A VIRTUALIDADE

 

somos nós e a tão pouca coisa que somos porque nos deixámos ficar em ser só isto, agora, declinando dias, meses, talvez anos, (quantos?) porque entrámos num atalho sem retorno onde vamos esbarrar com ela; a coisa medonha que dizem só vir para nos anunciar o definitivo caminho sem regresso, logo ali, ao virar daquele sobreiro, naquela curva mais apertada onde há uma moita de malmequeres amarelos que sempre foram a minha perdição e depois, a chorar pela tão pouca coisa que pude ser e o que fui ontem, soldadinho de chumbo a combater o desterro de um império, lá longe, onde não cheirava ao tojo e ao pão amassado pela feliciana, a minha avó, só sangue coalhado e almas obscuras que diziam coisas tão sofridas que espaventávamos, numa alegria de copos, bêbados até a madrugada e que estava para além do arame farpado para aparecer com a remissão de não sabermos o que éramos, nem o que fazíamos, somente a certeza comichosa de ter um par de tomates e depois, falidas que foram todas as esperanças com que quisemos adornar o acreditar, aqui estamos, humildes a olhar para um caco de espelho onde,

(que imagem tão foleira mas é o que se pode arranjar)

quero saber sobre a memória da nuvem que por lá ficou e nada; o caco a dizer-me que isso é passado e hoje já ninguém vive do passado porque nos meteram na mão uma caixinha de segredos que nos dá o presente no tempo do mesmo tempo e a virtualidade de um futuro de irrealidade; é o mundo virtual; estúpido que é que queres?  e eu pasmado no tempo, continuo à espera da justificação do passado com que me coicearam no outro tempo, aquele que vivi e de que quero saber coisas como a memória, a lembrança, o júbilo, o remorso, a bênção, a felicidade, o amor, essas coisas; não vês que somos só esta tão pouca coisa que somos porque agora queremos ser mais do que isso, virtuais virtualidades numa teima absurda de querer entender a realidade, pintando-a de tantas mentiras quantas as poderosas máquinas que nos produzem o virtual e assim querem que hoje, num folclore de crenças vadias que parlam em inglês porque o camões; lixou-se de braço dado com o pessoa, tanto que escreveram e não souberem inventar as palavras para os rufiões de agora se embevecerem com ilusões de que o futuro é mesmo assim a tomarem de assalto o meu futuro, que não sei se vou a tempo de não lho tirar das mãos e a dizerem-me que eu não sou eu e que o mundo que cheiro não existe, só existe aquele, o virtual, o que foi criado pelas suas imaginações fecundas, vindas de mundo de aventuras que é aquele mundo que me dão para ter o espanto de o olhar por um caco de espelho onde,

(que imagem tão foleira mas é o que se pode arranjar)

a memória é um travesti emplumado que vejo por um par de óculos esquisito, todo artilhado com jagunças sofisticações onde me sento num carro e vou a duzentos à hora voando por montanhas cheias de himalaias e vejo os vagalhões monstruosos do cabo horne como se o estivesse a navegar numa vela em balão e outras surpresas irreais, ali mesmo ao pé de mim que vivo com a taquicardia em alvoroço e, quando os tiro, os óculos de todas as virtualidades, e olho a realidade com a cor verde garrafa com que a elisa, a minha mãe, que teve tanto trabalho a fazer a cor dos meus olhos, cor verde garrafa, agora, coalhados por cataratas do tanto choro que sofreram pelo mundo que deixei para lá a atormentar-me o seu sem regresso e a minha estupidez de não o ter vivido como devia, vejo tamanha miséria, a insolvência de tantas vidas, o escárnio da ilusão de tantas esperanças, o sufrágio universal das demências do tipos de todos os poderes e a inclemência da brutandade de gajos que vieram não sei de onde a tomar conta disto e a malta das virtualidades, a dizer que sim, que a fome é uma imaginação escarrapachada num plasma em três dimensões como se o unicórnio em ouro destes novos ricos virtuais não quisesse, como os outros, também, os paraísos fiscais para sorver coquetéis cor de rosa, adornados com sombrinhas e palhinhas verde alface, num deleite de édens excêntricos onde vão pendurando prosaicas riquezas. desculpem, é o que vejo a olhar pelo caco do espelho que me deixaram, onde,

(que imagem tão foleira mas é o que se pode arranjar)

somos mistérios de indiferença, rebanhos guiados por uma janela global de que nos apropriámos como se fosse a nossa vingança perante o mundo de solidão que nos destinaram, e nós, só importâncias, a despejarmos socalcos da nossa placidez com confettis de festas, na ânsia de um quantidades de “gostos” ou na sinfonia de comentários de circunstância para nos darem o afecto enganoso de estarmos vivos e sermos alguém importante. alguém que nos quer vender inocências e ganhar impérios, ilude-nos, inventando o jardim virtual das amizades que ficam para além de um ecrán. quem sabe disto são os unicórnios da manipulação; sabem que a solidão dorida com que amassamos o dia-a-dia é o alvo a atacar – a solidão, a indiferença, a angustia, o abandono, o raio que nos parta… o que quer que seja, dá bom dinheiro, porque a sociedade já criou o nosso desencanto  – e bajulam-nos com ilusões cibernéticas de comunicação como se fossemos “alguém” na nuvem global da insignificância, escondendo que somos anónimos vultos aritméticos com alma de algoritmos que inventaram para os seus lucros,

(paciência;é o que vejo pelo caco do espelho)

pergunto; por onde a minha memória?

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>