A estranheza de ter um corpo

 

Adosindo Ferraz pausa a reforma de muitos anos de carteiro, por onde arrastou as pernas que são uns trambolhos, distribuindo milhares de mistérios selados por toda aquela gente de que só conhecia a ranhura de uma caixa de correio.

Pouco lhe interessou saber mais do que isso; uma ranhura e as devoluções ao remetente que eram uma chatice.

Entretanto, mundo novo,

este do pessoal desaprender a função do papel e da caneta e vá de transformar os mistérios selados em realidades virtuais, numa troca obsessiva de vulgaridades e ridicularias com que se vai entretendo pensando ser o mundo;

o que fez dele um sobejo

e Adosindo Ferraz pausando monotonias reformadas, conclui que a virtualidade sempre foi um mistério selado porque, a um corpo que destilava sebo dos sovacos de muito andar a transportar mistérios selados, correspondia a virtualidade de um espírito, uma alma, o quer que fosse, qualquer coisa que não podia agarrar mas que sabia ser ele,

ele naquele corpo que era ele.

Era este o mistério que lhe selou o tempo e que o levou a pensar nisto; ele, um corpo como se fosse um daqueles envelopes selados que tinham lá dentro uma virtualidade, um espírito, uma alma, o que quer fosse e as duas coisas a serem ele;

(o envelope e o que estava lá dentro, um espírito, uma alma, o que quer que fosse a complementarem-se como se fossem ele; Adosindo Ferraz.)

agora a pausar monotonias de uma reforma de carteiro porque sobejou quando o pessoal deixou de escrever mistérios selados.

 

Adosindo Ferraz sabia que o corpo não devia ser grande coisa porque Deus que dizem ter criado o homem à sua imagem e semelhança, nunca quis ter um corpo, ficando-se só pelo espírito, provavelmente já a pensar no mundo virtual que haveria de vir, ou então,

para evitar a trabalheira de tratar do corpo, fazer a barba, tomar banho, cortar as unhas, dar um jeito ao cabelo, limpar o cú quando se caga, ir ao médico quando começam as dores, vesti-lo, calçá-lo, bronzeá-lo na praia, num exibicionismo parolo, musculá-lo num ginásio, adornando o embrulho e iludir o ser único como se fosse uma marca distintiva que lhe dá a convicção de ser aquele tipo, realmente,

aquele tipo com aquelas ideias, cismas, saberes, caturrices, manias, sentires, amores e outras coisas complicadas que não têm nada a ver com o corpo – embora o corpo as sofra – e que são os mistérios selados do espírito, da alma ou do que quer que seja.

 

Adosindo Ferraz passou a passar o tempo que tinha de sobra por o terem transformado num sobejo, dedilhando o inverosímil tempo de espera a matutar nessa coisa complexa que é o espanto de onde viemos, carregados com as ambiguidades e os enigmas da origem promordial;

se só matéria, aguentando um corpo que se vai corroendo mesmo que seja bem tratado,

se uma virtualidade, um espírito, uma alma ou o que quer que seja que nos fode a cabeça com o pasmo do desencanto de nunca sabermos ser o que queremos ser., ou

se ambos numa convivência de equilíbrios desesperados.

 

Adosindo Ferraz sabia que ele era ele; por aquilo que era o arruinado corpo que o chateava como o caraças e pelo que tinha enfiado na cabeça durante todo aquele tempo que lhe custara a vida e que, agora, o atormentava com as interrogações da finitude.

Duas coisas numa só a viverem uma irmandade nem sempre pacífica porque, nem o corpo aguentava muitas vezes as manias do espírito, da alma, ou do que quer que fosse, nem estes aguentavam os amuos, as renúncias ou as calaceirices do corpo a não querer corresponde aos apelos do espírito.

 

Com o tempo a avançar para a finitude;  “pardacento” com Adosindo Ferraz gostava de dizer, o homem magicava no que havia de deixar dito sobre o que lhe fazerem ao corpo depois do momento de já nã poder mais. Espantava-o que, quando um tipo se finava, o pessoal andasse num corrupio de aflições para tratar do corpo, que houvesse, até, uma indústria lucrativa e muito bem montada para lhe dar tratamento e que o ediles das freguesias, câmaras ou cidades desbaratassem espaços enormes de terreno fértil para guardar os corpos.

Do espírito, da alma, ou do que quer que fosse, pouca coisa a afligir, preocupações ligeiras. Era uma virtualidade que não dava trabalho. Pirava-se, sem sabermos para onde e, umas missas, umas rezas, uma velas a encomendá-la à misericórdia do Senhor Deus para que não fosse esturrar no inferno e o caso ficava arrumado.

 

Aquilo que fora uno, separava-se, e  Adosindo Ferraz ficava sem saber quem seria o verdadeiro;

se o corpo que poucas horas depois de finado começava a feder como se todo o investimento feito no seu sustento e aformoseamento não valesse mais do que uma merda tão mal cheirosa,

se o espírito, alma ou o que quer que fosse, que se pirava, para parte incerta, de mansinho sem ninguém dar por isso, sem chatear o pessoal, sem dar trabalho algum como se quisesse ir para o seu mundo incógnito de que nada sabemos.

 

O corpo é que era uma carga de trabalhos porque estava ali, ocupando espaço, ameaçando maus cheiros, exigindo atenção, reclamando preocupação e, em muitos casos, o desejo de não o deixar partir assim, por isso; escanhoá-lo, vesti-lo, encaixotá-lo em veludos e cetins e depois passeá-lo pela cidade até chegar a um buraco fundo onde, lágrimas e flores afirmavam despedidas daquele que se pensava ser, realmente, o senhor fulano de tal.

Como a inteligência tem que se afirmar como inteligente, os senhores tipos que dirigem isto, resolveram, dado que o destino do corpo é um incómodo e a transcendência metafísicas sobre a matéria e o espírito é coisa que não entra nos orçamentos camarários; tão-somente a gestão do espaço, cada vez mais minguado para armazenar corpos floridos e mal cheirosos em lentas decomposição era o que os apoquentavam. Lúcidos, inventaram a cremação do corpo. Sempre era uma coisa mais cómoda, higiénica e que ocupava menos terreno fértil e as edilidades podiam aprovar novos condomínios privados.

 

Mas o problema subsistia, apoquentava-se Adosindo Ferraz, pausando a reforma. Ficavam as cinzas que o mesmo é dizer ficavam os restos do corpo do senhor fulano de tal como se aquele pó fossem as tripas, o coração, os pulmões, os ossos, o unto, as miudezas e os demais enfeites, completamente esturricados, guardados num pote que se recebia com choros mas que não sabia o que se lhe havia de fazer. O conteúdo era aquilo a que tinham conseguida reduzir o senhor fulano de tal porque o espírito, a alma ou o que quer que seja, adeus oh vindimas já se tinha posto ao fresco para parte incerta.

Para Adosindo Ferraz subsistia o problema; um pote com as cinzas do corpo pousado no aparador ao lado do televisor por cima de um napperon de linho e renda fina e o espírito, a alma ou que quer que tivesse sido ausente em parte incerta, podiam afirmar que, afinal, o senhor fulano de tal tinha sido só um, mesmo que, na hora da finitude cada um se balda-se para o seu lado como se nada tivessem a ver um com o outro?

4 Comments

  1. Grande conto! Gostei, e afinal não temos nós com as “cartas” que só sabemos o envólucro e que vai para as ranhuras de outros? Bah! A vida é assim mesmo. Que nos valha assim escritores como o Afonso e a vida enfim seja mais branda, mais gostosa, mais de “cartas abertas”por conta, quiça, de talento comprovado do querido amigo. Temos livro, com certeza!!!

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  2. Madalena Batista 1 November, 2016 at 20:49

    Um artigo que nos faz pensar sobre o mistério que somos; o equilíbrio entre o espírito o corpo e a justeza da vida.

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  3. Adosindo Ferraz sabia que o corpo não devia ser grande coisa porque Deus que dizem ter criado o homem à sua imagem e semelhança, nunca quis ter um corpo, ficando-se só pelo espírito, provavelmente já a pensar no mundo virtual que haveria de vir, ou então, (…).
    Um conto escrito com a mestria de um grande escritor, que nos dá a realidade de um mundo que implacavelmente entra em nós. Assim, acontece com os seus livros publicados.
    Qualquer dia passamos a ser todos virtuais e o contacto físico e visual “desaparecerá “. Isolamo-nos, o silêncio instala-se e vivemos no virtual.

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  4. E assim Teresa. Um mundo onde dificilmente vamos habitar porque será habitado por tudo aquilo que não faz sentido, sendo o sentido que lhe quisemos dar. Obrigado. Abraço.

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