A BENGALA

Dona Argentina enviuvou.

Foi tudo muito rápido. A morte chegou sem pedir licença e levou-lhe o marido de mais de cinquenta anos de casados.

“Haveria de vir numa altura qualquer” – disseram.

“Nestas idades é só o que se pode esperar” – acrescentaram.

Fraco consolo tamanhas evidências e dona Argentina a imaginar o que viria a seguir.

E uma certeza a apoquentar-lhe o ar impregnado pelo cheiro das coroas de flores depois de fecharem o caixão com o marido lá dentro;

– Agora fico sozinha.

Sentiu que um resto de mais de cinquenta anos de casados e um sentimento de nunca mais era o que acabavam de fechar naquele caixão.

Aferrou-se-lhe ao coração a solidão que iria viver. Uma angustia de nunca mais continuar a viver aqueles mais de cinquenta anos de casados mesmo com azedos dias à mistura. Foi quando se lembrou da bengala. Não sabe por que raio lhe veio essa lembrança.

– A bengala!

Não recorda quem lhe disse que a devia ter metido no caixão não precisasse o marido dela para a caminhada final.

Tonteiras, fungou num pranto que os outros esperavam tivesse lágrimas.

Na véspera, dona Argentina, como de costume,  tinha ido ao mercado e trouxera dois carapaus dos grandes que cozinhou com molho à espanhola para o almoço. Dom Manolo Xisteros, galego de Ourense, marido de dona Argentina comeu o seu carapau com agrado, saboreou as batatas cozidas que foi embebendo no molho à espanhola e escorropichou dois copitos de tinto alentejano.

“Ninguém diria que estava mal e que a morte já o tinha fisgado” – disseram os mais admirados.

Seguiu-se a sesta habitual a fingir estar a ver um daqueles programas parvos que dão na televisão para adormecer velhos. Depois o passeio até ao jardim e, no regresso, com a bengala tuc-tuc, a paragem obrigatória na “Estrela da Avenida” para meia de paleio com outros arrumados da vida e beberricar, numa calma de quem sabe que o tempo já deixara de contar, umas ginginhas com elas.

Depois de se sentir velho para tanto reboliço e ter trespassado a “casa de pasto” que tinha no Bairro Alto, era este o roteiro que se apegara à feição de viver de dom Manolo Xisteros, galego de Ourense e lhe preenchia o hábito de ainda andar por aqui com a bengala tuc-tuc no resto que lhe sobejava do vivido.

Muitos anos tinham passado desde que viera de Ourense para trabalhar na carvoaria de um tio, “ali nas avenidas novas”, aviando “copos de três” e carregando sacos de batatas. As cambalhotas da vida tinham sido tantas até à fortuna da “casa de pasto” no Bairro Alto. Agora só aquela bengala tuc-tuc a ajudá-lo a chegar a casa com a goela sedosa do adocicado das ginginhas com elas e encolher os ombros às rabugeiras de dona Argentina.

– Velho beberrão.

A bengala era um adereço que não o largava desde a operação à anca quando o médico lhe garantiu que, com ela, iria melhora a qualidade de vida e a mobilidade para ir daqui para ali e de lá para cá. Desde essa douta sentença, lavrada com a sapiência de quem não lhe dava mais remédio, dom Manolo Xisteros, galego de Ourense ficara a ser uma bengala, tuc-tuc com um homem que se deixava conduzir por ela, daqui para ali e de lá para cá.

Sabia que dona Argentina, mais de cinquenta anos de casados, numa surdina de murmúrios ciumentos das ginginhas com elas já se fartara dele e da bengala tuc-tuc, daqui para ali e de lá para cá a esbarrar nos móveis que lhe apareciam pelo caminho.

E ela;

– Velho beberrão.

E gora;

Dona Argentina a ver um daqueles programas parvos que dão na televisão à tarde para adormecer velhos, na companhia da bengala, tuc-tuc que estava repousada no cadeirão onde dom Manolo Xisteros, galego de Ourense dormia a sesta e que ela se recusara a meter no caixão para o ajudar na caminhada final,

a suspirar,

– Velho beberrão, deixas-te a bengala como castigo para me sentir ainda mais sozinha.

3 Comments

  1. Genial. Ainda me estou a rir, ahah!

    Reply

  2. Jorge C Ferreira 21 September, 2017 at 15:28

    Há que dar uso à bengala! Estás em forma. Abraço

    Reply

  3. maria fernanda da cunha morais aires gonçalves 28 September, 2017 at 00:51

    Aqui sim, vale a pena dar uma voltinha neste jardim! Sempre um episódio que pode acontecer a qualquer um de nós. Oxalá que seja eu a esquecer-me da bengala e não o contrário.
    Muito bom!

    Reply

Leave a Reply to Fernanda Luís Cancel reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>