MARIALINDA

Hoje nem isso tenho. Um nome. Sou a doente da cama 3 sala 8. Quando a desgraça nos impacienta o destino, logo perdemos o nome. Passamos a ser um número para melhor nos identificarem no emaranhado das paredes onde nos asfixiam a identidade. Marialinda chamou-me a minha mãe mesmo antes de me separarem dela, mal me viu nascer,

é tão linda a minha menina, “benza a deus” que lhe deu tanta formosura. Agora que tenho estranhos micróbios que vão comendo a parte boa das minhas entranhas, sou só a doente da cama 3 sala 8. E aqui cheguei sem saber como. Mal me tinha habituado a viver. Tenho duas retorcidas cicatrizes no sítio das mamas. Foi por ai que tudo começou e foi só isso que me restou. As retorcidas cicatrizes e o vazio. E o estetoscópio do senhor de bata branca que mexia o lábios a dizer-me e eu sem querer ouvir e eu a querer saber o porquê da minha mãe me chamar Marialinda. Sempre tão bondosa a minha mãe;

agora uma saudade, a única que me vem ver lá do sitio estranho onde está. Senta-se aos pés da cama 3 sala 8 e diz-me; não venhas que eles queimam-nos as solas dos pés e obrigam-nos a esfacelar os joelhos para nos redimirmos dos pecados e ficarmos a saber o caminho para as portas do céu e eu, noite dentro só cama 3 sala 8 a sonhar com uma alma penada que vêm não sei de onde, a única que sabe onde estou e eu só um pesadelo sem me sair da cabeça;

o meu marido quando me viu sem mamas, a pegar no dinheiro que tínhamos e a sair porta a fora, disparado com medo que o remorso o fizesse tropeçar naquilo que eu era antes, agora marialinda sem mamas, marialinda duas retorcidas cicatrizes no sítio daquilo de que ele tanto gostava, marialinda estás no início da decadência, marialinda o bichos invisíveis vão-te comer por dentro e eu ainda não a doente da cama 3 sala 8, marialinda já quase a perder o nome e ele, o meu marido, com medo de olhar para trás e ver-me outra vez com mamas e ficar e as vizinhas com cara de dó mas de rabo alçado de gozo a dizerem-me:

Marialinda vimos o teu marido a gastar o dinheiro todo com putas com mamas grandes e a última vez que o viram, foi uma caboverdiana que mo disse, tinha um pacote de vinho na mão e discursava para a estátua de um tipo qualquer, cheio de dragonas de herói de dedo em riste, duque de qualquer coisa ou marechal de coisa nenhuma e deve dormir todo enrodilhado no esconso de umas escadas de uma casa que sei está lá fora, para além destas paredes da sala 8 cama 3 onde me asfixiaram a identidade e onde espero que os micróbios maus, os bichos invisíveis, a crueldade da vida, o vazio de não ter mamas e ter duas retorcidas cicatrizes no seu lugar, isso tudo, ou o que quer que seja;

que acabe o seu trabalho para eu deixar de ser definitivamente Marialinda.

6 Comments

  1. Ana de Freitas 8 December, 2015 at 17:13

    tão intenso! apeteceu-me abraçar-te, Marialinda. e a si também, Afonso Batista.

    Reply

    1. Obrigado minha amiga. São palavras de incentivo. Continuarei escrever neste espaço sobre a “realidade” de sermos muito pouco mais do que isto. O abraço senti-o e foi muito amigo. Bjs.

      Reply

  2. Um texto de um infinito,de uma certeza,de haver muitas Marialinda (s) por ai…Gostei muito!

    Reply

    1. Obrigado minha amiga. Irei continuar a escrever neste sítio sobre aquilo que nos vai “encharcando” a realidade deste tão desesperado alheamento, como se, humanos que somos, fossemos, só, tão pouca coisa. Abraço

      Reply

  3. Muito bonito este seu texto, sobretudo pela extrema sensibilidade com que aborda este problema, infelizmente tão frequente…revela-se um escritor extraordinário, com um sentido agudo da realidade.

    Reply

  4. Obrigado pelo seu amável comentário. É um incentivo que guardarei para prosseguir nesta luta “com as palavras e os sentimentos” que é a escrita. Abraço.

    Reply

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>