HUMILHAÇÃO

 

 

Na guerra, naquela guerra onde estivemos e que por vergonha, fastio, snobismo, cinismo, ignorância, desleixo, comprometimento, indiferença, hoje ninguém fala, houve sempre quem amasse os verdes prados da esperança. Quem cavalgasse a perplexidade de poder morrer em nome de um poder que tudo podia, quem mastigasse com as esporas da revolta. o sonho de uma liberdade contida na aspiração de ser livre no local onde a roda do acaso o fez nascer. Quem, na convicção de que o homem nasceu para ser respeitado pelos outros homens, tivesse ido parar às sevícias da tirania ou ao exílio do desespero porque ousou acobardar-se perante o dono.

Na guerra, naquela guerra onde estivemos, obrigado que fomos, vivendo com o medo no centro das nossas almas, houve sempre quem, nas longas noites de lá estar, naqueles inflexíveis solstícios onde o absurdo nos matava mais do que a guerra, cantasse a frágil esperança de uma aspirada liberdade.

Na guerra, naquela guerra onde estivemos, um companheiro que haveria de morrer, disse-me num dia de desespero enxovalhado:

– Aqui, neste tempo sem recuos onde a lucidez clareará a nossa memória, amarfanhados a um canto do nosso desespero intimo; insignificantes que somos, coamos as lágrimas que vamos secando com as mãos sujas pelo abandono e conhecemos a triste humilhação de ter sido homens nesta pátria de desengano.

Compreender a guerra, aquela guerra onde estivemos, agora, neste país que já nem sequer é do pós-guerra da guerra, é sentir na ponta dos dedos exilados, os tipos que por lá ficaram e os que de lá vieram, muitos trocando o passo com a nova realidade que lhe ofereciam, como se o ter lá estado fosse culpa nossa, como se o sacrossanto dever que o imperioso poder que em nós mandava e nos impunha obediência não tivesse existido, como se tudo se resolvesse com bentas e misericordiosas orações que nos recomendavam o esquecimento compulsivo à laia de um ” deixa lá isso que já passou”.

(Passou um merda!)

E, assim se pode viver feliz, alimentando a consciência, não ligando a ponta de um corno “àquilo”. E os que ainda ligam, não passam de um bando de gajos esquisitos, meio marados, contando coisas que já ninguém entende.

Afinal não houve qualquer guerra, nem mortos, nem feridos, nem estropiados, nem malucos envelhecidos que, ainda, por ai se arrastam.

São todos uma cambada de mentirosos.

Foi tudo uma grande invenção.

 

(texto retirado do meu livro “O Muro” editado em Outubro de 2013 pela Editora Glaciar )

 

One Comment

  1. Amilcar Oliveira 3 July, 2017 at 16:35

    De facto, para muitos somos uns “mentirosos”, mas a culpa não é nossa, é dos que “lá” estiveram, na guerra do ar condicionado e que são que mais “cagam a posta”. Resta-me a consolação de o meu, o nosso, sacrifício não foi em vão, é que o resultado final da guerra colonial foi a conquista da Liberdade para todos os Povos envolvidos.

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