O convite

Oiço “Moody Blues”, dirão, antiguidades, pois sim,

mas estão gravados na memória daquele tempo de distúrbios mentais inconsequentes que vinham do “estar ali” naquela paralisia de tempo que se apossava das narinas como se tivesse sido sempre assim e como,

tivesse que ser sempre assim.

(alguém consegue explicar racionalmente o sentido da ausência do passar do tempo que o isolamento arrasta?)

e o que têm a ver os “Moody Blues” e a “question of balence” com isso?

pouca coisa, mesmo nada, se não se souber o que por lá se passou. Mais do que o medonho cheiro de uma palhota a arder com vida lá dentro

gritos insanos que ainda escorregam pelo suor que se vai retorcendo e sempre escorrem pingos do passado, peganhentos, mesmo agora, como se fossem uma expiação de avé-Marias que não nos largam o terror de um pesadelo estrugido pelos anos, a saber a cebola frita requentada porque nunca se rezaram as avé-Marias.

nem qualquer merda que deixe de abrasar a memória que se retorce, ainda,

a ouvir “Moody Blues”, que naquela altura seguravam o desespero e que, agora, a emancipação geracional desconhece completamente, por ser foleiro, por ser do tempo de uns gajos  cheios de esquemas esquisitos na carola que não fizeram puto e agora só mágoas, só choramingas, só a mijarem-se pelas pernas abaixo, só uns calhordas sem importância, só um refugo que não faz falta,

pessoal que nos deixou isto tudo fodido e eu que quero um par de sapatos “nice”, de marca, e nada de graveto e os gajos sempre a olhar para ontem, pestana murcha, macambúzios a assoarem-se roufenhos à ponta dos dedos, a gaguejar; no meu tempo era assim, devias ter lá estado para saber como elas te mordiam para aprenderes a ser homem, e nada, nada mais do que a pobreza de não serem de nenhum tempo,

(e a guerra, sempre com a merda dessa conversa, que se fodam.)

absorta que anda a emancipação geracional na virtude de acreditar que não houve vida antes deles, sei que não os vou convidar para ouvir os “Moody Blues”.

 

4 Comments

  1. Fernanda Luís 20 July, 2017 at 18:50

    “… escorrem pingos do passado…”. Existem memórias de experiências que nos acompanharão até à morte! Um conto que nos faz doer a alma, arrepiante, escrito com muito talento. Pena ser tão real…

    Reply

  2. Jorge C Ferreira 21 July, 2017 at 06:42

    Ouve e manda os tipos irem dar uma volta ao bilhar grande. Sempre a merda do graveto! Abraço

    Reply

  3. Natalia rodrigues (Melga) 21 July, 2017 at 08:05

    Adorei! Obrigado ao Jorge ;-) foi pelo seu comentário que cheguei a esta página :-)

    Reply

  4. maria fernanda da cunha morais aires gonçalves 21 July, 2017 at 08:56

    há uma diferença sim, é que eles continuam a tocar para nós enquanto olhamos o fumo que sai dos nossos corpos que sai dos fornos crematórios quando a malvada nos vem buscar…

    Reply

Leave a Reply to Natalia rodrigues (Melga) Cancel reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>