A PERITAGEM

O Parkinson de Tenório Cabeças seguia atento tudo o que se passava e tinha entrado num desassossego de abanões violentos como se o mundo se estivesse a transformar numa coisa pior do que já era. Foi quando, sabendo que a nobreza o impedia de depor na Peritagem sobre os anos de trabalhos mortificados que passara na frota que decidiu ditar para memória futura o seu depoimento.

 

Disse: vou lembrar passados.

 

“Durante quarenta e muitos anos pensei ter trabalhado para tipos sérios, mesmo que, muita vezes, tivesse sido assim-assim. Concluo, agora, que nos últimos tempos estive a soldo de uma súcia bem montada que esbulhava os incautos com promessas de ouro porque estavam cravados de dívidas. Um dia até me quiseram dar uma pistola para o assalto ser mais rápido. Recusei. Depois; que não, que não valia apena, desse-me um dos chefões, vermelho dos uísquis; bastava usares a palavra e a bazófia da marca, porque os tansos não percebem nada do que lhe dizemos. Só querem ouvir falar de juros mais altos. São uns agiotas como nós. O chefão, vermelho dos uísquis chamou a isto; estratégia de venda forçada.

Vendo-me cá fora porque o limite de idade carimbou-me como incapaz, um dia em andanças pela cidade a espairecer o Parkinson, os sapatos levaram-me até um sítio, de tão conhecido que era até as solas escorregaram na calçada Dei de chofre com o bunker da frota e, apoderado pelo espanto da primeira vez, dei por mim a olhar o gradeado dourado todo cagado pelo tempo.

Ofuscava-me o espanto e o sentimento de estar a olhar para um presídio onde, quarente a tal anos de mim, estavam ali enclausurados, sem os poder reaver e vivê-los de outra maneira.

Fui possuído pela sensaborão do iniludível passar do tempo e descobri, finalmente, que era um velho.

Confiara o tempo de uma vida inteira àqueles tipos e, agora, naufragado, vejo a soberba de quem nunca quis saber dos outros para além da distância até onde vai o esguicho do seu mijo egoista.

 

Envelhecemos quando o espanto nos dá conta que o tempo passou e somos confrontados como significado impiedoso da palavra irremediável. Numa estranheza de coisas estranhas,  passámos a ser habitados por realidades esquivas; dores, doenças e outros males que ignorávamos. Dizem-nos os sábios de bata branca e de estetoscópio pendurado ao pescoço como se fosse o colar de um qualquer curandeiro de uma exótica tribo indígena que a chegada das dores e de todo o tipo de maleitas está associada a processo natural de termos consumido boa parte da vida.

(numa espécie de conforto piegas, pondo-me a mão indiferente no ombro carente, desse-me o tal médico de estetoscópio em forma de colar: – Inconscientemente ou nem por isso, é um processo a que não damos importância para conveniência da nossa ilusão.)

 

E,

que baralhar o sentido de orientação no espaço e calçar os sapatos ao contrário, é natural

que a vozes que ouvimos e confundimos com o hino nacional, é natural.

que os joanetes que cresceram e que a muito custo metemos no nos chinelos do quarto, é natural.

que o coração que passou a discordar do ritmo dos antigos batimentos, descompassando-se em paragens súbitas e arranque engasgados, é natural.

que a falta de tesão e ter o penduricalho sempre descaído como um fruto mucho de préstimo duvidoso, é natural.

que a ausência da antiga firmeza nas nalgas que começam a estar ao dependuro, numa flacidez de pudim caseiro, é natural.

que mijar muitas vezes como se a bexiga estivesse possuída pela inveja de ser pouco importante e nos quer lembrar que sempre esteve ali, esquecida, mas que chegou a altura de nos atormentar as horas, é natural.

que enfiar a colher ao lado da sopa ao lado da boca numa falta de pontaria parkinsiana, é natural.

que num dia se caga duro e noutro é uma soltura de águas imparáveis, é natural.

que os joelhos são gonzos ferrugentos, sempre a gemer como se as pernas do antigo andarilhar sejam, agora, pesados portões de mausoléus em ruínas, é natural.

que o olhar parado, a beiça húmida, a face absorta, compondo uma carranca assustada com o espanto de já pouco entender o que se passa, á natural.

 

Tudo natural porque estamos a viver a decadência natural de nós próprios.

Sabemos, já tarde, como seres irreversíveis que a decadência que herdámos ao nascer e começou a contar desde o primeiro hora é, afinal, natural.

 

Embasbacado frente a um edifício mastodôntico onde enterrei a minha irreversibilidade, entendi que tudo o que fiz para aqueles “fulanos de tal”, durante todo o tempo que gastei atá aqui chegar, o fiz por dever de consciência, usando e abusando de um tempo que é, afinal, irrepetível.

Finalmente, com o Parkinson montado à garupa deste mistério de me ir desfazendo em torpores incontroláveis, numa lentidão de búzios, dei conta que só me resta o fim.

Estou, finalmente, a caminho desse fim que dizem ser natural.

O tempo, bem me avisou quando, muito dele já o tinha gasto em minudências terrenas ou a aturar Impérios de vontades alheias e que já não tinha remédio para corrigir a forma como o gastei.

Examinei-o e vi que estava gasto.

A angustia de não poder voltar atrás e ter arranjado melhores companhias, é um  terramoto que me sufoca o arrependimento. Olhando para o torpor de tanto tempo ter remado na frota, descobri que foi a crueldade quem inventou o impossível.

Sobra-me um relógio que esgueira horas, escondendo-as, porque as lágrimas já me alucinam, a vista e só me recordam o levantar, todos os dias, à hora certa, para o que foi uma vida inteira a chafurdar em hipocrisias que, vejo agora, terem sido embustes montados por malfeitores de escrúpulos baixos, por diabos sabidos que me transformaram os dias no dever tortuoso de muito marear num lento prelúdio para a morte.

Foi o que consegui trazer até aqui.

Sei que a finitude é um descalabro que logo nasce connosco e que muitos, por soberba de linhagem, acreditam nada ter a ver com eles porque o sangue com que nasceram é diferente, só deles, desigual ao dos outros, ao da pobreza e pensam que isso os ajuda na descoberta da eternidade.

Pensam. e é por isso, para defesa do seu mundo que se tornem avaros e gananciosos – admitem, orgulhosos – esquecendo-se que morrem como os outros. Vão mais bem cheirosos, mais idos em caixões de cetim, mais barbeados, mais com luxurias de flores, velas e missas, mas fodem-se à mesma, morrem como os outros como os miseráveis quaisquer que tanto odiaram e sei que não vão para paraíso nenhum, porque Deus, que já não acredita no que que criou à sua imagem e semelhança, manda-os lixe e veda-lhes o acesso ao paraíso a que julgam ter direito.

Sei que a finitude é o ponto final da velhice, afinal, os abanões do parkinson já se confessaram cansados e um tipo rechonchudo de bata branca e colar de feiticeiro ao pescoço, desse-me que é natural o naufrágio ter-me enchido os pulmões com a ruína de ter confiado.

Vou, flutuando, sem sentido por esta praia onde arribei, desconhecendo os azimutes onde estou, transportando algas misturadas com o entulho que salvei como se fossem relíquias preciosas.

Vou, flutuando, sem sentido, à procura de um espaço em que possa transformar-me numa rocha definitiva, igual às falésias que sempre me cercaram.

Era isto que tinha para vos dizer.”

 

( do meu livro “O Marujo – Uma História Trágico-marítima” a publicar.)