A DÚVIDA

“Pináculo” Tengarrinha não tinha iphone, ipad, phones, nunca tinha feito uma selfie e acomodava no bolso esquerdo das calças um telemóvel do tempo em que as mensagens ainda eram mandadas por pombos correios. “Pináculo” era alcunha como se deve concluir. Porquê? Pela altura, está bem de ver, e por aquele ar esgrouviado e meditabundo que lhe compunha a imagem. No emprego; um “call-center” onde abundava gente transitória na transitoriedade de um emprego intelectualmente insuficiente para “a dúvida” de “Pináculo”, os transitórios, tipos e tipas, achavam-no assim, muito coiso. Um “merdas”; dizia com acepipes de masculinidade o “monte de músculos”;

(que era o encarregado que “malhava” horas a fio num ginásio que bebia uma mixórdia verde vitaminada que tinha uma vagina tatuada no braço que abria e fechava consoante entesava ou relaxava o músculo do braço que as “pitas” de unhas de gel e cabelos esticados ginchavam saltinhos perante as graçolas que o monte de carne intumescida dirigia a “Pináculo” Tengarrinha averbando mais uma vitória alarve no currículo machão que…)

“Pináculo” Tengarrinha pouco se importava, pelo menos parecia; seria? isto de o mundo ser um pântano de crueldades onde a imbecilidade premiava a imbecilidade, um circulo vicioso criado pelo homem para não ter o trabalho de pensar – pensar cansa, pensava “Pináculo” – e pacato, viver uma felicidade embrutecida, era um sofisma que já não o apoquentava.

“A dúvida”              era outra;

outra coisa.           Coisa mais complexa que o trazia absorto como um vegetal.

O mistério da concepção.

Sim.                       O mistério da concepção.

Sabia que ele, mesmo assim, feito daquele jeito, resultara da explosão de desconhecidas sensações, talvez ternuras, prováveis felicidades, inimagináveis sentimentos, quando um rabiante espermatozóide fecundou um desprevenido óvulo.

“A dúvida”

Ele “Pináculo” Tengarrinha seria mais espermatozóide, mesmo que pouco rabiante, ou mais óvulo, mesmo que mais desprevenido?

“A dúvida”

Tinha dias que se sentia mais óvulo, mais redondo, mais gordo, mais desprevenido e tinha que empurrar o sono dos tipos cinzentos que enchiam o metropolitano para mais um dia de tédio. Outros dias sentia-se mais espermatozóide, mais magro, mais comichoso, sempre a rabear, em busca de provocar uma explosão de estrelas que nunca tinha visto como se fosse uma girândola de foguetes numa festa de aldeia.

“A dúvida”

que se instalara, fazia de “Pináculo” Tengarrinha um absurdo. Um “coiso” como diziam as unhas de gel, um “merdas” como dizia a vagina tatuada no braço do energúmeno musculado.

Um dia, por mero descuido mental, “a dúvida” caiu ao chão e, porque era de cristal, desfez-se em mil pedacinhos que cintilaram na estupefacção de “Pináculo” Tengarrinha. Os outros, aqueles, os que estavam mesmo em frente, arranhando o destino, despreocupados com o mistério da finitude, afinal, também eram o resultado do milagre de uma misteriosa explosão, quando um espermatozóide rabiante fecundara um óvulo desprevenido.

Incrédulo, pensou. Se assim era, então, o porquê de só ele ser um “merdas”?

“A dúvida” instalou-se novamente.

Esta vai dar-te muito mais trabalho a decifrar, “Pináculo” Tengarrinha.

(falaremos um dia sobre isso.)

One Comment

  1. Madalena Batista 1 December, 2015 at 21:37

    Infelizmente existe o mundo dos bons e o daqueles que não prestam .É o mundo das desigualdades de todas as espécies em que nos habituamos a viver. O testo faz-nos pensar nesse paradoxo.Afinal fomos todos concebidos da mesma maneira.

    Reply

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