CONVERSA SOBRE OUTRO TEMPO QUE AFINAL É HOJE

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Aprígio a quem chamavam o “historiador”, tal era a quantidade de passado com que engalanava as suas dissertações, ia à conversa com Epifânio que, não querendo ser menos que o outro, intitulava-se  o “filósofo” e arrevesava o palavreado sempre que tinha que dizer.

E disse:

– O fracasso é aquilo que está para lá do que nos é possível…

Resposta do outro:

– Os que da riqueza que fizeram a usança dessa riqueza, dirão; é a vida meu amigo, é a vida…

(silêncio)

Aprígio a retomar paleio:

– É verdade! Desde sempre os da riqueza revelaram canduras de ilusionistas do engano. Foram eles que nos sonegaram, rapinaram e dizimaram a esperança. Sempre nos ensinaram a aceitá-los como se fossem deuses que nos cavalgam os lombos mesmo que não soubessem montar. Só porque eram os ricos devíamos ser respeitosos a essa condição. Zurziam as orelhas com isso como se fosse uma verdade absoluta. Já vínhamos avisados das barrigas das nossas mães.

O outro:

– E foi assim que andar a cavalo foi fácil mister para os ricos, habituados desde pequeninos, a cavalgar a pobreza…

O “historiador”  numa dissertação:

– Fazer coitos desbragados sem ponta de amor estrelar é o que os tipos souberem fazer com as ceroulas encaroçadas de tesões sôfregos e elas com as virilhas encharcadas de expectativas. Porque de amores, estamos conversados; aquilo eram bichos que não sabiam nem o sabor nem as regras de tal transcendência. Sabiam iludir a vida em arrotos de fartura numa ambulante necessidade de ter mais e mais. Mesmo nos coitos. Desconheciam os sabores do alecrim e da manjerona de que o amor é feito e pensavam que o azeite nascia nas garrafas e que a touriga que lhe apaladava o vinho e lhes embebeda os sentidos era uma semente que o vento arrasta. Tudo desconhecimento sobre o que a terra lhes dava. Mas não se importavam de ser ignorantes porque era o sinal distintivo da sua riqueza…

Epifânio a interromper:

– Iludir, num arroto de vinho fino, tudo o que nunca conheceram, os que tudo têm, é já habitual. Os tipos são mestres a Intrigar-nos os dias, a dissolver as nossas verdades, a pontapearem-nos as nalgas como se fossemos almocreves sem préstimo porque não somos flores do seu ramalhete. Nada sabem, nem mesmo o que a nossa paciência lhes ensinou. Nada querem saber sobre os famintos que se finam, excluídos por não terem com que viver para eles terem a riqueza que têm. Desconhecem o remorso e os mortos que matam por lhe dizimar a esperança. Só o poder lhes interessa. O anseio de o possuírem tolda-lhes a razão. Só lhes resta a sobranceria do mando.

O outro para final de conversa:

– Agora, contados tantos contos sobre este tanto tempo que por aqui se viveu, vivemos a estupefacção da banalidade de serem acusadas das trafulhices mais impiedosas. Foram quase todos promovidos à categoria de arguidos em processos de corruptos, falsários, aldrabões, vigaristas e outras bondades em que a lei os vai embrulhando. Mas continuam a andar por ai, os ricos. Soltinhos da vida, difamando quem os acusa e pagando aos tabeliões da corte chorudas avanças para arengarem mais e mais escusas, dilatando com isso, o confronto com o que resta de dignidade a lei. Palpita-me que todos irão morrer sem provar o castigo…

Aprígio de braço dado com Epifànio lá continuaram a subir com requintes de lentidão o Chiado para um cafésinho na Brasileira e darem continuidade a este e outros assuntos. Talvez discutirem sobre o porquê do regresso do Padre Juvêncio que pensavam desaparecido para sempre.

Um novo mistério?

 

 

 

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