canto do balcão, luzinhas intermitentes, amarelas e azuis a piscarem a saudade do seu céu carioca.

havia quem dissesse que o presépio de seu Vadinho falava e dizia;

“que o menino Jesus berrava “baba e ranho”, inquietando a sua desesperada mãe que não sabia o que lhe fazer, porque as palhas da manjedoura onde o tinha deitado lhe picavam as costas e lhe faziam comichão no rabo. A porra da tradição de me deitarem numa manjedoura só lembrava a quem nunca se deitou numa manjedoura. Depois o bafo da vaca, quente e pegajoso, cheira a esterco e não me deixa dormir e o zurrar do burro que o fazia dar um salto de susto sempre que o animal se lembrava de dizer qualquer coisa na sua estridente linguagem asnídia. É um desassossego viver neste presépio. Logo ele, a quem um tipo com asas, vestido de branco reluzente e que lhe disseram ser um anjo, coisa que ele desconhecia, e tinha vindo de propósito do céu para lhe anunciar a boa nova; que ele, o menino Jesus, que haveria de ser homem e depois Jesus Cristo, tinha vindo ao mundo em nome do Pai para espalhar a palavra da salvação aos ímpios e aos pecadores que andavam cá em baixo desbaratando a vida em luxurias e em vaidades. O pai, o outro, eternamente encostado ao cajado, mantinha aquele expressão confusa, de, por muito que matutasse não conseguia perceber o mistério do nascimento daquele filho que a tradição o mandava deitar naquele monte de palhas que lhe enchia o corpo de brotoeja e ser adorado pelos do povo que vinham, desde pastores a Reis magos; todos em alegria dando ossanas ao salvador. E a mãe a barafustar com o pai, o do cajado, a jurar-lhe, lavada em lágrimas que era virgem porque assim lhe tinha dito o tal anjo. e o menino Jesus, lá estão eles outra vez com esta irritante discussão doméstica, sempre a falar no divino espírito santo ou coisa assim e que me põe em alvoroço por serem transcendências de adultos e eu com fome, a querer só mama, rabo seco e que aquela estranha mistura de palhas com uma vaca e um burro me deixassem dormir. Depois via a excitação do pai, o do cajado, e da mãe, a virgem, a limpar e a arrumar a cabana, ou seria uma gruta? porque uma estrela lhes tinha dito que viriam, em comissão de boas vindas uns fulanos montados em camelos que diziam ser Reis magos, uma palavra que ele não sabia o que queria dizer e lhe trariam ricas oferendas, outra palavra que ele não sabia o que queria dizer e ele a dizer aos pais que; estou muito bem acompanhado pelos pastores, não gosto de Reis, muito menos de magos e o meu Pai, o outro, disse-me que viria para ser pobre e mostrar aos homens que a grande riqueza são eles próprios e não o ouro, os palácios, o escravos, o petróleo e o dinheiro em offshores, mas a estrela estava atrasada e diziam as más línguas que se tinha perdido porque nessa altura ainda não havia gps e finalmente os Reis magos a chegarem e logo ali a mostrarem como são diferentes os ricos e eu cheio de comichões por causa da palha da manjedoira e a espirrar com o cheiro do incenso…

e o menino Jesus

a pensar; o meu pai, o outro, o que disse para eu vir ao mundo trazer a palavra da salvação, parecia que não ligava nenhuma a isto, só pessoal a morrer de miséria, gajos a roubar descaradamente, tipos à porrada uns com os outros, cheias, tremores de terra, milhares de mortos, desgraças por todos os lados.

a pensar; estou lixado com tanto trabalho que tenho pela frente quando for nomeado chefe desta confusão em que está a terra. O Vaticano que dizem ser o escritório onde está o meu poder é uma balburdia de cinismos palacianos porque todos lutam pelo poder de dizerem que falam em meu nome e em nome do meu Pai que me mandou por ordem nesta rebaldaria. Deixaram-se corromper pelo dinheiro, pelo fausto, pela vaidade, pela abundância, pela gula, pela ganância, o mal de todos os homens e até dos banqueiros…

e depois dizem que a salvação do mundo está na caridade.

O que hei-de fazer?

Teimam, todos os anos, fazer de mim um lindo menino, deitado numa manjedoira de duras palhas que me arranha as costas e o rabo, a respirar o bafo de uma vaca, a assustar-me com os zurros de um burro e ser adorado por mudos pastores à espera que as riquezas que os Reis magos me irão trazer possam ser, também, para eles.

as riquezas, sempre as riquezas.”

Um freguês, espantado, enquanto apaladava uma coxinha de frango, disse: “Oh seu Vadinho o seu presépio está muito lindo mas o menino Jesus é preto!”

“Eh meu irmão. Lá no morro de onde eu vim, os moleques são todos pretos, eu mesmo sou, como podes ver. Pode ser que o tal de menino Jesus tenha passado lá pelo morro numa altura qualquer.”

E seu Vadinho: “Vai outra coxinha de frango?”

MARIALINDA

Hoje nem isso tenho. Um nome. Sou a doente da cama 3 sala 8. Quando a desgraça nos impacienta o destino, logo perdemos o nome. Passamos a ser um número para melhor nos identificarem no emaranhado das paredes onde nos asfixiam a identidade. Marialinda chamou-me a minha mãe mesmo antes de me separarem dela, mal me viu nascer,

é tão linda a minha menina, “benza a deus” que lhe deu tanta formosura. Agora que tenho estranhos micróbios que vão comendo a parte boa das minhas entranhas, sou só a doente da cama 3 sala 8. E aqui cheguei sem saber como. Mal me tinha habituado a viver. Tenho duas retorcidas cicatrizes no sítio das mamas. Foi por ai que tudo começou e foi só isso que me restou. As retorcidas cicatrizes e o vazio. E o estetoscópio do senhor de bata branca que mexia o lábios a dizer-me e eu sem querer ouvir e eu a querer saber o porquê da minha mãe me chamar Marialinda. Sempre tão bondosa a minha mãe;

agora uma saudade, a única que me vem ver lá do sitio estranho onde está. Senta-se aos pés da cama 3 sala 8 e diz-me; não venhas que eles queimam-nos as solas dos pés e obrigam-nos a esfacelar os joelhos para nos redimirmos dos pecados e ficarmos a saber o caminho para as portas do céu e eu, noite dentro só cama 3 sala 8 a sonhar com uma alma penada que vêm não sei de onde, a única que sabe onde estou e eu só um pesadelo sem me sair da cabeça;

o meu marido quando me viu sem mamas, a pegar no dinheiro que tínhamos e a sair porta a fora, disparado com medo que o remorso o fizesse tropeçar naquilo que eu era antes, agora marialinda sem mamas, marialinda duas retorcidas cicatrizes no sítio daquilo de que ele tanto gostava, marialinda estás no início da decadência, marialinda o bichos invisíveis vão-te comer por dentro e eu ainda não a doente da cama 3 sala 8, marialinda já quase a perder o nome e ele, o meu marido, com medo de olhar para trás e ver-me outra vez com mamas e ficar e as vizinhas com cara de dó mas de rabo alçado de gozo a dizerem-me:

Marialinda vimos o teu marido a gastar o dinheiro todo com putas com mamas grandes e a última vez que o viram, foi uma caboverdiana que mo disse, tinha um pacote de vinho na mão e discursava para a estátua de um tipo qualquer, cheio de dragonas de herói de dedo em riste, duque de qualquer coisa ou marechal de coisa nenhuma e deve dormir todo enrodilhado no esconso de umas escadas de uma casa que sei está lá fora, para além destas paredes da sala 8 cama 3 onde me asfixiaram a identidade e onde espero que os micróbios maus, os bichos invisíveis, a crueldade da vida, o vazio de não ter mamas e ter duas retorcidas cicatrizes no seu lugar, isso tudo, ou o que quer que seja;

que acabe o seu trabalho para eu deixar de ser definitivamente Marialinda.

A DÚVIDA

“Pináculo” Tengarrinha não tinha iphone, ipad, phones, nunca tinha feito uma selfie e acomodava no bolso esquerdo das calças um telemóvel do tempo em que as mensagens ainda eram mandadas por pombos correios. “Pináculo” era alcunha como se deve concluir. Porquê? Pela altura, está bem de ver, e por aquele ar esgrouviado e meditabundo que lhe compunha a imagem. No emprego; um “call-center” onde abundava gente transitória na transitoriedade de um emprego intelectualmente insuficiente para “a dúvida” de “Pináculo”, os transitórios, tipos e tipas, achavam-no assim, muito coiso. Um “merdas”; dizia com acepipes de masculinidade o “monte de músculos”;

(que era o encarregado que “malhava” horas a fio num ginásio que bebia uma mixórdia verde vitaminada que tinha uma vagina tatuada no braço que abria e fechava consoante entesava ou relaxava o músculo do braço que as “pitas” de unhas de gel e cabelos esticados ginchavam saltinhos perante as graçolas que o monte de carne intumescida dirigia a “Pináculo” Tengarrinha averbando mais uma vitória alarve no currículo machão que…)

“Pináculo” Tengarrinha pouco se importava, pelo menos parecia; seria? isto de o mundo ser um pântano de crueldades onde a imbecilidade premiava a imbecilidade, um circulo vicioso criado pelo homem para não ter o trabalho de pensar – pensar cansa, pensava “Pináculo” – e pacato, viver uma felicidade embrutecida, era um sofisma que já não o apoquentava.

“A dúvida”              era outra;

outra coisa.           Coisa mais complexa que o trazia absorto como um vegetal.

O mistério da concepção.

Sim.                       O mistério da concepção.

Sabia que ele, mesmo assim, feito daquele jeito, resultara da explosão de desconhecidas sensações, talvez ternuras, prováveis felicidades, inimagináveis sentimentos, quando um rabiante espermatozóide fecundou um desprevenido óvulo.

“A dúvida”

Ele “Pináculo” Tengarrinha seria mais espermatozóide, mesmo que pouco rabiante, ou mais óvulo, mesmo que mais desprevenido?

“A dúvida”

Tinha dias que se sentia mais óvulo, mais redondo, mais gordo, mais desprevenido e tinha que empurrar o sono dos tipos cinzentos que enchiam o metropolitano para mais um dia de tédio. Outros dias sentia-se mais espermatozóide, mais magro, mais comichoso, sempre a rabear, em busca de provocar uma explosão de estrelas que nunca tinha visto como se fosse uma girândola de foguetes numa festa de aldeia.

“A dúvida”

que se instalara, fazia de “Pináculo” Tengarrinha um absurdo. Um “coiso” como diziam as unhas de gel, um “merdas” como dizia a vagina tatuada no braço do energúmeno musculado.

Um dia, por mero descuido mental, “a dúvida” caiu ao chão e, porque era de cristal, desfez-se em mil pedacinhos que cintilaram na estupefacção de “Pináculo” Tengarrinha. Os outros, aqueles, os que estavam mesmo em frente, arranhando o destino, despreocupados com o mistério da finitude, afinal, também eram o resultado do milagre de uma misteriosa explosão, quando um espermatozóide rabiante fecundara um óvulo desprevenido.

Incrédulo, pensou. Se assim era, então, o porquê de só ele ser um “merdas”?

“A dúvida” instalou-se novamente.

Esta vai dar-te muito mais trabalho a decifrar, “Pináculo” Tengarrinha.

(falaremos um dia sobre isso.)