OS LOBOS

Os lobos não me deixaram.

Amanhece uma penumbra e o espanto de estar ali, com aquelas aranhas a arranharem-me a cabeça por dentro, desfalece a esterqueira dos pesadelos que me acordaram.

Os lobos não me deixaram.

As suas patas de algodão circundaram, numa alcateia de paciência, este desfazer lento que me invadiu o cérebro depois de toda a noite ter procurado no globo terrestre que me ofereceste, o sítio para onde fugir.

Os lobos não me deixaram.

Andaram por ali, mansos, vigilantes, obstinados, pacientes, inflexíveis.

Os lobos não me deixaram.

Circundaram-me a cabeça em lentas voltas sabendo que as aranhas disformes e peçonhentas estavam a cuspir a baba cinzenta para tecer a rede onde a lucidez se irá entrelaçar, num enleio labiríntico, com as frestas da memória.

Os lobos não me deixaram.

Sei, porque o destino é assim, que quando as aranhas disformes e peçonhentas tiverem acabado de tecer a minha loucura, os lobos entrarão pelas órbitas dos olhos já comidos e uivarão dentro da minha cabeça este arrepio que é ter deixado de saber o que é o silêncio.

Os lobos não me deixaram naquela noite em que deixei de saber o que é o silêncio.

Arrasto-me de olhos abertos sem ver de onde apareci como coisa humana para agora ser, um uivo que só eu oiço, no silêncio da minha cabeça.

Os lobos não me deixaram.

Estão aqui dentro, numa permanência de uivos, obstinados para que eu não saiba o que é o silêncio..

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