REALEZAS

 

 

De uma das portas de um prédio sai um cão a rebocar o dono numa urgência da mijadela. Acho curioso este equilíbrio de repelões entre um cão a resfolgar impaciência na ponta de uma trela esticada e um homem a resfolgar domínio na outra ponta da trela esticada sem saber quem estica quem; quem segura quem; quem irá passear quem. Equilíbrio feitos de canídias rotinas numa aflição de mijadelas e cagadelas, a lambuzarem os passeios de toda a gente. Solidões preenchidas mesmo para o descuido de quem pisa a merda de cão – sempre têm um motivo para rebentar o marasmo e explodir impropérios contra a civilização porque um cão e a sua merda pode ser um elemento de sociabilidade nestes tempo de penúria de afectos e de solidões amargas.

vamos ver;

um cão não é um objecto, uma coisa, um pechisbeque, mais um artefacto na mobília que nos chocalha os dias; um cão é um animal com as suas arbitrárias necessidades, manias, instintos e até gostos. passeá-los é um quotidiano de obrigação que os habitantes da praceta fazem com um mal disfarçado fastio. vendo o lado positivo; poder ser um motivo para quebrar desconhecimentos, sempre se pode falar de pelos, de raças, de idades, de doenças, de tipos de rações… de não tenha medo que ela não faz mal, está muito bem educada, eu sei, arrisco, mas o meu é muito nervoso, ansiedades de ser macho, percebe, com vontade de dizer; o que ele quer é saltar para cima da sua cadela, e a outra, é por ser muito novo, pelo menos parece, e eu, nem por isso já tem para cima de dez anos, dez anos? não diria com este pelo tão sedoso, pois é, é da ração, dos banhos das escovadelas, bons tratos, uma fortuna, pois é, o que se há-de fazer, afeiçoamo-nos a eles e depois é o que é, pois é, são uma companhia, uma companhia que temos que trazer para mijar e cagar duas vezes ao dia e eu de saco de plástico na mão com a merda a desfazer-se e ela sem se calar, pois é, e depois estes queridos bichinhos não têm culpa das coisas como estão e eu, pois é, já viu que com o diabo da crise foram tantos abandonados, sim senhora têm muita razão, há pois tenho, viu no outro dia num programa da televisão o abandono que para ai vai, pois é, é uma pouca vergonha são abandonados aos milhares, há gente que não têm coração até são capazes de abandonar os próprios filhos quanto mais os cães, pois é, por este andar não sei onde vamos parar, eu digo para quem me quiser ouvir; os cães são uma companhia, a única companhia, a verdadeira a que temos nesta porcaria de mundo em que vivemos e eu, pois é, só invejas, só maldade, só crimes, pois é, os homens haviam de ser como eles, fieis, amigos do seu dono, e eu está quieto asdrubal deixa a cadela da senhora, como se chama ela? Sofia, e eu; bonito nome como se fosse uma pessoa, uma mulher, uma rainha, rainha Sofia, muito bem, pois é, veja o senhor que a Sofia é melhor que muitas que por ai andam, algumas são mesmo cadelas vadias, sem respeito por ninguém, e eu, pois é, é a vida,o senhor tem razão quando diz que é a vida, já viu como está tudo, agora? a culpa é sempre dos mesmos, dos que estão no poleiro, não querem saber de nós para nada, pois é, e eu está quieto Asdrubal deixa a Sofia, está quieta Sofia deixa o cão do senhor, e eu não faz mal, pois é, não sabem mandar, antigamente… então adeusinho, até amanhã, amanhã o senhor vêm há mesma hora? e eu a olhar para o plátano, anda Asdrubal deixa de cheirar a Sofia, não querias mais nada, saltar para cima de uma rainha… pois é.

One Comment

  1. maria fernanda morais aires gonçalves 25 November, 2016 at 19:47

    O que escreve, Afonso, é sempre muito bom! Parabéns mais uma vez por tão bela e real crónica. Bem humorada, faceta que lhe é peculiar, só o sabe quem já teve o prazer de ler e reler os seus livros. Como tive um boxer onze anos, vivi a cena em pleno. Ainda tenho saudades de uma lambidela na mão, um olhar ternurento quando ele na intuição apurada sabia que eu não estava bem! Agora tenho o cão da minha irmã, a Becas, boxer também e estouvada, todos os diasvem trazer um presente ao meu jardim, “dos bem encarados”. Gostei muito e fez-me rir, o que faz bem à saúde. Até logo!

    Reply

Leave a Reply to maria fernanda morais aires gonçalves Cancel reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>