ELISA

 

 

 

 

digo-vos que Elisa foi a minha mãe, olhos azuis como se fossem o céu da planície alentejana, cabelo espesso e loiro, uma espiga que imagino, Elisa a minha mãe morreu já há muitos anos poucos meses depois de eu ter desembarcado dessa coisa ruim que foi uma guerra por onde me obrigaram a andar e ela no dia do desembarque na rocha conde d´óbidos de lenço cor de rosa como tínhamos combinado num aerograma azul e eu, no barco, a chegar-me ao cais e a ver-lhe a doença na palidez que a havia de matar. escassos anos vivemos juntos – pouco mais de vinte anos – eu e a Elisa a minha mãe nos tantos anos que levo disto ainda hoje sinto que escrever sobre a mãe e o amor são coisas delicadas, para as quais é preciso conhecer a palavra do impossível e as lágrimas de olhos azuis como se fossem o céu da planície alentejana e eu a fechar-lhos no absurdo daquele quarto de hospital com a guerra a lixar-me a cabeça e a não saber como se define a saudade; se é a essência do vazio ou o vazio ele próprio quando já não tem mesmo nada lá dentro e eu sem saber porque é que os carros eléctricos eram amarelos e porque havia gente estupidamente feliz que injuriavam a minha amargura.

julgo, ter sido tudo isto hoje ou já há muito tempo porque habituei a minha vida a ser habitada pela ausência que é coisa que não se explica e fica cá, para sempre, a sentir-se não se sabe onde, (lembraram-se de inventar a perda) e que passa a ser um inconformismo permanente como se o tempo tivesse sido parido pela cobra rastejante da submissão a que vida nos passou a obrigar, e eu, a regressar aquele calor, habitando os gestos do verão nos banhos ao sábado no alguidar de barro para irmos passear no jardim pela fresca com o cheiro da alfazema do sabão e o risco bem desenhado no lado esquerdo do cabelo, alargando o sorriso vermelho de Elisa que sempre me espantou com às coisa inexplicáveis que me ensinava como a confiança porque; não se é filho sem que o amor da mãe o tenha parido para lhe dar a confiança com que se irá iludir na vida.

e foi assim que percebi a importância da poesia numa manhã em que o céu se transformou num mar a desaguar para a terra dilúvios de ondas medonhas que traziam as algas mais estranhas das profundezas do medo e peixes incomensuráveis, nunca vistos pelas gentes que ficaram assustadas e em estado de alerta no séculos que haviam de vir e eu sem saber que aquilo que sentia era medo a não querer ir para a escola e o meu pai tirando o cinto a obrigar-me a ser comido por um daqueles espantosos peixes e Elisa, a minha mãe a colocar a formosura da sua mão na minha cabeça que me soube ao sonho do conforto e vi naqueles olhos azuis como se fossem o céu da planície alentejana e que me tinham dado a vida uma lágrima tão inexplicável como o dilúvio com que os deuses tinham mandado encharcar a terra. Aprendi, nesse altura a importância das palavras e do enorme silêncio que se faz com a sua ausência. Também vos quero dizer; aprendi por essa altura a chorar, o que passou a ser um hábito; a chorar a mansidão da tristeza que iria ser transportada por todos os defuntos que haveria de conhecer. a chorar para dentro porque nunca aprendi a coragem dos homens grandes que choram em voz grossa. a chorar o eterno agradecimento de ter conhecido Elisa e de ela me ter feito nascer.

A VIRTUALIDADE

 

somos nós e a tão pouca coisa que somos porque nos deixámos ficar em ser só isto, agora, declinando dias, meses, talvez anos, (quantos?) porque entrámos num atalho sem retorno onde vamos esbarrar com ela; a coisa medonha que dizem só vir para nos anunciar o definitivo caminho sem regresso, logo ali, ao virar daquele sobreiro, naquela curva mais apertada onde há uma moita de malmequeres amarelos que sempre foram a minha perdição e depois, a chorar pela tão pouca coisa que pude ser e o que fui ontem, soldadinho de chumbo a combater o desterro de um império, lá longe, onde não cheirava ao tojo e ao pão amassado pela feliciana, a minha avó, só sangue coalhado e almas obscuras que diziam coisas tão sofridas que espaventávamos, numa alegria de copos, bêbados até a madrugada e que estava para além do arame farpado para aparecer com a remissão de não sabermos o que éramos, nem o que fazíamos, somente a certeza comichosa de ter um par de tomates e depois, falidas que foram todas as esperanças com que quisemos adornar o acreditar, aqui estamos, humildes a olhar para um caco de espelho onde,

(que imagem tão foleira mas é o que se pode arranjar)

quero saber sobre a memória da nuvem que por lá ficou e nada; o caco a dizer-me que isso é passado e hoje já ninguém vive do passado porque nos meteram na mão uma caixinha de segredos que nos dá o presente no tempo do mesmo tempo e a virtualidade de um futuro de irrealidade; é o mundo virtual; estúpido que é que queres?  e eu pasmado no tempo, continuo à espera da justificação do passado com que me coicearam no outro tempo, aquele que vivi e de que quero saber coisas como a memória, a lembrança, o júbilo, o remorso, a bênção, a felicidade, o amor, essas coisas; não vês que somos só esta tão pouca coisa que somos porque agora queremos ser mais do que isso, virtuais virtualidades numa teima absurda de querer entender a realidade, pintando-a de tantas mentiras quantas as poderosas máquinas que nos produzem o virtual e assim querem que hoje, num folclore de crenças vadias que parlam em inglês porque o camões; lixou-se de braço dado com o pessoa, tanto que escreveram e não souberem inventar as palavras para os rufiões de agora se embevecerem com ilusões de que o futuro é mesmo assim a tomarem de assalto o meu futuro, que não sei se vou a tempo de não lho tirar das mãos e a dizerem-me que eu não sou eu e que o mundo que cheiro não existe, só existe aquele, o virtual, o que foi criado pelas suas imaginações fecundas, vindas de mundo de aventuras que é aquele mundo que me dão para ter o espanto de o olhar por um caco de espelho onde,

(que imagem tão foleira mas é o que se pode arranjar)

a memória é um travesti emplumado que vejo por um par de óculos esquisito, todo artilhado com jagunças sofisticações onde me sento num carro e vou a duzentos à hora voando por montanhas cheias de himalaias e vejo os vagalhões monstruosos do cabo horne como se o estivesse a navegar numa vela em balão e outras surpresas irreais, ali mesmo ao pé de mim que vivo com a taquicardia em alvoroço e, quando os tiro, os óculos de todas as virtualidades, e olho a realidade com a cor verde garrafa com que a elisa, a minha mãe, que teve tanto trabalho a fazer a cor dos meus olhos, cor verde garrafa, agora, coalhados por cataratas do tanto choro que sofreram pelo mundo que deixei para lá a atormentar-me o seu sem regresso e a minha estupidez de não o ter vivido como devia, vejo tamanha miséria, a insolvência de tantas vidas, o escárnio da ilusão de tantas esperanças, o sufrágio universal das demências do tipos de todos os poderes e a inclemência da brutandade de gajos que vieram não sei de onde a tomar conta disto e a malta das virtualidades, a dizer que sim, que a fome é uma imaginação escarrapachada num plasma em três dimensões como se o unicórnio em ouro destes novos ricos virtuais não quisesse, como os outros, também, os paraísos fiscais para sorver coquetéis cor de rosa, adornados com sombrinhas e palhinhas verde alface, num deleite de édens excêntricos onde vão pendurando prosaicas riquezas. desculpem, é o que vejo a olhar pelo caco do espelho que me deixaram, onde,

(que imagem tão foleira mas é o que se pode arranjar)

somos mistérios de indiferença, rebanhos guiados por uma janela global de que nos apropriámos como se fosse a nossa vingança perante o mundo de solidão que nos destinaram, e nós, só importâncias, a despejarmos socalcos da nossa placidez com confettis de festas, na ânsia de um quantidades de “gostos” ou na sinfonia de comentários de circunstância para nos darem o afecto enganoso de estarmos vivos e sermos alguém importante. alguém que nos quer vender inocências e ganhar impérios, ilude-nos, inventando o jardim virtual das amizades que ficam para além de um ecrán. quem sabe disto são os unicórnios da manipulação; sabem que a solidão dorida com que amassamos o dia-a-dia é o alvo a atacar – a solidão, a indiferença, a angustia, o abandono, o raio que nos parta… o que quer que seja, dá bom dinheiro, porque a sociedade já criou o nosso desencanto  – e bajulam-nos com ilusões cibernéticas de comunicação como se fossemos “alguém” na nuvem global da insignificância, escondendo que somos anónimos vultos aritméticos com alma de algoritmos que inventaram para os seus lucros,

(paciência;é o que vejo pelo caco do espelho)

pergunto; por onde a minha memória?

O CAIXOTE

 

que é da natureza das coisas a aristocracia não ter que denunciar teres e haveres a maltrapilhos empedernidos por invejas, era o que mais faltava, já agora, ficarem a saber tudo o que se têm; eh pá os gajos estão cheios de guito, aquilo é só mansões, gajas boas e carros de vidros fumados que só lhes falta levantar voo e agora silêncios, porque não dizem que é uma chatice do caraças ir tomar conta do caixote onde uns se dedicaram à pesca a saíram de lá com uma canastra de robalos e outros, dedicaram-se á espeleologia e esburacaram aquilo tudo com fossas maiores que crateras para sacar mordomias acionista em poisios especulativos e, agora, o gajo quer que lhe calhem pela porta nem que sejam fanecas fritas e vai dai, exigências, depois de tudo pendurado no prego, quer certezas, milenas creditadas na conta para dar um jeito no caixote mastodôntico que mais parece o palácio das mil e uma noite ou como dizem outros, mais sabedores das coisas dos defuntos; um mausoléu que dava para não sei quantos panteões para aferrolhar tudo o que fosse herói nacional desde o “chico calcinhas” que morreu cansado de ser guarda noturno, borboleteando uma cirrose que nunca teve dinheiro para beber vinho do bom, só carrascão martelado à “dona adosinda dos caracóis” que morreu de cancro nas mamas depois das mamas serem consideradas um monumento de insubmissos desejos lá no bairro; isto é o paleio do carlinhos dos joanetes a falar para o maralhal no meio de cervejolas bem fresquinhas num vai e vem de copo vai copo vem, no bar do grupo recreativo cultural e desportivo dos ferroviários da poço do bispo, num palavreado em que abana a alma com a repugnância de estimação que têm por banqueiros abjurados em enigmas de confianças, jogadores de poker encartados, jagunços de perna arcada prontos a cavalgar qualquer sela, marmanjões vindos da gravilha e do cimento que construíram com os “santos” favores da banca, gaiolas em desterrados arrabaldes para lá viverem desperdícios de almas suburbanas, faquires de todas as adivinhações, passarinhos chilreantes com gráficos de todas as certezas a subir na vida, magarefes que desbastam o nada que ainda temos para termos ainda menos, heróis de penacho na lapela gratificados por instituírem o reino “da desigualdade” como se essa fosse a religião do triunfo dos “homens providenciais”, como o outro que tinha a mania de ser dono disto tudo, abrenuncio de todas as suspeitas, alma sagrada investida das aristocracia familiares e das outras que lhe vieram do tempo do “Estorvo”; e foi o que se viu, a cobiça desenfreada, mandou meio país para o caraças e agora escreve memórias, cândido de injustiças, sem sabermos quando vai parar a grelha; já chega carlinhos, disse-lhe o parkinson do tenório cabeças, assolapado em abanões de quero lá saber se o senhor novo da aristocracia que vai mandar no caixote vai ganhar balúrdios, o que a mim me dá comichão é saber se o tipo consegue por aquilo a funcionar como deve ser sem ratonantes a abotoarem-se com o graveto que não é deles ou a emprestar aos amigos, amiguinhos, amigalhaços ou outros papagaios emplumados que dormem em cama de dossel e têm pessoal habilitado para lhe cortar as unhas dos pés; outra vez carlinhos dos joanetes agora a não deixar falar aprígio insonso que queria mandar uma boca sobre o pessoal que gosta muito de ir mandar nos bancos, mas depois armam-se em coitadinhos, que só dificuldades, que os caminhos estão cheios de imparidades e de complexos algoritmos que não dão para saber quem deve e quanto deve; intrujices que quem por lá andou soube o que deixou para os tenórios que somos todos nós, pagantes porque, os “providenciais” que se diziam possuidores do manto de todas as confianças faliram aquele merda com a ganância do seu poder escalavrado em querem ter rendas de bilros em ouro, e agora; e agora os tipos que mandam no reino vão continuar a dar andamento ao poder de mandar no dinheiro que não é deles, é meu, é teu, é dos tipos que confiam e mandam vir uma nova rodada de arlequins especialistas em manguitos para estoirar o que falta, numa roda-viva de compadrios; agora falo eu: diz lá aprígio que sabes das coisas da história como é que foi possível deixar fazer aquele caixote de mármore de carrara, torres, ameias, cúpulas e vigias, só mania de grandezas; isso foi na altura em que os da europa mandavam para cá pazadas de dinheiro para acabar com a agricultura com as pescas e com a industria e o filho do gajo da bomba só auto estradas e palácios para fazer cimeiras e sedes de bancos como se isso fosse o luxo do nosso progresso e o mausoléu que é sede do caixote a gastar tanta energia com uma vila das grandes, mesmo para os das ecologias uma afronta, mas os tipos calados, sem um pio, preocupados com o chilreio dos passarinhos, e agora a entregaram ao aristocrata que não quer que saibam que marca de cuecas veste, se tem um triciclo para passear aos domingos à beira mar, se tem um passe para ir, à surrelfa, a uma casa de acompanhantes de luxo para lhe limparem os óculos, só silêncios, dando ares de ser uma nova versão do “homem providencial” como o outro, a exigir que esgravatassem todos os buracos do caixote antes de se sentar no trono e ir de carreirinha aos da europa para sacar uma fartura de milhões para trabalhar à vontade e se a coisa der para o torto e o tipo demonstrar não ter unhas para aquilo, quem fica entalado somos nós, os pagadores de toda a casta de tropelias dos aristocratas brincalhões, convertidas num jugo de impostos; está bem, é mesmo assim, já sabemos carlinhos dos joanetes, mas como vês o pessoal que está agora no reviralho só fala na narda que o gajo vai ganhar e não quer saber de mais nada e o tipo, numa teima de aristocrata lá muito em cima, a mandar dizer que não têm que dizer nada a ninguém, que não prestar contas de qualquer tusto que tenha nos fundilhos das calças e todos num estardalhaço, num alvoroço de pelintrices e hipocrisias saloias como se isso fosse uma incomensurável afronta, descontando para as raias do desinteresse, por não valer a pena pensar no problema saber se o aristocrata finório é competente para pôr o caixote a funcionar, se gosta de vergar a mola, se tem habilidade para marear o mar de ruínas em que aquilo está, se consegue filar os que se aproveitaram da rebaldaria de terem andado por lá uns saltimbancos de carimbo na testa a jogarem à batalha naval; isso é que era valente, é que era do interesse dos servidores das majestades quem tem dinheiro, dos famélicos sem côdea para roer, dos que habitam a penúria de nada terem para além de saber o que é o futuro, dos que metem para a veia como trampas de uma sociedade onde, para uns terem dinheiro, muito, os outros têm que ter pouco, nada; é assim, sempre foi assim; o que é que queres carlinhos e que os que têm a felicidade de ganharem quinhentos até para mijarem têm os minutos contados, e os arlequins que nos fodem a opinião, só a falar que o senhor dom qualquer coisa que não gosta que saibam que marca de cuecas é que usa, que lhe dissessem o que devia fizer com o dinheiro que não é seu que o pessoal lhe confiou para dar um jeito no reino e para que, quem trabalha, consiga encontrar um pouco de aconchego; porra carlinhos, cansaste-te com tanta lábia que não serve para nada porque o pessoal anda todo numa de “selfis”, a trabalhar para o bronze da demagogia e não quer saber dos milhões que vivem penúrias como tu e a tua garina, só saber que um aristocrata que só silêncios é mais importante que tantos que gemem misérias por ai; e depois, carlinhos, não venhas queixar-te das dores nos joanetes.

A estranheza de ter um corpo

 

Adosindo Ferraz pausa a reforma de muitos anos de carteiro, por onde arrastou as pernas que são uns trambolhos, distribuindo milhares de mistérios selados por toda aquela gente de que só conhecia a ranhura de uma caixa de correio.

Pouco lhe interessou saber mais do que isso; uma ranhura e as devoluções ao remetente que eram uma chatice.

Entretanto, mundo novo,

este do pessoal desaprender a função do papel e da caneta e vá de transformar os mistérios selados em realidades virtuais, numa troca obsessiva de vulgaridades e ridicularias com que se vai entretendo pensando ser o mundo;

o que fez dele um sobejo

e Adosindo Ferraz pausando monotonias reformadas, conclui que a virtualidade sempre foi um mistério selado porque, a um corpo que destilava sebo dos sovacos de muito andar a transportar mistérios selados, correspondia a virtualidade de um espírito, uma alma, o quer que fosse, qualquer coisa que não podia agarrar mas que sabia ser ele,

ele naquele corpo que era ele.

Era este o mistério que lhe selou o tempo e que o levou a pensar nisto; ele, um corpo como se fosse um daqueles envelopes selados que tinham lá dentro uma virtualidade, um espírito, uma alma, o que quer fosse e as duas coisas a serem ele;

(o envelope e o que estava lá dentro, um espírito, uma alma, o que quer que fosse a complementarem-se como se fossem ele; Adosindo Ferraz.)

agora a pausar monotonias de uma reforma de carteiro porque sobejou quando o pessoal deixou de escrever mistérios selados.

 

Adosindo Ferraz sabia que o corpo não devia ser grande coisa porque Deus que dizem ter criado o homem à sua imagem e semelhança, nunca quis ter um corpo, ficando-se só pelo espírito, provavelmente já a pensar no mundo virtual que haveria de vir, ou então,

para evitar a trabalheira de tratar do corpo, fazer a barba, tomar banho, cortar as unhas, dar um jeito ao cabelo, limpar o cú quando se caga, ir ao médico quando começam as dores, vesti-lo, calçá-lo, bronzeá-lo na praia, num exibicionismo parolo, musculá-lo num ginásio, adornando o embrulho e iludir o ser único como se fosse uma marca distintiva que lhe dá a convicção de ser aquele tipo, realmente,

aquele tipo com aquelas ideias, cismas, saberes, caturrices, manias, sentires, amores e outras coisas complicadas que não têm nada a ver com o corpo – embora o corpo as sofra – e que são os mistérios selados do espírito, da alma ou do que quer que seja.

 

Adosindo Ferraz passou a passar o tempo que tinha de sobra por o terem transformado num sobejo, dedilhando o inverosímil tempo de espera a matutar nessa coisa complexa que é o espanto de onde viemos, carregados com as ambiguidades e os enigmas da origem promordial;

se só matéria, aguentando um corpo que se vai corroendo mesmo que seja bem tratado,

se uma virtualidade, um espírito, uma alma ou o que quer que seja que nos fode a cabeça com o pasmo do desencanto de nunca sabermos ser o que queremos ser., ou

se ambos numa convivência de equilíbrios desesperados.

 

Adosindo Ferraz sabia que ele era ele; por aquilo que era o arruinado corpo que o chateava como o caraças e pelo que tinha enfiado na cabeça durante todo aquele tempo que lhe custara a vida e que, agora, o atormentava com as interrogações da finitude.

Duas coisas numa só a viverem uma irmandade nem sempre pacífica porque, nem o corpo aguentava muitas vezes as manias do espírito, da alma, ou do que quer que fosse, nem estes aguentavam os amuos, as renúncias ou as calaceirices do corpo a não querer corresponde aos apelos do espírito.

 

Com o tempo a avançar para a finitude;  “pardacento” com Adosindo Ferraz gostava de dizer, o homem magicava no que havia de deixar dito sobre o que lhe fazerem ao corpo depois do momento de já nã poder mais. Espantava-o que, quando um tipo se finava, o pessoal andasse num corrupio de aflições para tratar do corpo, que houvesse, até, uma indústria lucrativa e muito bem montada para lhe dar tratamento e que o ediles das freguesias, câmaras ou cidades desbaratassem espaços enormes de terreno fértil para guardar os corpos.

Do espírito, da alma, ou do que quer que fosse, pouca coisa a afligir, preocupações ligeiras. Era uma virtualidade que não dava trabalho. Pirava-se, sem sabermos para onde e, umas missas, umas rezas, uma velas a encomendá-la à misericórdia do Senhor Deus para que não fosse esturrar no inferno e o caso ficava arrumado.

 

Aquilo que fora uno, separava-se, e  Adosindo Ferraz ficava sem saber quem seria o verdadeiro;

se o corpo que poucas horas depois de finado começava a feder como se todo o investimento feito no seu sustento e aformoseamento não valesse mais do que uma merda tão mal cheirosa,

se o espírito, alma ou o que quer que fosse, que se pirava, para parte incerta, de mansinho sem ninguém dar por isso, sem chatear o pessoal, sem dar trabalho algum como se quisesse ir para o seu mundo incógnito de que nada sabemos.

 

O corpo é que era uma carga de trabalhos porque estava ali, ocupando espaço, ameaçando maus cheiros, exigindo atenção, reclamando preocupação e, em muitos casos, o desejo de não o deixar partir assim, por isso; escanhoá-lo, vesti-lo, encaixotá-lo em veludos e cetins e depois passeá-lo pela cidade até chegar a um buraco fundo onde, lágrimas e flores afirmavam despedidas daquele que se pensava ser, realmente, o senhor fulano de tal.

Como a inteligência tem que se afirmar como inteligente, os senhores tipos que dirigem isto, resolveram, dado que o destino do corpo é um incómodo e a transcendência metafísicas sobre a matéria e o espírito é coisa que não entra nos orçamentos camarários; tão-somente a gestão do espaço, cada vez mais minguado para armazenar corpos floridos e mal cheirosos em lentas decomposição era o que os apoquentavam. Lúcidos, inventaram a cremação do corpo. Sempre era uma coisa mais cómoda, higiénica e que ocupava menos terreno fértil e as edilidades podiam aprovar novos condomínios privados.

 

Mas o problema subsistia, apoquentava-se Adosindo Ferraz, pausando a reforma. Ficavam as cinzas que o mesmo é dizer ficavam os restos do corpo do senhor fulano de tal como se aquele pó fossem as tripas, o coração, os pulmões, os ossos, o unto, as miudezas e os demais enfeites, completamente esturricados, guardados num pote que se recebia com choros mas que não sabia o que se lhe havia de fazer. O conteúdo era aquilo a que tinham conseguida reduzir o senhor fulano de tal porque o espírito, a alma ou o que quer que seja, adeus oh vindimas já se tinha posto ao fresco para parte incerta.

Para Adosindo Ferraz subsistia o problema; um pote com as cinzas do corpo pousado no aparador ao lado do televisor por cima de um napperon de linho e renda fina e o espírito, a alma ou que quer que tivesse sido ausente em parte incerta, podiam afirmar que, afinal, o senhor fulano de tal tinha sido só um, mesmo que, na hora da finitude cada um se balda-se para o seu lado como se nada tivessem a ver um com o outro?

A PERITAGEM

O Parkinson de Tenório Cabeças seguia atento tudo o que se passava e tinha entrado num desassossego de abanões violentos como se o mundo se estivesse a transformar numa coisa pior do que já era. Foi quando, sabendo que a nobreza o impedia de depor na Peritagem sobre os anos de trabalhos mortificados que passara na frota que decidiu ditar para memória futura o seu depoimento.

 

Disse: vou lembrar passados.

 

“Durante quarenta e muitos anos pensei ter trabalhado para tipos sérios, mesmo que, muita vezes, tivesse sido assim-assim. Concluo, agora, que nos últimos tempos estive a soldo de uma súcia bem montada que esbulhava os incautos com promessas de ouro porque estavam cravados de dívidas. Um dia até me quiseram dar uma pistola para o assalto ser mais rápido. Recusei. Depois; que não, que não valia apena, desse-me um dos chefões, vermelho dos uísquis; bastava usares a palavra e a bazófia da marca, porque os tansos não percebem nada do que lhe dizemos. Só querem ouvir falar de juros mais altos. São uns agiotas como nós. O chefão, vermelho dos uísquis chamou a isto; estratégia de venda forçada.

Vendo-me cá fora porque o limite de idade carimbou-me como incapaz, um dia em andanças pela cidade a espairecer o Parkinson, os sapatos levaram-me até um sítio, de tão conhecido que era até as solas escorregaram na calçada Dei de chofre com o bunker da frota e, apoderado pelo espanto da primeira vez, dei por mim a olhar o gradeado dourado todo cagado pelo tempo.

Ofuscava-me o espanto e o sentimento de estar a olhar para um presídio onde, quarente a tal anos de mim, estavam ali enclausurados, sem os poder reaver e vivê-los de outra maneira.

Fui possuído pela sensaborão do iniludível passar do tempo e descobri, finalmente, que era um velho.

Confiara o tempo de uma vida inteira àqueles tipos e, agora, naufragado, vejo a soberba de quem nunca quis saber dos outros para além da distância até onde vai o esguicho do seu mijo egoista.

 

Envelhecemos quando o espanto nos dá conta que o tempo passou e somos confrontados como significado impiedoso da palavra irremediável. Numa estranheza de coisas estranhas,  passámos a ser habitados por realidades esquivas; dores, doenças e outros males que ignorávamos. Dizem-nos os sábios de bata branca e de estetoscópio pendurado ao pescoço como se fosse o colar de um qualquer curandeiro de uma exótica tribo indígena que a chegada das dores e de todo o tipo de maleitas está associada a processo natural de termos consumido boa parte da vida.

(numa espécie de conforto piegas, pondo-me a mão indiferente no ombro carente, desse-me o tal médico de estetoscópio em forma de colar: – Inconscientemente ou nem por isso, é um processo a que não damos importância para conveniência da nossa ilusão.)

 

E,

que baralhar o sentido de orientação no espaço e calçar os sapatos ao contrário, é natural

que a vozes que ouvimos e confundimos com o hino nacional, é natural.

que os joanetes que cresceram e que a muito custo metemos no nos chinelos do quarto, é natural.

que o coração que passou a discordar do ritmo dos antigos batimentos, descompassando-se em paragens súbitas e arranque engasgados, é natural.

que a falta de tesão e ter o penduricalho sempre descaído como um fruto mucho de préstimo duvidoso, é natural.

que a ausência da antiga firmeza nas nalgas que começam a estar ao dependuro, numa flacidez de pudim caseiro, é natural.

que mijar muitas vezes como se a bexiga estivesse possuída pela inveja de ser pouco importante e nos quer lembrar que sempre esteve ali, esquecida, mas que chegou a altura de nos atormentar as horas, é natural.

que enfiar a colher ao lado da sopa ao lado da boca numa falta de pontaria parkinsiana, é natural.

que num dia se caga duro e noutro é uma soltura de águas imparáveis, é natural.

que os joelhos são gonzos ferrugentos, sempre a gemer como se as pernas do antigo andarilhar sejam, agora, pesados portões de mausoléus em ruínas, é natural.

que o olhar parado, a beiça húmida, a face absorta, compondo uma carranca assustada com o espanto de já pouco entender o que se passa, á natural.

 

Tudo natural porque estamos a viver a decadência natural de nós próprios.

Sabemos, já tarde, como seres irreversíveis que a decadência que herdámos ao nascer e começou a contar desde o primeiro hora é, afinal, natural.

 

Embasbacado frente a um edifício mastodôntico onde enterrei a minha irreversibilidade, entendi que tudo o que fiz para aqueles “fulanos de tal”, durante todo o tempo que gastei atá aqui chegar, o fiz por dever de consciência, usando e abusando de um tempo que é, afinal, irrepetível.

Finalmente, com o Parkinson montado à garupa deste mistério de me ir desfazendo em torpores incontroláveis, numa lentidão de búzios, dei conta que só me resta o fim.

Estou, finalmente, a caminho desse fim que dizem ser natural.

O tempo, bem me avisou quando, muito dele já o tinha gasto em minudências terrenas ou a aturar Impérios de vontades alheias e que já não tinha remédio para corrigir a forma como o gastei.

Examinei-o e vi que estava gasto.

A angustia de não poder voltar atrás e ter arranjado melhores companhias, é um  terramoto que me sufoca o arrependimento. Olhando para o torpor de tanto tempo ter remado na frota, descobri que foi a crueldade quem inventou o impossível.

Sobra-me um relógio que esgueira horas, escondendo-as, porque as lágrimas já me alucinam, a vista e só me recordam o levantar, todos os dias, à hora certa, para o que foi uma vida inteira a chafurdar em hipocrisias que, vejo agora, terem sido embustes montados por malfeitores de escrúpulos baixos, por diabos sabidos que me transformaram os dias no dever tortuoso de muito marear num lento prelúdio para a morte.

Foi o que consegui trazer até aqui.

Sei que a finitude é um descalabro que logo nasce connosco e que muitos, por soberba de linhagem, acreditam nada ter a ver com eles porque o sangue com que nasceram é diferente, só deles, desigual ao dos outros, ao da pobreza e pensam que isso os ajuda na descoberta da eternidade.

Pensam. e é por isso, para defesa do seu mundo que se tornem avaros e gananciosos – admitem, orgulhosos – esquecendo-se que morrem como os outros. Vão mais bem cheirosos, mais idos em caixões de cetim, mais barbeados, mais com luxurias de flores, velas e missas, mas fodem-se à mesma, morrem como os outros como os miseráveis quaisquer que tanto odiaram e sei que não vão para paraíso nenhum, porque Deus, que já não acredita no que que criou à sua imagem e semelhança, manda-os lixe e veda-lhes o acesso ao paraíso a que julgam ter direito.

Sei que a finitude é o ponto final da velhice, afinal, os abanões do parkinson já se confessaram cansados e um tipo rechonchudo de bata branca e colar de feiticeiro ao pescoço, desse-me que é natural o naufrágio ter-me enchido os pulmões com a ruína de ter confiado.

Vou, flutuando, sem sentido por esta praia onde arribei, desconhecendo os azimutes onde estou, transportando algas misturadas com o entulho que salvei como se fossem relíquias preciosas.

Vou, flutuando, sem sentido, à procura de um espaço em que possa transformar-me numa rocha definitiva, igual às falésias que sempre me cercaram.

Era isto que tinha para vos dizer.”

 

( do meu livro “O Marujo – Uma História Trágico-marítima” a publicar.)

 

 

 

OS “CACHAÇOS”

 

                                                                                                                                       uma estória antiga que os mais antigos me contaram, antigamente

 

Sebastião “Cachaço” ficou-se pelo atarracado. Pouco crescera em altura. Alargara e, assim, passou a ser o que era. Largo de ombros. Peludo no peito. Tufos a saírem-lhe descompostos pelo “V” da camisa sempre desgargalada. Nos braços, na parte que se via, logo abaixo das mangas da camisa sempre arregaçadas, queimados pelo braseiro das searas no Agosto; pelos e mais pelos. E peludo noutros sítios, está bem de ver ou de imaginar.Barriga a saltar por cima do cinto das calças. A parte nobre daquele figura; a que lhe dava o cognome; era um pescoço enorme, cheio de roscas calcinadas pelo sol das inclemências alentejanas que lhe ligava o resto do corpo a uma cabeça pequena, sempre de boné aos quadradinhos a tapar-lhe as sobrancelhas.

Aquela enorme rosca, que lhe substituía a delgadeza de um pescoço como devia ser, estava na origem da alcunha.

Numa terra onde o nome que vinha da pai baptismal pouca importância tinha, porque a imaginação de quem vive, num conluio de vizinhanças, acha melhor uma alcunha como se ela fosse uma marca que se ferra no gado.

Assim, Sebastião “Cachaço”. Para todos: o “Cachaço”.

Que seja então “Cachaço”. Sebastião “Cachaço”.

Por herança paterna Sebastião “Cachaço” ocupava-se em ser agrário. Com mais umas terras que se juntaram, vindas do lado materno o homem era o incontestado dono de um latifúndio que se estendia para os lados de Safara e quase extremava com Espanha, já perto de Barrancos e da Amareleja. Atravessava-o o rio Ardila que nos anos em que a secura não derreava tudo, ia dando de beber ao gado e às searas que se perdiam por aqueles ondulantes outeiros.

(Vivia-se o tempo em que chamavam ao Alentejo o celeiro de Portugal. Noutros sítios, cultivar vinha era dar de comer a um milhão de portugueses. Noutros, plantar pinhal era um imperativo nacional, porque o pinhal haveria de ser o petróleo do país. Assim alardeava, vociferante, a propaganda do regime. E no regime, imperava Salazar, a quem os do reviralho chamavam “O Estorvo” e que ia acumulando o ouro que lhe vinha da miséria em mantinha a populaça a viver e da ardilosa diplomacia com que contentava a sua inclinação germanófila, sem beliscar o centenário tratado com sua Alteza Real a Inglaterra. Porque; negócio do volfrâmio dava para todos.)

Mas voltemos ao “Cachaço”, ao Sebastião. Agrário com um latifúndio de terras na margem esquerda do Guadiana, de corrente de ouro que saia, a atravessar-lhe a barriga opulenta, de um dos bolsos do colete de cotim para o outro, onde se escondia um relógio, artefacto desnecessário para quem tinha dificuldades em ver as horas, (pouco afeito que estava com números e, principalmente, com esse mistério que eram as letras e a seguir com as palavras e, depois com as frases). Aprendera que o sol lhe indicava as virtudes do passar do tempo e a fome a hora da pastagem. Sempre era um relógio mais fácil de consultar. “Cachaço”, espelhava-se no orgulho dos seus domínios e com ele, ia adubando aquelas terras que lhe davam importância, poder e reverências dos que dele necessitavam e que eram tantos. Sobretudo em anos de miséria. A fome e o nada ter, obrigava, nesses tempos, a uma dorida vénia e a uma mão estendida, humilhada, a esmolar a um “Cachaço”.

(“Vida ruim, vivida num vale de lágrimas” –  lembro um dos antigos a contar-me o que o povo sofria.)

Montado a cavalo com o capataz de espingarda aperrada, sempre uns metros atrás, para lhe cobrir as costas, Sebastião “Cachaço”, olhava aquela largueza de terras e era possuído pela nostalgia. Vinha-lhe à ideia, uma prole de descendentes que haveriam de dar continuação à herança que dizia ter sido benzida pelas muitas missas que mandava rezar ao padre Bento, na igreja Nossa Senhora do Carmo.

Essa coisa desconforme que lhe fazia amolecer o “mau génio” e que lhe disserem ser a nostalgia, era como um bicho manhoso. Trazia-o incomodado, taciturno, a saber que tinha que dar uma volta à vida. Afinal, não era mais do que o problema de sucessão. Sebastião “Cachaço”, sentia ter chegado a hora de arranjar mulher, dar vazão ao sémen acumulado em anos de poisio e emprenhá-la as vezes que fosse preciso para lhe dar um rebanho de filhos.

Sebastião “Cachaço” era o único filho, o herdeiro universal, porque os outros dois irmãos tinham-se ido, ainda crianças, com maleitas próprias da idade ou, como diziam coscuvilhices mal intencionadas, vindas de invejas e maldições, ungidas por rezas com velas postas em cruzeiros à meia noite com a lua escondida no negrume de nuvens agoirentas; vítimas do “mau olhado”. Isso, afirmavam as velhas, ajeitando o xaile negro na cabeça.

O homem, já andava para dentro da idade e urgentava-lhe a necessidade de casar para ter o tal rebanho de herdeiros que lhe ficassem com tanto património e, principalmente, com o cognome, “Cachaço” porque uma alcunha é uma herança que se deve preservar como o brasão de uma família com muitos teres e haveres.

 

Dona Isabelinha aprendera a tocar piano e a falar francês como a marca distintiva das famílias com laivos de aristocracia, ainda que falidas. Pavoneavam-se pelos Estoris, fazendo negaças a um tempo que diziam não passar porque tinha que preservar as tradições. Tinha a arreliá-la uma chusma de tias solteironas que lhe iam dizendo; Isabelinha a menina está com uma idade que se aproxima do limite do casadoiro, tem que arranjar um homem que tenha muito se seu para nos tirar desta pelintrice de aparência aristocrática, ontem já mandámos remendar alguns lençóis e temos que comprar vestidos novos para ir à festa de anos da marquesa de “Penacho Alto” e não temos dinheiro para tudo, isto dito e redito com voz áspera a meio do chá das cinco e das torradas. O pai de Dona Isabelinha, desde que enviuvara não queria saber de falências muito menos das tias solteironas; era vê-lo a passear-se pelo Tamariz, num velho “Bugatti” descapotável, à caça de espanholas e à noite, a ficar cada mais endividado, na roleta do Casino Estoril.

Num feliz domingo de Pascoa, após um almoço de borrega assado no forno, Dona Isabelinha, a falida descendente de vetustos aristocratas, acertou casamento com Sebastião “Cachaço” o rico agrário. Uma união por conveniência, lavrada em letra desenhada por um tabelião que selava o casamento, onde Dona Isabelinha, tomaria parte de todos os bens do “Cachaço”, dando como contrapartida, a obrigação de emprenhar as vezes que fossem necessárias para dar o tal rebanho de filhos ao “Cachaço”. Da aliança entre a fome e a vontade de comer, resultava que a fortuna do agrário salvava a monarquia da falida da família aristocrática, o futuro da chusma das tias solteironas e desenhava a risonha esperança de um rebanho de herdeiros para os montes e vales do “Cachaço”.

Dona Isabelinha lá foi, por caminhos poeirentos, viver para um monte nos arredores de Safara, terra que nem sabia que existia, muito menos onde ficava.

Assim salvaram-se as pratas, a cagança aristocrática, o “Bugatti” descapotável e, seja como for, uma mulher sempre tem que ter um homem mesmo que não tenha pescoço; pode até ter um “cachaço” desde que com muito dinheiro.

Mas cagança, cada um com a sua; para Sebastião “Cachaço”, também cagança. Para um alarve mais parecido com um almocreve, onde só brilhava a fortuna, era uma cagança casar com uma fidalga da linha, mesmo falida que sabia falar francês, tocar piano e beber chá às cinco da tarde acompanhado com palitos “la reine”. Aristocracia sempre é aristocracia, mesmo que fosse num monte perdido nos arredores de Safara.

 

                                                                                                                                   o que se segue foi-me dito pelos antigos que viveram o antigamente;

                                               

a aristocracia falida que se pavoneava pelos Estoris como se os brasões ainda valessem antigos penachos, casava filhas                                                     com ricos comerciantes saídos da burguesia florescente que vendia fazenda a retalho ou com rudes agrários que                                                                   intervalavam a caça às rolas ou às lebres com vindas à cidade à caça de “meninas de boas famílias” nos “coutos” da Linha                                                   dos Estoris.

 

Era assim naquela altura; (afirmaram-me), neste jardim à beira mar plantado, onde Salazar, desconfiado, arregimentava o cruzamento entre as classes possidentes, as novas e as antigas para que mantivessem o mando e o poder e, assim, começava a ser o homem providencial e o “valha-nos Deus” que nos tinha salvo de entrar na grande guerra.

Dizem as más línguas, (sempre as más línguas) que Sebastião “Cachaço”, finada a boda de arromba, depois de partir o bolo dos noivos e de beber o champanhe francês com o dedo mindinho espetado, à noite, ainda arrotando bolinhas do champanhe, quando, em ceroulas, se enfio na cama para tomar conta daquilo que era seu e que lhe custara bom dinheiro, olhando de soslaio para Dona Isabelinha que era um novelo de vergonhas, de camisa de noite de finíssima cambraia que a cobria dos pés até ao pescoço, onde era apertada por um farfalhudo laço de cetim cor de rosa, rasgou, de alto a baixo, os alvos lençóis de seda, porque as unhas dos pés, que se esquecera de cortar, estavam tão afiadas como finos arados para lavrar terra dura.

                                                                                                                               

                                                                                                                              os antigos contaram-me o sucedido ontem e ainda hoje se houve contar.

 

(e o compadre médico – o único médico naquelas agrestes redondezas –  a perguntar; e então compadre Sebastião “Cachaço” como foi depois e depois, o “Cachaço” a dizer com um riso alarve, compadre senhor doutor, depois um homem não se pode ficar, montei-a mesmo assim com os lençóis lascados e lavrei-a com a rabiça do arado que um homem que é homem não pode deixar para amanhã o que tem que fazer hoje, não fosse eu o Sebastião “Cachaço”, dono disto e daquilo e agora de uma mulher que tenho que emprenhar para me dar um rebanho de filhos.)

 

Do esperado cruzamento entre Sebastião “Cachaço” e Dona Isabelinha – por mais lençóis que se lascassem – para a conta do almejado rebanho só uma cria;

Ivo. O Ivinho. O menino Ivo “Cachaço”, assim se chamava a venturosa criatura que herdara o invólucro do pai, as finuras da mãe e a soberba de um fedelho, filho único, montado em hectares e hectares de terras.

(atoleimado, coitadinho; a coscuvilhice das más línguas a trabalharem nas costas do casal dos senhores agrários em                                                             invejas; o menino saiu lerdo, benza-o Deus, naquele cachaço que lhe esbugalha os olhos. Diz-se que, avesso ao saber                                                         das cartilhas do Estado Novo repetiu, duas vezes, o exame da quarta classe e da admissão aos liceus e só um enorme                                                         folar, de presente para o prior da diocese de Beja o fez passar.)

Dona Isabelinha expiou amarguras naquele monte alentejano nos arrabaldes de Safara por não ser a parideira do tal rebanho de filhos como tinha ficado lavrado no contrato. Os ossos da bacia são muito estreitos, disse-lhe Idalina a criada mais velha, enquanto a benzia do mau olhado, usando um malga com água da cantarinha e umas gotas de azeite. E assim se foi finando a nobre senhora, já sem gosto pelo piano que o marido mandara vir da capital e esquecendo o francês porque nem o pastor do rebanho das ovelhas a entendia quando o tratava por monsieur.

Sebastião “Cachaço” com um herdeiro que, mesmo atoleimado, lhe haveria de tomar conta dos destinos da largueza de terras, acreditando que o Pai do Céu, o destino e o sangue que lhe herdara, o haveriam de por fino na mudança da idade ou na primeira vez que fossa às putas – como lhe dizia o compadre o médico – cada vez mais a caminho dos Estoris, agora, à cata de espanholas numa correria de despejar odres. Perfumava-se e cortava as unhas dos pés, não fosse lascar os lençóis alheios e fizesse má figura junto de meninas tão prendadas.

Ivinho “Cachaço” já espigado e aferroado ao mando que o pai lhe dava, subia para o tractor, manhã cedo, e ia passear-se pelo meio da searas, mesmo na altura em que estavam boas para a ceifa. “Menino Ivinho não faça isso não vê que assim arrebenta com as searas e vai ser tudo prejuízo o que dirá o seu paizinho?” O capataz a carpir-se numa roda de consumições. E Ivinho “Cachaço” cada vez mais atoleimado; ” estou a abrir estradas, o futuro esta nas estradas, este pais precisa é de estradas, seu estúpido.”

 

                                                                           ao contarem-me esta estória, gente mais moderna, garantiu-me que Ivinho “cachaço” chegou a senhor                                                                                    ministro das obras públicas. Com outro nome, está claro, mas o mesmo “cachaço” porque um “cachaço” é                                                                              sempre um “cachaço”. quando é que foi ministro? não sei. não sou dessas coisas da política, respondam                                                                                vossas excelências…                                                                                                                                                                                                                                                                                             

 

 

 

 

CRÓNICA DE UM PRESÉPIO IMPROVÁVEL

 

Seu Vadinho e a transbordante pachorra de um enormidade negra, descia todos os dias lá do morro até ao sítio do alcatrão onde gente remediada comprava coxinha de frango, empadinha de carne picada, bolinho de queijo, pãozinho quente, feijão preto com farofa, carne do açougue e outras coisas que eram a sua vida naquela padaria de esquina. Seu Vadinho tinha muito para contar. Depois de ter sido muito assaltado e roubado por “pivetes” para gastarem em “maconha” e, Deus me valha, até uma vez, cinco minutos com uma “peixeira” encostada à carótida, esta quieto não te mexas que te sangueramos mesmo aqui com se fosses um boi, enquanto limpavam o balcão e os fregueses de todo o dinheiro e seu Vadinho numa promessa a Jesus Cristo, vou-me embora daqui e te serei grato para sempre.

e assim foi,

seu Vadinho com o dinheiro que lhe arrecadou de toda a vida, comprou um fio de ouro com um crucifixo e uma passagem para Portugal para vir ajudar um patrício que vendia coxinha de frango, empadinha de carne picada, bolinho de queijo, pãozinho quente, feijão com farofa, carne do açougue e outras coisas, numa padaria de esquina num bairro meio fino da capital. Seu Vadinho, lembrando o susto da peixeira encostada à carótida no infindável tempo de cinco minutos, onde rezou tudo o que sabia e inventou novas orações ao senhor do Bonfim, cumpria a promessa de fazer, todos os anos, um presépio que cintilava, no canto do balcão, luzinhas intermitentes, amarelas e azuis a piscarem a saudade do seu céu carioca.

havia quem dissesse que o presépio de seu Vadinho falava e dizia;

“que o menino Jesus berrava “baba e ranho”, inquietando a sua desesperada mãe que não sabia o que lhe fazer, porque as palhas da manjedoura onde o tinha deitado lhe picavam as costas e lhe faziam comichão no rabo. A porra da tradição de me deitarem numa manjedoura só lembrava a quem nunca se deitou numa manjedoura. Depois o bafo da vaca, quente e pegajoso, cheira a esterco e não me deixa dormir e o zurrar do burro que o fazia dar um salto de susto sempre que o animal se lembrava de dizer qualquer coisa na sua estridente linguagem asnídia. É um desassossego viver neste presépio. Logo ele, a quem um tipo com asas, vestido de branco reluzente e que lhe disseram ser um anjo, coisa que ele desconhecia, e tinha vindo de propósito do céu para lhe anunciar a boa nova; que ele, o menino Jesus, que haveria de ser homem e depois Jesus Cristo, tinha vindo ao mundo em nome do Pai para espalhar a palavra da salvação aos ímpios e aos pecadores que andavam cá em baixo desbaratando a vida em luxurias e em vaidades. O pai, o outro, eternamente encostado ao cajado, mantinha aquele expressão confusa, de, por muito que matutasse não conseguia perceber o mistério do nascimento daquele filho que a tradição o mandava deitar naquele monte de palhas que lhe enchia o corpo de brotoeja e ser adorado pelos do povo que vinham, desde pastores a Reis magos; todos em alegria dando ossanas ao salvador. E a mãe a barafustar com o pai, o do cajado, a jurar-lhe, lavada em lágrimas que era virgem porque assim lhe tinha dito o tal anjo. e o menino Jesus, lá estão eles outra vez com esta irritante discussão doméstica, sempre a falar no divino espírito santo ou coisa assim e que me põe em alvoroço por serem transcendências de adultos e eu com fome, a querer só mama, rabo seco e que aquela estranha mistura de palhas com uma vaca e um burro me deixassem dormir. Depois via a excitação do pai, o do cajado, e da mãe, a virgem, a limpar e a arrumar a cabana, ou seria uma gruta? porque uma estrela lhes tinha dito que viriam, em comissão de boas vindas uns fulanos montados em camelos que diziam ser Reis magos, uma palavra que ele não sabia o que queria dizer e lhe trariam ricas oferendas, outra palavra que ele não sabia o que queria dizer e ele a dizer aos pais que; estou muito bem acompanhado pelos pastores, não gosto de Reis, muito menos de magos e o meu Pai, o outro, disse-me que viria para ser pobre e mostrar aos homens que a grande riqueza são eles próprios e não o ouro, os palácios, o escravos, o petróleo e o dinheiro em offshores, mas a estrela estava atrasada e diziam as más línguas que se tinha perdido porque nessa altura ainda não havia gps e finalmente os Reis magos a chegarem e logo ali a mostrarem como são diferentes os ricos e eu cheio de comichões por causa da palha da manjedoira e a espirrar com o cheiro do incenso…

e o menino Jesus

a pensar; o meu pai, o outro, o que disse para eu vir ao mundo trazer a palavra da salvação, parecia que não ligava nenhuma a isto, só pessoal a morrer de miséria, gajos a roubar descaradamente, tipos à porrada uns com os outros, cheias, tremores de terra, milhares de mortos, desgraças por todos os lados.

a pensar; estou lixado com tanto trabalho que tenho pela frente quando for nomeado chefe desta confusão em que está a terra. O Vaticano que dizem ser o escritório onde está o meu poder é uma balburdia de cinismos palacianos porque todos lutam pelo poder de dizerem que falam em meu nome e em nome do meu Pai que me mandou por ordem nesta rebaldaria. Deixaram-se corromper pelo dinheiro, pelo fausto, pela vaidade, pela abundância, pela gula, pela ganância, o mal de todos os homens e até dos banqueiros…

e depois dizem que a salvação do mundo está na caridade.

O que hei-de fazer?

Teimam, todos os anos, fazer de mim um lindo menino, deitado numa manjedoira de duras palhas que me arranha as costas e o rabo, a respirar o bafo de uma vaca, a assustar-me com os zurros de um burro e ser adorado por mudos pastores à espera que as riquezas que os Reis magos me irão trazer possam ser, também, para eles.

as riquezas, sempre as riquezas.”

Um freguês, espantado, enquanto apaladava uma coxinha de frango, disse: “Oh seu Vadinho o seu presépio está muito lindo mas o menino Jesus é preto!”

“Eh meu irmão. Lá no morro de onde eu vim, os moleques são todos pretos, eu mesmo sou, como podes ver. Pode ser que o tal de menino Jesus tenha passado lá pelo morro numa altura qualquer.”

E seu Vadinho: “Vai outra coxinha de frango?”

MARIALINDA

Hoje nem isso tenho. Um nome. Sou a doente da cama 3 sala 8. Quando a desgraça nos impacienta o destino, logo perdemos o nome. Passamos a ser um número para melhor nos identificarem no emaranhado das paredes onde nos asfixiam a identidade. Marialinda chamou-me a minha mãe mesmo antes de me separarem dela, mal me viu nascer,

é tão linda a minha menina, “benza a deus” que lhe deu tanta formosura. Agora que tenho estranhos micróbios que vão comendo a parte boa das minhas entranhas, sou só a doente da cama 3 sala 8. E aqui cheguei sem saber como. Mal me tinha habituado a viver. Tenho duas retorcidas cicatrizes no sítio das mamas. Foi por ai que tudo começou e foi só isso que me restou. As retorcidas cicatrizes e o vazio. E o estetoscópio do senhor de bata branca que mexia o lábios a dizer-me e eu sem querer ouvir e eu a querer saber o porquê da minha mãe me chamar Marialinda. Sempre tão bondosa a minha mãe;

agora uma saudade, a única que me vem ver lá do sitio estranho onde está. Senta-se aos pés da cama 3 sala 8 e diz-me; não venhas que eles queimam-nos as solas dos pés e obrigam-nos a esfacelar os joelhos para nos redimirmos dos pecados e ficarmos a saber o caminho para as portas do céu e eu, noite dentro só cama 3 sala 8 a sonhar com uma alma penada que vêm não sei de onde, a única que sabe onde estou e eu só um pesadelo sem me sair da cabeça;

o meu marido quando me viu sem mamas, a pegar no dinheiro que tínhamos e a sair porta a fora, disparado com medo que o remorso o fizesse tropeçar naquilo que eu era antes, agora marialinda sem mamas, marialinda duas retorcidas cicatrizes no sítio daquilo de que ele tanto gostava, marialinda estás no início da decadência, marialinda o bichos invisíveis vão-te comer por dentro e eu ainda não a doente da cama 3 sala 8, marialinda já quase a perder o nome e ele, o meu marido, com medo de olhar para trás e ver-me outra vez com mamas e ficar e as vizinhas com cara de dó mas de rabo alçado de gozo a dizerem-me:

Marialinda vimos o teu marido a gastar o dinheiro todo com putas com mamas grandes e a última vez que o viram, foi uma caboverdiana que mo disse, tinha um pacote de vinho na mão e discursava para a estátua de um tipo qualquer, cheio de dragonas de herói de dedo em riste, duque de qualquer coisa ou marechal de coisa nenhuma e deve dormir todo enrodilhado no esconso de umas escadas de uma casa que sei está lá fora, para além destas paredes da sala 8 cama 3 onde me asfixiaram a identidade e onde espero que os micróbios maus, os bichos invisíveis, a crueldade da vida, o vazio de não ter mamas e ter duas retorcidas cicatrizes no seu lugar, isso tudo, ou o que quer que seja;

que acabe o seu trabalho para eu deixar de ser definitivamente Marialinda.

A DÚVIDA

“Pináculo” Tengarrinha não tinha iphone, ipad, phones, nunca tinha feito uma selfie e acomodava no bolso esquerdo das calças um telemóvel do tempo em que as mensagens ainda eram mandadas por pombos correios. “Pináculo” era alcunha como se deve concluir. Porquê? Pela altura, está bem de ver, e por aquele ar esgrouviado e meditabundo que lhe compunha a imagem. No emprego; um “call-center” onde abundava gente transitória na transitoriedade de um emprego intelectualmente insuficiente para “a dúvida” de “Pináculo”, os transitórios, tipos e tipas, achavam-no assim, muito coiso. Um “merdas”; dizia com acepipes de masculinidade o “monte de músculos”;

(que era o encarregado que “malhava” horas a fio num ginásio que bebia uma mixórdia verde vitaminada que tinha uma vagina tatuada no braço que abria e fechava consoante entesava ou relaxava o músculo do braço que as “pitas” de unhas de gel e cabelos esticados ginchavam saltinhos perante as graçolas que o monte de carne intumescida dirigia a “Pináculo” Tengarrinha averbando mais uma vitória alarve no currículo machão que…)

“Pináculo” Tengarrinha pouco se importava, pelo menos parecia; seria? isto de o mundo ser um pântano de crueldades onde a imbecilidade premiava a imbecilidade, um circulo vicioso criado pelo homem para não ter o trabalho de pensar – pensar cansa, pensava “Pináculo” – e pacato, viver uma felicidade embrutecida, era um sofisma que já não o apoquentava.

“A dúvida”              era outra;

outra coisa.           Coisa mais complexa que o trazia absorto como um vegetal.

O mistério da concepção.

Sim.                       O mistério da concepção.

Sabia que ele, mesmo assim, feito daquele jeito, resultara da explosão de desconhecidas sensações, talvez ternuras, prováveis felicidades, inimagináveis sentimentos, quando um rabiante espermatozóide fecundou um desprevenido óvulo.

“A dúvida”

Ele “Pináculo” Tengarrinha seria mais espermatozóide, mesmo que pouco rabiante, ou mais óvulo, mesmo que mais desprevenido?

“A dúvida”

Tinha dias que se sentia mais óvulo, mais redondo, mais gordo, mais desprevenido e tinha que empurrar o sono dos tipos cinzentos que enchiam o metropolitano para mais um dia de tédio. Outros dias sentia-se mais espermatozóide, mais magro, mais comichoso, sempre a rabear, em busca de provocar uma explosão de estrelas que nunca tinha visto como se fosse uma girândola de foguetes numa festa de aldeia.

“A dúvida”

que se instalara, fazia de “Pináculo” Tengarrinha um absurdo. Um “coiso” como diziam as unhas de gel, um “merdas” como dizia a vagina tatuada no braço do energúmeno musculado.

Um dia, por mero descuido mental, “a dúvida” caiu ao chão e, porque era de cristal, desfez-se em mil pedacinhos que cintilaram na estupefacção de “Pináculo” Tengarrinha. Os outros, aqueles, os que estavam mesmo em frente, arranhando o destino, despreocupados com o mistério da finitude, afinal, também eram o resultado do milagre de uma misteriosa explosão, quando um espermatozóide rabiante fecundara um óvulo desprevenido.

Incrédulo, pensou. Se assim era, então, o porquê de só ele ser um “merdas”?

“A dúvida” instalou-se novamente.

Esta vai dar-te muito mais trabalho a decifrar, “Pináculo” Tengarrinha.

(falaremos um dia sobre isso.)

A IMENSA ETERNIDADE

 

(o afastamento do Jardim foi feito de tanto tempo e de tanta coisa vazia que hoje, ainda, estou para saber porquê. A razão de “criar” o “jardim dos mal encarados” ficou explicada la par trás. Uma memória, porque, quando pouco somos, e queremos saber o que somos, sobra a memória. Só a memória. A minha continua a estar, estranhamente, presa aos tempos que me fascinaram a infância. Relembrar-me da alma leve e da inconsciência de, por essa altura, nada saber sobre os assombros da vida, é um sortlégio.  E correr, correr desenfreado, pelo jardim dos mal encarados, atrás de uma bola que o meu avô me comprou na feira de Setembro;

infâncias,

agora volto, prometendo-me, assiduidades, porque, afinal, escrever pode ser uma inutilidade, mas poder ser, também, o cisma para entender os assombros da vida. Teimemos; )

 

Acordei para levar mais um dia que os outros querem que leve. Médicos, curandeiros, bruxos, políticos mandantes, comprimidos, xaropes, exercício físico, bagatelas de desdém com que os escribas nos pasquins diários nos entopem a razão. E eu silêncios. A acomodar-me a esta fartura de já tanto tempo ter. E a pensar, ao levantar-me da sanita; adiamentos, esperanças que haveriam de mudar coisas, coragens de rotundas cheias de gente que foram, outra vez, adiamentos, ilusões que periféricas almas alimentaram, vontade, de sem saber o que era meu, acreditar numa liberdade possível. O incómodo matinal e eu pensar-me mal acordado. Uma merda cada amanhecer; fico com essa ideia. Ideia que transporto quando vou lavar os dentes. Ideia que se repete, diz-me a escova, ou será a água fria que me enche as bochechas e me acorda de vez, a dizer-me que estou de pé?

(vê lá se cais outra vez, ouço dizer da cozinha.)

Afinal só fósseis, vaidades suburbanas, gulas de alecrins que querem ser mais e mais do que os defuntos que arrastam dentro de si, num prazo de validade que desconhecem, finalmente, hipocrisias porque, outra vez, os do governo a dar-lhe crédito e eles a correr em votações de compromisso, comprometendo-se na prestação do novo carro para se enfiarem na “bicha” para a caparica, numa rufiagem de não quer saber. E eu silêncios, apaladando o salobro da insónia e a virem à memória os rios que me fizeram inchar as mãos durante a noite a pensar na ausência de já não ser o patético centro onde, alguma vez fui alguma coisa. Agora solidões, alheamentos e a estúpida revolta de ter sido instrumento de insignificâncias. Confronto-me com o vazio de ter sido e com a necessidade de encher o vazio de ser, novamente. Agora só palavras que me interessa inventar; e os outros, indiferenças. Vivo a métrica de mim mesmo que luto para não se desfazer com o banho Uma métrica onde teimo encontrar a razão para acordar, para me manter acordado.

O vizinho do andar de baixo tem um papagaio que me diz:

“Vai à merda. Deixa de ter pena de ti e apanha o carro eléctrico para visitares um qualquer cemitério onde encontrarás almas penadas, bem mais penadas que a tua. Depois anda descalço num campo de urtigas e ficarás a saber como “marear” o resto da vida que te falta para ires viver a imensa eternidade.”

Logo mais, vai chegar a noite que não é mais do que a véspera do acordar. Outra vez…