CRÓNICA DE UM PRESÉPIO IMPROVÁVEL

 

Seu Vadinho e a transbordante pachorra de um enormidade negra, descia todos os dias lá do morro até ao sítio do alcatrão onde gente remediada comprava coxinha de frango, empadinha de carne picada, bolinho de queijo, pãozinho quente, feijão preto com farofa, carne do açougue e outras coisas que eram a sua vida naquela padaria de esquina. Seu Vadinho tinha muito para contar. Depois de ter sido muito assaltado e roubado por “pivetes” para gastarem em “maconha” e, Deus me valha, até uma vez, cinco minutos com uma “peixeira” encostada à carótida, esta quieto não te mexas que te sangueramos mesmo aqui com se fosses um boi, enquanto limpavam o balcão e os fregueses de todo o dinheiro e seu Vadinho numa promessa a Jesus Cristo, vou-me embora daqui e te serei grato para sempre.

e assim foi,

seu Vadinho com o dinheiro que lhe arrecadou de toda a vida, comprou um fio de ouro com um crucifixo e uma passagem para Portugal para vir ajudar um patrício que vendia coxinha de frango, empadinha de carne picada, bolinho de queijo, pãozinho quente, feijão com farofa, carne do açougue e outras coisas, numa padaria de esquina num bairro meio fino da capital. Seu Vadinho, lembrando o susto da peixeira encostada à carótida no infindável tempo de cinco minutos, onde rezou tudo o que sabia e inventou novas orações ao senhor do Bonfim, cumpria a promessa de fazer, todos os anos, um presépio que cintilava, no canto do balcão, luzinhas intermitentes, amarelas e azuis a piscarem a saudade do seu céu carioca.

havia quem dissesse que o presépio de seu Vadinho falava e dizia;

“que o menino Jesus berrava “baba e ranho”, inquietando a sua desesperada mãe que não sabia o que lhe fazer, porque as palhas da manjedoura onde o tinha deitado lhe picavam as costas e lhe faziam comichão no rabo. A porra da tradição de me deitarem numa manjedoura só lembrava a quem nunca se deitou numa manjedoura. Depois o bafo da vaca, quente e pegajoso, cheira a esterco e não me deixa dormir e o zurrar do burro que o fazia dar um salto de susto sempre que o animal se lembrava de dizer qualquer coisa na sua estridente linguagem asnídia. É um desassossego viver neste presépio. Logo ele, a quem um tipo com asas, vestido de branco reluzente e que lhe disseram ser um anjo, coisa que ele desconhecia, e tinha vindo de propósito do céu para lhe anunciar a boa nova; que ele, o menino Jesus, que haveria de ser homem e depois Jesus Cristo, tinha vindo ao mundo em nome do Pai para espalhar a palavra da salvação aos ímpios e aos pecadores que andavam cá em baixo desbaratando a vida em luxurias e em vaidades. O pai, o outro, eternamente encostado ao cajado, mantinha aquele expressão confusa, de, por muito que matutasse não conseguia perceber o mistério do nascimento daquele filho que a tradição o mandava deitar naquele monte de palhas que lhe enchia o corpo de brotoeja e ser adorado pelos do povo que vinham, desde pastores a Reis magos; todos em alegria dando ossanas ao salvador. E a mãe a barafustar com o pai, o do cajado, a jurar-lhe, lavada em lágrimas que era virgem porque assim lhe tinha dito o tal anjo. e o menino Jesus, lá estão eles outra vez com esta irritante discussão doméstica, sempre a falar no divino espírito santo ou coisa assim e que me põe em alvoroço por serem transcendências de adultos e eu com fome, a querer só mama, rabo seco e que aquela estranha mistura de palhas com uma vaca e um burro me deixassem dormir. Depois via a excitação do pai, o do cajado, e da mãe, a virgem, a limpar e a arrumar a cabana, ou seria uma gruta? porque uma estrela lhes tinha dito que viriam, em comissão de boas vindas uns fulanos montados em camelos que diziam ser Reis magos, uma palavra que ele não sabia o que queria dizer e lhe trariam ricas oferendas, outra palavra que ele não sabia o que queria dizer e ele a dizer aos pais que; estou muito bem acompanhado pelos pastores, não gosto de Reis, muito menos de magos e o meu Pai, o outro, disse-me que viria para ser pobre e mostrar aos homens que a grande riqueza são eles próprios e não o ouro, os palácios, o escravos, o petróleo e o dinheiro em offshores, mas a estrela estava atrasada e diziam as más línguas que se tinha perdido porque nessa altura ainda não havia gps e finalmente os Reis magos a chegarem e logo ali a mostrarem como são diferentes os ricos e eu cheio de comichões por causa da palha da manjedoira e a espirrar com o cheiro do incenso…

e o menino Jesus

a pensar; o meu pai, o outro, o que disse para eu vir ao mundo trazer a palavra da salvação, parecia que não ligava nenhuma a isto, só pessoal a morrer de miséria, gajos a roubar descaradamente, tipos à porrada uns com os outros, cheias, tremores de terra, milhares de mortos, desgraças por todos os lados.

a pensar; estou lixado com tanto trabalho que tenho pela frente quando for nomeado chefe desta confusão em que está a terra. O Vaticano que dizem ser o escritório onde está o meu poder é uma balburdia de cinismos palacianos porque todos lutam pelo poder de dizerem que falam em meu nome e em nome do meu Pai que me mandou por ordem nesta rebaldaria. Deixaram-se corromper pelo dinheiro, pelo fausto, pela vaidade, pela abundância, pela gula, pela ganância, o mal de todos os homens e até dos banqueiros…

e depois dizem que a salvação do mundo está na caridade.

O que hei-de fazer?

Teimam, todos os anos, fazer de mim um lindo menino, deitado numa manjedoira de duras palhas que me arranha as costas e o rabo, a respirar o bafo de uma vaca, a assustar-me com os zurros de um burro e ser adorado por mudos pastores à espera que as riquezas que os Reis magos me irão trazer possam ser, também, para eles.

as riquezas, sempre as riquezas.”

Um freguês, espantado, enquanto apaladava uma coxinha de frango, disse: “Oh seu Vadinho o seu presépio está muito lindo mas o menino Jesus é preto!”

“Eh meu irmão. Lá no morro de onde eu vim, os moleques são todos pretos, eu mesmo sou, como podes ver. Pode ser que o tal de menino Jesus tenha passado lá pelo morro numa altura qualquer.”

E seu Vadinho: “Vai outra coxinha de frango?”

5 Comments

  1. Brilhante! Das mais belas, ternurentas e bem-humoradas estórias que li nos últimos tempos. Ser capaz de desconstruir, de forma assombrosa, um gigantesco dogma não é para todos. Tamanho é o seu talento, Afonso Batista. Parabéns e bem haja pelo deleite que nos faz sentir.

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  2. Fico muito feliz pelas suas tão amáveis palavras minha amiga Ana. Serão sempre lembradas como um estimulo para continuar a iludir a solidão inventando “estórias” que sejam representações da realidade que vivemos. Abraço muito amigo.

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  3. maria fernanda morais 18 December, 2015 at 13:03

    Grande criatividade, escrita que nos envolve. seja o menino branco, preto ou de olhos em bico, o seu, é um magnífico conto de natal. Parabéns escritor!

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  4. Obrigado Maria Fernanda pelo seu comentário. Palavras de apreço e estima são sempre um encorajamento.

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  5. Como faco ja alguns anos quando se aproxima o natal, venho aqui reler essa cronica como se quisesse decora-la, talvez, por medo de esquecer a sua belissima mensagem. Nos ultimos muitos anos, um dos raros registros substantivos possiveis da realidade no jornalismo amazonense e a cronica semanal Taqui pra Ti do Jose Ribamar Bessa Freire”.

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