EU QUERIA QUE TUDO FOSSE FUTURO

Eu queria que tudo fosse futuro.

Foi ao princípio.

Mas a alma haveria de me dizer mais tarde que não. Que nunca me iria habituar aos murmúrios vindos sem saber de onde. Talvez das cidades desordenadas pelas medonhas gentes onde me obrigaram a crescer.

A voz do estetoscópio disse-me que os murmúrios eram, afinal, as vozes que fui ouvindo pelos rios das cidades desordenadas por onde acumulei a vida. E isso foi por não saber como dizer não à prepotência do azul com que pintam o céu nem ao sufoco das lamurias de pedintes a esgravatar a fome na caridade com que mascaramos a nossa vaidade.

Os murmúrios vêm das entranhas do passado e acoitam-se na parte de trás da cabeça, assapados, emboscando a ilusão de ter querido que tudo fosse futuro.

Agora sei que os murmúrios me irão enlouquecer aos poucos, porque nada foi sempre futuro.

São inconsequentes, os murmúrios, e afligi-me ver o decrépito estado de alma da minha alma, quando ouve a gritaria das ansiedades que me dizem que, talvez já tenha morrido.

Ouvindo-os, os murmúrios, como se fosse o vento zumbindo zumbidos no sopé da montanha que fui construindo com a inconsciência de querer que tudo fosse futuro, pensei que seria a alma a desfazer-se, finalmente, e acreditei;

porque foi o que me disse o escaravelho gigante de garras afiadas (que trouxe de lá, daquele provérbio de heroicidades escusadas) como o sagrado espólio de uma memória intimidada a não esquecer,

nunca.

O tipo disse-me que os murmúrios são a parte dolorosa do que nunca fui e a acusação ao que sempre fui.

Porque,

dispersando-me por ai,

na tirania que geriu o usufruto que fui vivendo, adiei coisas, tantas coisas, vá lá saber quantas e porquê; o amor, que foi aquilo que não soube como o dizer por não saber despir a inocência e dizer futuro; e assim construí uma reserva de velharias guardadas, recordações rançosas que me culpam, agora, numa valsa ensandecida;

ora por ter feito, ora por não ter feito,

(só a minha mãe me quis ensinar o que isso era, mas morreu tão nova, que não deu para eu aprender)

por isso, coisas ditas e não ditas, silêncios que se empederneceram, manhãs tímidas sem saber como confessar o sol, palavras mudas porque que não sabia dizer felicidade quando o amanhã estava ali.

Murmuro a solidão que me deixam; que não sei o que é, nem sei se vem do resto do que sou. Se o que murmuro fosse música ouviria pink floyd porque sabem a universo, a seguir mozart; que será sempre mozart e por ser quem é, ou mahler, ou albinoni, ou bach? que importa.

Os murmúrios de quem já ouviu isto e aquilo por aqui se ficam neste desfazer-me sem sentido,

e eu que queria que tudo fosse como se fosse futuro.

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