OIÇO-ME VAZIO.

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Oiço-me vazio.

Falta-me a vontade de saber o que vai vir. Interessa?

Do apocalipse com que me querem subterrar os dias insolventes fica, ainda mais, a angustia.

Por onde anda a nuvem esquecida dos meus anos de capa espada?

Agora isto. Só isto. Só cães assanhados a deglutirem o espernear inconsequente do que fui.

Oiço-me vazio.

Sinto a ausência amarga do que sempre quis ser. Outra coisa que não esta.

E assim adormeço quando a noite começa a ser noite no outro lado da terra. Fica a vigília mesmo que adormecida.

É o que resta! A vigília.

Agora penso na aventura que adormece comigo na prega do lençol. Aventurar-me, para onde? Só para o que  me falta da vida. Para o vazio. Sei que é por ai que tenho que ir. Por isso vasculho a memória na busca uma aventura que me iluda ainda ser outro. Todavia, pesadelos subsistem quando entro na aventura que adormece na prega do lençol.

Porquê?

Sei que me oiço vazio sempre com este zumbido que me enlouquece. Será o murmúrio final da alma que se desvanece a invadir-me a cabeça?

Amanhece e oiço o zumbido vazio. Mas sinto que continua aqui plantado. É o meu carrasco.

O que será o resto de mais um dia?

Penso escrever.

Escrevo: “Despejo o que me atormente deste labirinto que não me abandona a cabeça no prato da sopa da caridade. Aquece-me as goelas, a sopa. Vejo-me a boiar no caldo deslavado onde falta o tempero do que vivi até aqui chegar.”

É esta a aventura que adormece todas as noites comigo na prega do lençol.

Oiço-me vazio.

O zumbido amanhece às portas da cidade.

 

 

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