Uma pirueta

Uma pirueta no céu da boca é o que milhares de palavras fazem, resguardando-se no silêncio. Incómodas, agrestes, deslocadas, sem levarem o agrado que o outro quer ouvir, por ali se ficam, num suplício de revolta abortada.

A sinceridade é uma patranha porque o outro que anda numa azáfama em saber qual o seu paradeiro nada quer ouvir do que lhe dizemos. E, tantas vezes, lhe falámos deste precário limite que nos separa da morte.

Ou tentamos falar.

Mas, susceptível às conveniências, a palavra emudece. Ou pior, não falamos, porque a palavra sentida com o desapego do outro, lá faz uma pirueta no céu da boca e fica a esboroar-se num silêncio de falta de ar.

Resta a ansiedade, a angustia ou sabor que a pedra ancestral da solidão é o íntimo que sabe que afinal não somos nada.

Uma pedra ancestral que nos inventou o medo vagueia, assim, sem destino, no cosmos cuja imensidão nos dá o tamanho da nossa insignificância.

Há por lá, falésias desconhecidas onde suicidamos esta vaidade de sermos tão poucochinho.

Dizem-me, através do código imperceptível do tempo que me engano.

Ninguém se suicida porque a mediocridade com que invadiram a ambição de sermos só isto, mantém-nos vivos, independentemente do apetite, e todos nos aninhamos nesta insolvência de alma que é o que nos exigem e que nos dão.

Uma pirueta no céu da boca é o que milhares de palavras fazem, resguardando-se no silêncio. A palavra passou a ter medo de já nada valer. Marimbou-se para o incómodo de existir e foi substituída por gargarejos que dizem coisa nenhuma.

(Deixámos de saber gritar, uivar, grunhir, zurrar, ladrar, o que quer que seja, mas que não nos cale. Os facínoras a quem nos entregámos, roubará-nos o céu da boca. Por isso ficámos seu o eco das palavras. Dai o silêncio.)

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