REALEZAS

 

 

De uma das portas de um prédio sai um cão a rebocar o dono numa urgência da mijadela. Acho curioso este equilíbrio de repelões entre um cão a resfolgar impaciência na ponta de uma trela esticada e um homem a resfolgar domínio na outra ponta da trela esticada sem saber quem estica quem; quem segura quem; quem irá passear quem. Equilíbrio feitos de canídias rotinas numa aflição de mijadelas e cagadelas, a lambuzarem os passeios de toda a gente. Solidões preenchidas mesmo para o descuido de quem pisa a merda de cão – sempre têm um motivo para rebentar o marasmo e explodir impropérios contra a civilização porque um cão e a sua merda pode ser um elemento de sociabilidade nestes tempo de penúria de afectos e de solidões amargas.

vamos ver;

um cão não é um objecto, uma coisa, um pechisbeque, mais um artefacto na mobília que nos chocalha os dias; um cão é um animal com as suas arbitrárias necessidades, manias, instintos e até gostos. passeá-los é um quotidiano de obrigação que os habitantes da praceta fazem com um mal disfarçado fastio. vendo o lado positivo; poder ser um motivo para quebrar desconhecimentos, sempre se pode falar de pelos, de raças, de idades, de doenças, de tipos de rações… de não tenha medo que ela não faz mal, está muito bem educada, eu sei, arrisco, mas o meu é muito nervoso, ansiedades de ser macho, percebe, com vontade de dizer; o que ele quer é saltar para cima da sua cadela, e a outra, é por ser muito novo, pelo menos parece, e eu, nem por isso já tem para cima de dez anos, dez anos? não diria com este pelo tão sedoso, pois é, é da ração, dos banhos das escovadelas, bons tratos, uma fortuna, pois é, o que se há-de fazer, afeiçoamo-nos a eles e depois é o que é, pois é, são uma companhia, uma companhia que temos que trazer para mijar e cagar duas vezes ao dia e eu de saco de plástico na mão com a merda a desfazer-se e ela sem se calar, pois é, e depois estes queridos bichinhos não têm culpa das coisas como estão e eu, pois é, já viu que com o diabo da crise foram tantos abandonados, sim senhora têm muita razão, há pois tenho, viu no outro dia num programa da televisão o abandono que para ai vai, pois é, é uma pouca vergonha são abandonados aos milhares, há gente que não têm coração até são capazes de abandonar os próprios filhos quanto mais os cães, pois é, por este andar não sei onde vamos parar, eu digo para quem me quiser ouvir; os cães são uma companhia, a única companhia, a verdadeira a que temos nesta porcaria de mundo em que vivemos e eu, pois é, só invejas, só maldade, só crimes, pois é, os homens haviam de ser como eles, fieis, amigos do seu dono, e eu está quieto asdrubal deixa a cadela da senhora, como se chama ela? Sofia, e eu; bonito nome como se fosse uma pessoa, uma mulher, uma rainha, rainha Sofia, muito bem, pois é, veja o senhor que a Sofia é melhor que muitas que por ai andam, algumas são mesmo cadelas vadias, sem respeito por ninguém, e eu, pois é, é a vida,o senhor tem razão quando diz que é a vida, já viu como está tudo, agora? a culpa é sempre dos mesmos, dos que estão no poleiro, não querem saber de nós para nada, pois é, e eu está quieto Asdrubal deixa a Sofia, está quieta Sofia deixa o cão do senhor, e eu não faz mal, pois é, não sabem mandar, antigamente… então adeusinho, até amanhã, amanhã o senhor vêm há mesma hora? e eu a olhar para o plátano, anda Asdrubal deixa de cheirar a Sofia, não querias mais nada, saltar para cima de uma rainha… pois é.

ELISA

 

 

 

 

digo-vos que Elisa foi a minha mãe, olhos azuis como se fossem o céu da planície alentejana, cabelo espesso e loiro, uma espiga que imagino, Elisa a minha mãe morreu já há muitos anos poucos meses depois de eu ter desembarcado dessa coisa ruim que foi uma guerra por onde me obrigaram a andar e ela no dia do desembarque na rocha conde d´óbidos de lenço cor de rosa como tínhamos combinado num aerograma azul e eu, no barco, a chegar-me ao cais e a ver-lhe a doença na palidez que a havia de matar. escassos anos vivemos juntos – pouco mais de vinte anos – eu e a Elisa a minha mãe nos tantos anos que levo disto ainda hoje sinto que escrever sobre a mãe e o amor são coisas delicadas, para as quais é preciso conhecer a palavra do impossível e as lágrimas de olhos azuis como se fossem o céu da planície alentejana e eu a fechar-lhos no absurdo daquele quarto de hospital com a guerra a lixar-me a cabeça e a não saber como se define a saudade; se é a essência do vazio ou o vazio ele próprio quando já não tem mesmo nada lá dentro e eu sem saber porque é que os carros eléctricos eram amarelos e porque havia gente estupidamente feliz que injuriavam a minha amargura.

julgo, ter sido tudo isto hoje ou já há muito tempo porque habituei a minha vida a ser habitada pela ausência que é coisa que não se explica e fica cá, para sempre, a sentir-se não se sabe onde, (lembraram-se de inventar a perda) e que passa a ser um inconformismo permanente como se o tempo tivesse sido parido pela cobra rastejante da submissão a que vida nos passou a obrigar, e eu, a regressar aquele calor, habitando os gestos do verão nos banhos ao sábado no alguidar de barro para irmos passear no jardim pela fresca com o cheiro da alfazema do sabão e o risco bem desenhado no lado esquerdo do cabelo, alargando o sorriso vermelho de Elisa que sempre me espantou com às coisa inexplicáveis que me ensinava como a confiança porque; não se é filho sem que o amor da mãe o tenha parido para lhe dar a confiança com que se irá iludir na vida.

e foi assim que percebi a importância da poesia numa manhã em que o céu se transformou num mar a desaguar para a terra dilúvios de ondas medonhas que traziam as algas mais estranhas das profundezas do medo e peixes incomensuráveis, nunca vistos pelas gentes que ficaram assustadas e em estado de alerta no séculos que haviam de vir e eu sem saber que aquilo que sentia era medo a não querer ir para a escola e o meu pai tirando o cinto a obrigar-me a ser comido por um daqueles espantosos peixes e Elisa, a minha mãe a colocar a formosura da sua mão na minha cabeça que me soube ao sonho do conforto e vi naqueles olhos azuis como se fossem o céu da planície alentejana e que me tinham dado a vida uma lágrima tão inexplicável como o dilúvio com que os deuses tinham mandado encharcar a terra. Aprendi, nesse altura a importância das palavras e do enorme silêncio que se faz com a sua ausência. Também vos quero dizer; aprendi por essa altura a chorar, o que passou a ser um hábito; a chorar a mansidão da tristeza que iria ser transportada por todos os defuntos que haveria de conhecer. a chorar para dentro porque nunca aprendi a coragem dos homens grandes que choram em voz grossa. a chorar o eterno agradecimento de ter conhecido Elisa e de ela me ter feito nascer.

A VIRTUALIDADE

 

somos nós e a tão pouca coisa que somos porque nos deixámos ficar em ser só isto, agora, declinando dias, meses, talvez anos, (quantos?) porque entrámos num atalho sem retorno onde vamos esbarrar com ela; a coisa medonha que dizem só vir para nos anunciar o definitivo caminho sem regresso, logo ali, ao virar daquele sobreiro, naquela curva mais apertada onde há uma moita de malmequeres amarelos que sempre foram a minha perdição e depois, a chorar pela tão pouca coisa que pude ser e o que fui ontem, soldadinho de chumbo a combater o desterro de um império, lá longe, onde não cheirava ao tojo e ao pão amassado pela feliciana, a minha avó, só sangue coalhado e almas obscuras que diziam coisas tão sofridas que espaventávamos, numa alegria de copos, bêbados até a madrugada e que estava para além do arame farpado para aparecer com a remissão de não sabermos o que éramos, nem o que fazíamos, somente a certeza comichosa de ter um par de tomates e depois, falidas que foram todas as esperanças com que quisemos adornar o acreditar, aqui estamos, humildes a olhar para um caco de espelho onde,

(que imagem tão foleira mas é o que se pode arranjar)

quero saber sobre a memória da nuvem que por lá ficou e nada; o caco a dizer-me que isso é passado e hoje já ninguém vive do passado porque nos meteram na mão uma caixinha de segredos que nos dá o presente no tempo do mesmo tempo e a virtualidade de um futuro de irrealidade; é o mundo virtual; estúpido que é que queres?  e eu pasmado no tempo, continuo à espera da justificação do passado com que me coicearam no outro tempo, aquele que vivi e de que quero saber coisas como a memória, a lembrança, o júbilo, o remorso, a bênção, a felicidade, o amor, essas coisas; não vês que somos só esta tão pouca coisa que somos porque agora queremos ser mais do que isso, virtuais virtualidades numa teima absurda de querer entender a realidade, pintando-a de tantas mentiras quantas as poderosas máquinas que nos produzem o virtual e assim querem que hoje, num folclore de crenças vadias que parlam em inglês porque o camões; lixou-se de braço dado com o pessoa, tanto que escreveram e não souberem inventar as palavras para os rufiões de agora se embevecerem com ilusões de que o futuro é mesmo assim a tomarem de assalto o meu futuro, que não sei se vou a tempo de não lho tirar das mãos e a dizerem-me que eu não sou eu e que o mundo que cheiro não existe, só existe aquele, o virtual, o que foi criado pelas suas imaginações fecundas, vindas de mundo de aventuras que é aquele mundo que me dão para ter o espanto de o olhar por um caco de espelho onde,

(que imagem tão foleira mas é o que se pode arranjar)

a memória é um travesti emplumado que vejo por um par de óculos esquisito, todo artilhado com jagunças sofisticações onde me sento num carro e vou a duzentos à hora voando por montanhas cheias de himalaias e vejo os vagalhões monstruosos do cabo horne como se o estivesse a navegar numa vela em balão e outras surpresas irreais, ali mesmo ao pé de mim que vivo com a taquicardia em alvoroço e, quando os tiro, os óculos de todas as virtualidades, e olho a realidade com a cor verde garrafa com que a elisa, a minha mãe, que teve tanto trabalho a fazer a cor dos meus olhos, cor verde garrafa, agora, coalhados por cataratas do tanto choro que sofreram pelo mundo que deixei para lá a atormentar-me o seu sem regresso e a minha estupidez de não o ter vivido como devia, vejo tamanha miséria, a insolvência de tantas vidas, o escárnio da ilusão de tantas esperanças, o sufrágio universal das demências do tipos de todos os poderes e a inclemência da brutandade de gajos que vieram não sei de onde a tomar conta disto e a malta das virtualidades, a dizer que sim, que a fome é uma imaginação escarrapachada num plasma em três dimensões como se o unicórnio em ouro destes novos ricos virtuais não quisesse, como os outros, também, os paraísos fiscais para sorver coquetéis cor de rosa, adornados com sombrinhas e palhinhas verde alface, num deleite de édens excêntricos onde vão pendurando prosaicas riquezas. desculpem, é o que vejo a olhar pelo caco do espelho que me deixaram, onde,

(que imagem tão foleira mas é o que se pode arranjar)

somos mistérios de indiferença, rebanhos guiados por uma janela global de que nos apropriámos como se fosse a nossa vingança perante o mundo de solidão que nos destinaram, e nós, só importâncias, a despejarmos socalcos da nossa placidez com confettis de festas, na ânsia de um quantidades de “gostos” ou na sinfonia de comentários de circunstância para nos darem o afecto enganoso de estarmos vivos e sermos alguém importante. alguém que nos quer vender inocências e ganhar impérios, ilude-nos, inventando o jardim virtual das amizades que ficam para além de um ecrán. quem sabe disto são os unicórnios da manipulação; sabem que a solidão dorida com que amassamos o dia-a-dia é o alvo a atacar – a solidão, a indiferença, a angustia, o abandono, o raio que nos parta… o que quer que seja, dá bom dinheiro, porque a sociedade já criou o nosso desencanto  – e bajulam-nos com ilusões cibernéticas de comunicação como se fossemos “alguém” na nuvem global da insignificância, escondendo que somos anónimos vultos aritméticos com alma de algoritmos que inventaram para os seus lucros,

(paciência;é o que vejo pelo caco do espelho)

pergunto; por onde a minha memória?

O CAIXOTE

 

que é da natureza das coisas a aristocracia não ter que denunciar teres e haveres a maltrapilhos empedernidos por invejas, era o que mais faltava, já agora, ficarem a saber tudo o que se têm; eh pá os gajos estão cheios de guito, aquilo é só mansões, gajas boas e carros de vidros fumados que só lhes falta levantar voo e agora silêncios, porque não dizem que é uma chatice do caraças ir tomar conta do caixote onde uns se dedicaram à pesca a saíram de lá com uma canastra de robalos e outros, dedicaram-se á espeleologia e esburacaram aquilo tudo com fossas maiores que crateras para sacar mordomias acionista em poisios especulativos e, agora, o gajo quer que lhe calhem pela porta nem que sejam fanecas fritas e vai dai, exigências, depois de tudo pendurado no prego, quer certezas, milenas creditadas na conta para dar um jeito no caixote mastodôntico que mais parece o palácio das mil e uma noite ou como dizem outros, mais sabedores das coisas dos defuntos; um mausoléu que dava para não sei quantos panteões para aferrolhar tudo o que fosse herói nacional desde o “chico calcinhas” que morreu cansado de ser guarda noturno, borboleteando uma cirrose que nunca teve dinheiro para beber vinho do bom, só carrascão martelado à “dona adosinda dos caracóis” que morreu de cancro nas mamas depois das mamas serem consideradas um monumento de insubmissos desejos lá no bairro; isto é o paleio do carlinhos dos joanetes a falar para o maralhal no meio de cervejolas bem fresquinhas num vai e vem de copo vai copo vem, no bar do grupo recreativo cultural e desportivo dos ferroviários da poço do bispo, num palavreado em que abana a alma com a repugnância de estimação que têm por banqueiros abjurados em enigmas de confianças, jogadores de poker encartados, jagunços de perna arcada prontos a cavalgar qualquer sela, marmanjões vindos da gravilha e do cimento que construíram com os “santos” favores da banca, gaiolas em desterrados arrabaldes para lá viverem desperdícios de almas suburbanas, faquires de todas as adivinhações, passarinhos chilreantes com gráficos de todas as certezas a subir na vida, magarefes que desbastam o nada que ainda temos para termos ainda menos, heróis de penacho na lapela gratificados por instituírem o reino “da desigualdade” como se essa fosse a religião do triunfo dos “homens providenciais”, como o outro que tinha a mania de ser dono disto tudo, abrenuncio de todas as suspeitas, alma sagrada investida das aristocracia familiares e das outras que lhe vieram do tempo do “Estorvo”; e foi o que se viu, a cobiça desenfreada, mandou meio país para o caraças e agora escreve memórias, cândido de injustiças, sem sabermos quando vai parar a grelha; já chega carlinhos, disse-lhe o parkinson do tenório cabeças, assolapado em abanões de quero lá saber se o senhor novo da aristocracia que vai mandar no caixote vai ganhar balúrdios, o que a mim me dá comichão é saber se o tipo consegue por aquilo a funcionar como deve ser sem ratonantes a abotoarem-se com o graveto que não é deles ou a emprestar aos amigos, amiguinhos, amigalhaços ou outros papagaios emplumados que dormem em cama de dossel e têm pessoal habilitado para lhe cortar as unhas dos pés; outra vez carlinhos dos joanetes agora a não deixar falar aprígio insonso que queria mandar uma boca sobre o pessoal que gosta muito de ir mandar nos bancos, mas depois armam-se em coitadinhos, que só dificuldades, que os caminhos estão cheios de imparidades e de complexos algoritmos que não dão para saber quem deve e quanto deve; intrujices que quem por lá andou soube o que deixou para os tenórios que somos todos nós, pagantes porque, os “providenciais” que se diziam possuidores do manto de todas as confianças faliram aquele merda com a ganância do seu poder escalavrado em querem ter rendas de bilros em ouro, e agora; e agora os tipos que mandam no reino vão continuar a dar andamento ao poder de mandar no dinheiro que não é deles, é meu, é teu, é dos tipos que confiam e mandam vir uma nova rodada de arlequins especialistas em manguitos para estoirar o que falta, numa roda-viva de compadrios; agora falo eu: diz lá aprígio que sabes das coisas da história como é que foi possível deixar fazer aquele caixote de mármore de carrara, torres, ameias, cúpulas e vigias, só mania de grandezas; isso foi na altura em que os da europa mandavam para cá pazadas de dinheiro para acabar com a agricultura com as pescas e com a industria e o filho do gajo da bomba só auto estradas e palácios para fazer cimeiras e sedes de bancos como se isso fosse o luxo do nosso progresso e o mausoléu que é sede do caixote a gastar tanta energia com uma vila das grandes, mesmo para os das ecologias uma afronta, mas os tipos calados, sem um pio, preocupados com o chilreio dos passarinhos, e agora a entregaram ao aristocrata que não quer que saibam que marca de cuecas veste, se tem um triciclo para passear aos domingos à beira mar, se tem um passe para ir, à surrelfa, a uma casa de acompanhantes de luxo para lhe limparem os óculos, só silêncios, dando ares de ser uma nova versão do “homem providencial” como o outro, a exigir que esgravatassem todos os buracos do caixote antes de se sentar no trono e ir de carreirinha aos da europa para sacar uma fartura de milhões para trabalhar à vontade e se a coisa der para o torto e o tipo demonstrar não ter unhas para aquilo, quem fica entalado somos nós, os pagadores de toda a casta de tropelias dos aristocratas brincalhões, convertidas num jugo de impostos; está bem, é mesmo assim, já sabemos carlinhos dos joanetes, mas como vês o pessoal que está agora no reviralho só fala na narda que o gajo vai ganhar e não quer saber de mais nada e o tipo, numa teima de aristocrata lá muito em cima, a mandar dizer que não têm que dizer nada a ninguém, que não prestar contas de qualquer tusto que tenha nos fundilhos das calças e todos num estardalhaço, num alvoroço de pelintrices e hipocrisias saloias como se isso fosse uma incomensurável afronta, descontando para as raias do desinteresse, por não valer a pena pensar no problema saber se o aristocrata finório é competente para pôr o caixote a funcionar, se gosta de vergar a mola, se tem habilidade para marear o mar de ruínas em que aquilo está, se consegue filar os que se aproveitaram da rebaldaria de terem andado por lá uns saltimbancos de carimbo na testa a jogarem à batalha naval; isso é que era valente, é que era do interesse dos servidores das majestades quem tem dinheiro, dos famélicos sem côdea para roer, dos que habitam a penúria de nada terem para além de saber o que é o futuro, dos que metem para a veia como trampas de uma sociedade onde, para uns terem dinheiro, muito, os outros têm que ter pouco, nada; é assim, sempre foi assim; o que é que queres carlinhos e que os que têm a felicidade de ganharem quinhentos até para mijarem têm os minutos contados, e os arlequins que nos fodem a opinião, só a falar que o senhor dom qualquer coisa que não gosta que saibam que marca de cuecas é que usa, que lhe dissessem o que devia fizer com o dinheiro que não é seu que o pessoal lhe confiou para dar um jeito no reino e para que, quem trabalha, consiga encontrar um pouco de aconchego; porra carlinhos, cansaste-te com tanta lábia que não serve para nada porque o pessoal anda todo numa de “selfis”, a trabalhar para o bronze da demagogia e não quer saber dos milhões que vivem penúrias como tu e a tua garina, só saber que um aristocrata que só silêncios é mais importante que tantos que gemem misérias por ai; e depois, carlinhos, não venhas queixar-te das dores nos joanetes.

A estranheza de ter um corpo

 

Adosindo Ferraz pausa a reforma de muitos anos de carteiro, por onde arrastou as pernas que são uns trambolhos, distribuindo milhares de mistérios selados por toda aquela gente de que só conhecia a ranhura de uma caixa de correio.

Pouco lhe interessou saber mais do que isso; uma ranhura e as devoluções ao remetente que eram uma chatice.

Entretanto, mundo novo,

este do pessoal desaprender a função do papel e da caneta e vá de transformar os mistérios selados em realidades virtuais, numa troca obsessiva de vulgaridades e ridicularias com que se vai entretendo pensando ser o mundo;

o que fez dele um sobejo

e Adosindo Ferraz pausando monotonias reformadas, conclui que a virtualidade sempre foi um mistério selado porque, a um corpo que destilava sebo dos sovacos de muito andar a transportar mistérios selados, correspondia a virtualidade de um espírito, uma alma, o quer que fosse, qualquer coisa que não podia agarrar mas que sabia ser ele,

ele naquele corpo que era ele.

Era este o mistério que lhe selou o tempo e que o levou a pensar nisto; ele, um corpo como se fosse um daqueles envelopes selados que tinham lá dentro uma virtualidade, um espírito, uma alma, o que quer fosse e as duas coisas a serem ele;

(o envelope e o que estava lá dentro, um espírito, uma alma, o que quer que fosse a complementarem-se como se fossem ele; Adosindo Ferraz.)

agora a pausar monotonias de uma reforma de carteiro porque sobejou quando o pessoal deixou de escrever mistérios selados.

 

Adosindo Ferraz sabia que o corpo não devia ser grande coisa porque Deus que dizem ter criado o homem à sua imagem e semelhança, nunca quis ter um corpo, ficando-se só pelo espírito, provavelmente já a pensar no mundo virtual que haveria de vir, ou então,

para evitar a trabalheira de tratar do corpo, fazer a barba, tomar banho, cortar as unhas, dar um jeito ao cabelo, limpar o cú quando se caga, ir ao médico quando começam as dores, vesti-lo, calçá-lo, bronzeá-lo na praia, num exibicionismo parolo, musculá-lo num ginásio, adornando o embrulho e iludir o ser único como se fosse uma marca distintiva que lhe dá a convicção de ser aquele tipo, realmente,

aquele tipo com aquelas ideias, cismas, saberes, caturrices, manias, sentires, amores e outras coisas complicadas que não têm nada a ver com o corpo – embora o corpo as sofra – e que são os mistérios selados do espírito, da alma ou do que quer que seja.

 

Adosindo Ferraz passou a passar o tempo que tinha de sobra por o terem transformado num sobejo, dedilhando o inverosímil tempo de espera a matutar nessa coisa complexa que é o espanto de onde viemos, carregados com as ambiguidades e os enigmas da origem promordial;

se só matéria, aguentando um corpo que se vai corroendo mesmo que seja bem tratado,

se uma virtualidade, um espírito, uma alma ou o que quer que seja que nos fode a cabeça com o pasmo do desencanto de nunca sabermos ser o que queremos ser., ou

se ambos numa convivência de equilíbrios desesperados.

 

Adosindo Ferraz sabia que ele era ele; por aquilo que era o arruinado corpo que o chateava como o caraças e pelo que tinha enfiado na cabeça durante todo aquele tempo que lhe custara a vida e que, agora, o atormentava com as interrogações da finitude.

Duas coisas numa só a viverem uma irmandade nem sempre pacífica porque, nem o corpo aguentava muitas vezes as manias do espírito, da alma, ou do que quer que fosse, nem estes aguentavam os amuos, as renúncias ou as calaceirices do corpo a não querer corresponde aos apelos do espírito.

 

Com o tempo a avançar para a finitude;  “pardacento” com Adosindo Ferraz gostava de dizer, o homem magicava no que havia de deixar dito sobre o que lhe fazerem ao corpo depois do momento de já nã poder mais. Espantava-o que, quando um tipo se finava, o pessoal andasse num corrupio de aflições para tratar do corpo, que houvesse, até, uma indústria lucrativa e muito bem montada para lhe dar tratamento e que o ediles das freguesias, câmaras ou cidades desbaratassem espaços enormes de terreno fértil para guardar os corpos.

Do espírito, da alma, ou do que quer que fosse, pouca coisa a afligir, preocupações ligeiras. Era uma virtualidade que não dava trabalho. Pirava-se, sem sabermos para onde e, umas missas, umas rezas, uma velas a encomendá-la à misericórdia do Senhor Deus para que não fosse esturrar no inferno e o caso ficava arrumado.

 

Aquilo que fora uno, separava-se, e  Adosindo Ferraz ficava sem saber quem seria o verdadeiro;

se o corpo que poucas horas depois de finado começava a feder como se todo o investimento feito no seu sustento e aformoseamento não valesse mais do que uma merda tão mal cheirosa,

se o espírito, alma ou o que quer que fosse, que se pirava, para parte incerta, de mansinho sem ninguém dar por isso, sem chatear o pessoal, sem dar trabalho algum como se quisesse ir para o seu mundo incógnito de que nada sabemos.

 

O corpo é que era uma carga de trabalhos porque estava ali, ocupando espaço, ameaçando maus cheiros, exigindo atenção, reclamando preocupação e, em muitos casos, o desejo de não o deixar partir assim, por isso; escanhoá-lo, vesti-lo, encaixotá-lo em veludos e cetins e depois passeá-lo pela cidade até chegar a um buraco fundo onde, lágrimas e flores afirmavam despedidas daquele que se pensava ser, realmente, o senhor fulano de tal.

Como a inteligência tem que se afirmar como inteligente, os senhores tipos que dirigem isto, resolveram, dado que o destino do corpo é um incómodo e a transcendência metafísicas sobre a matéria e o espírito é coisa que não entra nos orçamentos camarários; tão-somente a gestão do espaço, cada vez mais minguado para armazenar corpos floridos e mal cheirosos em lentas decomposição era o que os apoquentavam. Lúcidos, inventaram a cremação do corpo. Sempre era uma coisa mais cómoda, higiénica e que ocupava menos terreno fértil e as edilidades podiam aprovar novos condomínios privados.

 

Mas o problema subsistia, apoquentava-se Adosindo Ferraz, pausando a reforma. Ficavam as cinzas que o mesmo é dizer ficavam os restos do corpo do senhor fulano de tal como se aquele pó fossem as tripas, o coração, os pulmões, os ossos, o unto, as miudezas e os demais enfeites, completamente esturricados, guardados num pote que se recebia com choros mas que não sabia o que se lhe havia de fazer. O conteúdo era aquilo a que tinham conseguida reduzir o senhor fulano de tal porque o espírito, a alma ou o que quer que seja, adeus oh vindimas já se tinha posto ao fresco para parte incerta.

Para Adosindo Ferraz subsistia o problema; um pote com as cinzas do corpo pousado no aparador ao lado do televisor por cima de um napperon de linho e renda fina e o espírito, a alma ou que quer que tivesse sido ausente em parte incerta, podiam afirmar que, afinal, o senhor fulano de tal tinha sido só um, mesmo que, na hora da finitude cada um se balda-se para o seu lado como se nada tivessem a ver um com o outro?