(A SOLIDÃO TEM DESTAS COISAS)

Ainda enrodilhadas no pesadelo com os Fidalgos da Casa Mourisca e com os ouvidos cheios da nona do Beethoven, as cataratas do senhor Amadeu não atinaram, mais uma vez, com o buraco da sanita e o mijo matinal saiu desordenado, em círculos, ziguezagueando destinos que não eram deste mundo, fazendo agora um “looping” que se encaracolou antes de se despenhar no tampo verde desmaiado da sanita que o nevoeiro das cataratas do senhor Amadeu se esqueceu de levantar.

Com os chinelos encharcados por aquele mixórdia morna, o senhor Amadeu voltou para a cama e esperou, paciente, que o berro de dona Etelvina entrasse numa fúria de quase arrancar a porta do quarto e lhe fazer derramar das cataratas um oceano de fúria.

(a solidão tem destas coisas)

e:

– Seu velho potranqueiro mais uma vez a casa de banho toda mijada. Um dia corto-te as peles da chouriça e meto-te no buraco um tubo directo para a sanita e vais ver que nunca mais mijas fora do penico.

e:

(o senhor Amadeu a virar-se para o parceiro do lado que ainda ressonava os soporíferos da véspera.)

– Esta cabra não sabe nada do que fui e do que ainda sou. Não sabe que antes de me sentar ao estirador a esboçar as mais belas obras de arte da arquitectura contemporânea, esquissava as ideias, mijando contra as paredes dos prédios.

e:

(dona Etelvina de esfregona num vai e vem)

– Vim de S. Vicente, atravessando tanto mar para me afogar em mijo de velhos!

(a solidão tem destas coisas)

e:

o senhor Amadeu de papo para o ar, a imaginar no tecto do quarto o minarete – que acabara de esquissar na tampa da sanita – com que remataria os jardins do palácio das mil e uma noite que um árabe lhe tinha encomendado.

– Todos os dias a mesma lengalenga. Esta tipa não sabe quais são as sua obrigações? Não sabe que um artista vive concentrado no seu trabalho? Depois dizem que não cumpro os prazos. Qualquer dia tenho o árabe à perna a reclamar que não acabei o projecto do palácio. Esquissar obras de arte com mijo contra as paredes não é para todos. É preciso ter mão firme para o traço não sair enxovalhado por tremuras.

e:

dona Etelvina que tinha atravessado tanto mar desde S. Vicente na ilusão que haveria um mundo menos custoso para lá desse tanto mar, ali, na revolta do vai e vem da esfregona, a desfazer-se num pranto de saudade, a maldizer o destino que a levou a substituir a penúria do lá tão longe pelo cheiro adocicado do mijo encardido de velhos que exalavam a imobilidade de uma vida já ida:

– Bardamerda seu velho porcalhão, maluco mijão. desatinado do juízo…

(a solidão tem destas coisas)

e:

o senhor Amadeu, para além de mijar no sofrimento diário de dona Etelvina que já não era mais nada que um esquisso pronto a ser empurrado desta vida, ainda a teimar:

– Amanhã quando me levantar tenho que apurar o esquisso do minarete para o jardim do palácio das mil e uma noites do árabe. Estou com umas ideias que passam por colocar uns arrebiques na cúpula…

e:

o parceiro do lado, interrompendo o ressonar dos soporíferos da véspera a dizer-lhe, assanhado:

– Oh homem de merda, se você quer fazer esses arrebiques tem que conseguir mijar até ao céu. Não seja maluco seu velho potranqueiro. Esteja quieto e faça como eu; durma sossegado à espera que ela chegue depressa…

(a solidão tem destas coisas)

 

 

 

4 Comments

  1. Maria fernanda morais 18 August, 2017 at 19:55

    Que mimo…Parabéns por tao precioso quadro.Abraço

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  2. Jorge C Ferreira 19 August, 2017 at 08:05

    “A solidão tem destas coisas.” Cansado e sofrido. Minaretes encantadas e esfregonas doridas. Gosto muito. Abraço

    Reply

  3. Fernanda Luís 19 August, 2017 at 11:05

    Gostei imenso. A sua imaginação, criatividade e forma de escrever são muito cativantes.
    Ao ler, vi o “filme” todo. Senti um misto de ternura, compaixão e gozo, até me ri mais de uma vez. Tem um humor muito subtil.
    Parabéns. Bem haja.

    Reply

  4. Ler este texto de Afonso Valente Batista, é entrar, com humor, numa realidade onde a solidão está presente no meio de outras tantas solidões.
    Tenho três livros deste extraordinário escritor, o sarcasmo e realidade estão sempre, admiravelmente, presentes.
    Parabéns por tudo o que escreve.

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