ELISA

 

 

 

 

digo-vos que Elisa foi a minha mãe, olhos azuis como se fossem o céu da planície alentejana, cabelo espesso e loiro, uma espiga que imagino, Elisa a minha mãe morreu já há muitos anos poucos meses depois de eu ter desembarcado dessa coisa ruim que foi uma guerra por onde me obrigaram a andar e ela no dia do desembarque na rocha conde d´óbidos de lenço cor de rosa como tínhamos combinado num aerograma azul e eu, no barco, a chegar-me ao cais e a ver-lhe a doença na palidez que a havia de matar. escassos anos vivemos juntos – pouco mais de vinte anos – eu e a Elisa a minha mãe nos tantos anos que levo disto ainda hoje sinto que escrever sobre a mãe e o amor são coisas delicadas, para as quais é preciso conhecer a palavra do impossível e as lágrimas de olhos azuis como se fossem o céu da planície alentejana e eu a fechar-lhos no absurdo daquele quarto de hospital com a guerra a lixar-me a cabeça e a não saber como se define a saudade; se é a essência do vazio ou o vazio ele próprio quando já não tem mesmo nada lá dentro e eu sem saber porque é que os carros eléctricos eram amarelos e porque havia gente estupidamente feliz que injuriavam a minha amargura.

julgo, ter sido tudo isto hoje ou já há muito tempo porque habituei a minha vida a ser habitada pela ausência que é coisa que não se explica e fica cá, para sempre, a sentir-se não se sabe onde, (lembraram-se de inventar a perda) e que passa a ser um inconformismo permanente como se o tempo tivesse sido parido pela cobra rastejante da submissão a que vida nos passou a obrigar, e eu, a regressar aquele calor, habitando os gestos do verão nos banhos ao sábado no alguidar de barro para irmos passear no jardim pela fresca com o cheiro da alfazema do sabão e o risco bem desenhado no lado esquerdo do cabelo, alargando o sorriso vermelho de Elisa que sempre me espantou com às coisa inexplicáveis que me ensinava como a confiança porque; não se é filho sem que o amor da mãe o tenha parido para lhe dar a confiança com que se irá iludir na vida.

e foi assim que percebi a importância da poesia numa manhã em que o céu se transformou num mar a desaguar para a terra dilúvios de ondas medonhas que traziam as algas mais estranhas das profundezas do medo e peixes incomensuráveis, nunca vistos pelas gentes que ficaram assustadas e em estado de alerta no séculos que haviam de vir e eu sem saber que aquilo que sentia era medo a não querer ir para a escola e o meu pai tirando o cinto a obrigar-me a ser comido por um daqueles espantosos peixes e Elisa, a minha mãe a colocar a formosura da sua mão na minha cabeça que me soube ao sonho do conforto e vi naqueles olhos azuis como se fossem o céu da planície alentejana e que me tinham dado a vida uma lágrima tão inexplicável como o dilúvio com que os deuses tinham mandado encharcar a terra. Aprendi, nesse altura a importância das palavras e do enorme silêncio que se faz com a sua ausência. Também vos quero dizer; aprendi por essa altura a chorar, o que passou a ser um hábito; a chorar a mansidão da tristeza que iria ser transportada por todos os defuntos que haveria de conhecer. a chorar para dentro porque nunca aprendi a coragem dos homens grandes que choram em voz grossa. a chorar o eterno agradecimento de ter conhecido Elisa e de ela me ter feito nascer.

2 Comments

  1. Madalena Batista 18 November, 2016 at 20:24

    Excelente texto sobre sentimentos numa bonita linguagem poética.

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  2. maria fernanda da cunha morais aires gonçalves 19 November, 2016 at 18:11

    como escreve tão doce texto para a doce mãe, gostei muito da novidade sobre Afonso quando nos dá a conhecer uma forma de expressar o amor “Fur Elise” em tons tão melódicos …

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