OS LOBOS

Os lobos não me deixaram.

Amanhece uma penumbra e o espanto de estar ali, com aquelas aranhas a arranharem-me a cabeça por dentro, desfalece a esterqueira dos pesadelos que me acordaram.

Os lobos não me deixaram.

As suas patas de algodão circundaram, numa alcateia de paciência, este desfazer lento que me invadiu o cérebro depois de toda a noite ter procurado no globo terrestre que me ofereceste, o sítio para onde fugir.

Os lobos não me deixaram.

Andaram por ali, mansos, vigilantes, obstinados, pacientes, inflexíveis.

Os lobos não me deixaram.

Circundaram-me a cabeça em lentas voltas sabendo que as aranhas disformes e peçonhentas estavam a cuspir a baba cinzenta para tecer a rede onde a lucidez se irá entrelaçar, num enleio labiríntico, com as frestas da memória.

Os lobos não me deixaram.

Sei, porque o destino é assim, que quando as aranhas disformes e peçonhentas tiverem acabado de tecer a minha loucura, os lobos entrarão pelas órbitas dos olhos já comidos e uivarão dentro da minha cabeça este arrepio que é ter deixado de saber o que é o silêncio.

Os lobos não me deixaram naquela noite em que deixei de saber o que é o silêncio.

Arrasto-me de olhos abertos sem ver de onde apareci como coisa humana para agora ser, um uivo que só eu oiço, no silêncio da minha cabeça.

Os lobos não me deixaram.

Estão aqui dentro, numa permanência de uivos, obstinados para que eu não saiba o que é o silêncio..

CONVERSA SOBRE OUTRO TEMPO QUE AFINAL É HOJE

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Aprígio a quem chamavam o “historiador”, tal era a quantidade de passado com que engalanava as suas dissertações, ia à conversa com Epifânio que, não querendo ser menos que o outro, intitulava-se  o “filósofo” e arrevesava o palavreado sempre que tinha que dizer.

E disse:

– O fracasso é aquilo que está para lá do que nos é possível…

Resposta do outro:

– Os que da riqueza que fizeram a usança dessa riqueza, dirão; é a vida meu amigo, é a vida…

(silêncio)

Aprígio a retomar paleio:

– É verdade! Desde sempre os da riqueza revelaram canduras de ilusionistas do engano. Foram eles que nos sonegaram, rapinaram e dizimaram a esperança. Sempre nos ensinaram a aceitá-los como se fossem deuses que nos cavalgam os lombos mesmo que não soubessem montar. Só porque eram os ricos devíamos ser respeitosos a essa condição. Zurziam as orelhas com isso como se fosse uma verdade absoluta. Já vínhamos avisados das barrigas das nossas mães.

O outro:

– E foi assim que andar a cavalo foi fácil mister para os ricos, habituados desde pequeninos, a cavalgar a pobreza…

O “historiador”  numa dissertação:

– Fazer coitos desbragados sem ponta de amor estrelar é o que os tipos souberem fazer com as ceroulas encaroçadas de tesões sôfregos e elas com as virilhas encharcadas de expectativas. Porque de amores, estamos conversados; aquilo eram bichos que não sabiam nem o sabor nem as regras de tal transcendência. Sabiam iludir a vida em arrotos de fartura numa ambulante necessidade de ter mais e mais. Mesmo nos coitos. Desconheciam os sabores do alecrim e da manjerona de que o amor é feito e pensavam que o azeite nascia nas garrafas e que a touriga que lhe apaladava o vinho e lhes embebeda os sentidos era uma semente que o vento arrasta. Tudo desconhecimento sobre o que a terra lhes dava. Mas não se importavam de ser ignorantes porque era o sinal distintivo da sua riqueza…

Epifânio a interromper:

– Iludir, num arroto de vinho fino, tudo o que nunca conheceram, os que tudo têm, é já habitual. Os tipos são mestres a Intrigar-nos os dias, a dissolver as nossas verdades, a pontapearem-nos as nalgas como se fossemos almocreves sem préstimo porque não somos flores do seu ramalhete. Nada sabem, nem mesmo o que a nossa paciência lhes ensinou. Nada querem saber sobre os famintos que se finam, excluídos por não terem com que viver para eles terem a riqueza que têm. Desconhecem o remorso e os mortos que matam por lhe dizimar a esperança. Só o poder lhes interessa. O anseio de o possuírem tolda-lhes a razão. Só lhes resta a sobranceria do mando.

O outro para final de conversa:

– Agora, contados tantos contos sobre este tanto tempo que por aqui se viveu, vivemos a estupefacção da banalidade de serem acusadas das trafulhices mais impiedosas. Foram quase todos promovidos à categoria de arguidos em processos de corruptos, falsários, aldrabões, vigaristas e outras bondades em que a lei os vai embrulhando. Mas continuam a andar por ai, os ricos. Soltinhos da vida, difamando quem os acusa e pagando aos tabeliões da corte chorudas avanças para arengarem mais e mais escusas, dilatando com isso, o confronto com o que resta de dignidade a lei. Palpita-me que todos irão morrer sem provar o castigo…

Aprígio de braço dado com Epifànio lá continuaram a subir com requintes de lentidão o Chiado para um cafésinho na Brasileira e darem continuidade a este e outros assuntos. Talvez discutirem sobre o porquê do regresso do Padre Juvêncio que pensavam desaparecido para sempre.

Um novo mistério?